Grazi Massafera e Jade Picon, atrizes de Travessia
Grazi Massafera e Jade Picon, atrizes de Travessia (reprodução/Instagram)

Tudo bem que Travessia, provavelmente, não figuraria mesmo entre os melhores trabalhos de Gloria Perez, autora com bons serviços prestados ao longo de sua carreira. Ainda assim, a novela saiu do ar deixando a sensação de que poderia não ter sido tão ruim assim se tivesse buscado outros caminhos. No final, tudo pareceu desperdiçado. Fora as pontas soltas, com entrechos que foram abandonados sem qualquer explicação.

O capítulo final ficou marcado por uma bizarra cena no multiverso, na qual Chiara (Jade Picon) ficou frente a frente com Débora (Grazi Massafera), sua mãe que morreu logo depois que ela nasceu. Foi impossível embarcar na emoção do reencontro se o contexto não fez o menor sentido. Ficou ridículo, para não dizer constrangedor.

Mas o mais bizarro de tudo isso foi a demora da autora em desenrolar a trama envolvendo a origem de Chiara. O nascimento da jovem, vale lembrar, foi o principal acontecimento do primeiro capítulo de Travessia. Foi ali que se estabeleceu a rivalidade de Guerra (Humberto Martins) e Moretti (Rodrigo Lombardi), dois sócios que se tornam inimigos depois de se envolverem com a mesma mulher, Débora.

Não era a melhor história do mundo, mas… já pensou se Travessia tivesse ido mais a fundo nessa rivalidade? E se Chiara descobrisse antes que, na verdade, era filha de Moretti? E Moretti, o que faria ao descobrir que teve uma filha criada por seu grande inimigo? Ele a utilizaria em seus planos de vingança? Era uma história que tinha potencial, mas Gloria Perez decidiu empurrá-la até o último capítulo, num desfecho anêmico. 

Porém, o maior erro foi a trajetória de Brisa (Lucy Alves). A protagonista da novela já foi rejeitada de cara por se mostrar pouco inteligente em várias situações. A autora tentou “salvá-la” adiantando seu romance com Oto (Romulo Estrela), mas a heroína seguiu dando mancadas a novela toda. Foi forçado ela gritar para Ari (Chay Suede) que ele não era o pai de Tonho (Vicente Alvite) apenas para desencadear a trama do DNA e o fato de ela não ser reconhecida como mãe biológica do menino. Não fez sentido.

A tal da “fake news” que ela foi vítima também não convenceu. Primeiro, porque foi um equívoco da autora tratar fake news como brincadeira de criança. O negócio é bem mais sério. Segundo, porque a montagem de Brisa como sequestradora de crianças só viralizou naquela praça onde ela foi perseguida, na primeira semana da novela. Depois da fuga da mocinha, o plot só foi relembrado na reta final, quando o exame de DNA apontou que Tonho não era seu filho.

Foi boa a ideia do quimerismo de Brisa trazer a “fake news” de volta à tona. Mas tudo isso aconteceu só na reta final, depois que a mocinha ficou meses andando em círculos na chatíssima disputa da guarda de Tonho com Ari. Este último, aliás, ganhou contornos interessantes após dar o golpe em Guerra. Mas o lado “psicopata” do rapaz poderia ter sido mais bem explorado.

A ideia de falar sobre tecnologia não funcionou. Travessia só acertou mesmo nos alertas do vício em jogos e nos riscos da rede, com a história de Karina (Danielle Olímpia), vítima de estupro virtual. No mais, o tema se resumiu a bobagens como metaverso e robô Haroldo, que, felizmente, sumiram da história.

Houve ainda desperdício no núcleo do Encanto da Vila. Bons atores, como Betty Gofman, fizeram figuração de luxo. Aliás, personagens que “sobraram” não faltou. A trama da assexualidade de Caíque (Thiago Fragoso) ficou pelo caminho e Leonor (Vanessa Giácomo) ficou completamente perdida. A queda de braço envolvendo Guida e Moretti foi outra bobagem que não levou a novela a lugar nenhum.

E as pontas soltas? Núbia (Drica Moraes) deu a entender que o pai de Ari era um mau-caráter e que ele tinha um irmão. Mas o assunto foi esquecido. Guida também comentou de um tal irmão do Moretti, que jamais apareceu. Também foi estranho Helô (Giovanna Antonelli) e Stenio (Alexandre Nero) reaparecerem após Salve Jorge (2012), mas nunca terem sequer citado a filha, Drika (Mariana Rios), ou o neto que tiveram na novela anterior. A doença de Guida, que desenvolveria a Síndrome de Munchausen, também foi esquecida.

Enfim, Travessia foi uma novela esquisita. Uma trama sem apelo, mal arquitetada e com furos enormes. Gloria Perez, acostumada a arrebatar o público com novelões, desta vez ficou devendo.

André Santana

06/05/2023