"Garantindo minha fatia
do bolo publicitário"

Os últimos dias não foram tão bons na RedeTV. Na semana em que o canal de Amílcare Dallevo e Marcelo de Carvalho comemora 20 anos da estreia de sua grade de programação, o noticiário televisivo foi tomado por notícias dando conta das demissões e cortes na emissora. Talvez a mais simbólica das dispensas tenha sido a da jornalista Claudia Barthel, apresentadora que estava no ar ainda na extinta Manchete, esteve na fase de transição entre as emissoras e foi a comandante do RTV, segundo jornal da história da emissora, exibido na hora do almoço. Nestes 20 anos, Claudia passou por vários programas jornalísticos da RedeTV e era prata da casa.

Infelizmente, crises fazem parte da história da RedeTV. A emissora começou já enfrentando o fantasma das dívidas da Manchete, em um imbróglio que se arrastou por anos a fio. Ao mesmo tempo, a expectativa de contar com uma grade regular esbarrou na falta de recursos, obrigando a emissora a dispensar boa parte de sua programação a concessionários. Em seus primeiros anos, a RedeTV não tinha uma grade matinal, toda tomada por religiosos e televendas. Hoje, os espaços alugados estão em blocos distintos da programação, como o início da manhã, a faixa entre 13h e 15h, o espaço entre 17h e 18h, e até o horário nobre, das 20h30 às 21h30.

A emissora chegou a respirar e ensaiar uma recuperação, quando enxugou custos e alugou o horário nobre. Mas a crise atual, que afeta não apenas a RedeTV, mas todas as emissoras, obrigou o canal a tomar novas medidas. Além de dispensas, como a de Claudia Barthel, a RedeTV também cortou horas extras, o que vai afetar sua programação noturna. Programas como Superpop e Leitura Dinâmica deixam de ser ao vivo.

O mais curioso deste triste cenário é que a RedeTV parece uma emissora de contrastes. Ao mesmo tempo em que dispensa funcionários e enxuga custos, o canal ostenta um dos maiores e mais tecnológicos complexos de estúdios da TV brasileira. A emissora sempre se orgulhou estar na vanguarda da modernidade, tornando-se pioneira no Brasil na transmissão em alta definição e 3D. Tanta tecnologia nunca se justificou na prática, afinal, assistir programas estáticos, como A Tarde É Sua, Tricotando e TV Fama em 3D não parece lá muito atrativo.

Enquanto isso, Marcelo de Carvalho, vice-presidente e apresentador da RedeTV, tomou para si a missão de brigar para tentar reverter o que, segundo ele, é uma distorção. O empresário reclama, nas redes sociais e em entrevistas, que a distribuição de publicidade entre os canais abertos é injusta, já que “a Globo tem 30% de audiência e 80% do bolo publicitário”. Uma colocação que poderia até fazer sentido, se Marcelo também tivesse a boa vontade de fazer uma autoavaliação. Afinal, o que a emissora dele está fazendo para conquistar o respeito do mercado publicitário?

Não é preciso ser um especialista em mercado para entender que os anunciantes, de maneira geral, não gostam de vincular suas marcas a conteúdo de gosto duvidoso. E, infelizmente, a RedeTV ainda é especialista neste filão. Com uma programação tomada por segredos fakes, debates infundados e o chafurdamento da vida de celebridades e subcelebridades, a RedeTV confunde o popular com o popularesco. Ao mesmo tempo, as opiniões polêmicas do dono respingam em seu departamento de jornalismo, único segmento do canal que poderia agregar algum prestígio à emissora.

A RedeTV nasceu com o slogan “uma opção de qualidade na sua TV” e a bela intenção de ser um canal sofisticado, com uma grade variada e tomada por bons filmes, boas séries e programas de cunho informativo e cultural. Mas não conseguiu se fazer relevante com esta proposta, descambando para o popular poucas semanas depois de sua estreia. E tudo bem. A emissora não precisa ser uma nova BBC, mas também não precisava descer tão baixo. Afinal, programação popular não precisa ser, necessariamente, de mau gosto.

Ou seja, neste aniversário de 20 anos, a RedeTV precisa avaliar se vale a pena continuar gritando para ser vista, ou se a resposta junto ao mercado publicitário seja justamente a mudança de direção, no sentido de fazer um canal minimamente mais atrativo. Não vai acontecer, afinal, o canal tem 20 anos e, até hoje, não fez esta autocrítica. Mas é o único caminho possível. Gritar e espernear não vai adiantar.

André Santana