sábado, 16 de janeiro de 2021

"Amor Sem Igual" e o atual momento da dramaturgia da Record

 

A dramaturgia da Record vive de fases. Depois da fase áurea, representada por tramas como Cidadão Brasileiro, Vidas Opostas e Chamas da Vida, veio a fase bíblica, na qual Os Dez Mandamentos se tornou a grande vedete. Atualmente, a emissora tenta repetir o sucesso da saga de Moisés (Guilherme Winter), ao mesmo tempo em que aposta em histórias contemporâneas vez ou outra, como em Topíssima e a atual Amor Sem Igual. 

Mesmo que tramas bíblicas e contemporâneas se revezem no horário nobre da emissora, é claro perceber que o viés religioso está mais presente do que nunca na dramaturgia do canal. Na “fase áurea”, por exemplo, havia citações ao “coisa-ruim” (em Cidadão Brasileiro, Fausta, personagem de Lucélia Santos, era uma referência ao Fausto de Goethe, que vendia a alma ao diabo), e a emissora até mesmo abordou a transexualidade antes de A Força do Querer, em Vidas em Jogo, com Augusta (Denise Del Vecchio), que era uma mulher trans.

Atualmente, as novelas do canal estão mais, digamos, conservadoras, já que conta com Cristiane Cardoso como supervisora de texto. Sendo assim, mesmo as tramas contemporâneas não escapam de, vez ou outra, embarcarem numa panfletagem sobre religião. Topíssima, por exemplo, resgatava orientações de Casamento Blindado, livro da própria Cardoso. Já Amor Sem Igual mostra a religião por meio dos personagens.

Neste contexto, a trajetória da prostituta Poderosa (Day Mesquita) é até convencional. A heroína Angélica teve um passado difícil, o que a levou a se prostituir. Durante a trama, ela é “salva” pelo amor e encontra o caminho da religião. Era o que se esperava quando a Record anunciou que sua protagonista seria uma prostituta. Foi o que aconteceu.

E isso não é um demérito. Cristianne Fridman, a autora de Amor Sem Igual, é muito habilidosa na condução de suas histórias. Com mão firme para folhetins, a autora criou uma heroína carismática e uma trama interessante. O seu desfecho pode parecer um grande merchan da Igreja Universal (e é mesmo), mas, dentro da dramaturgia proposta, é um desfecho que funciona muito bem. Até porque novela já é, por si só, um produto mais conservador. Esperar reviravoltas mirabolantes é um pouco demais.

Claro, a coisa funcionaria melhor se fosse feita com um mínimo de sutileza. Jogar um QR Code que leva o espectador direto ao site do Templo de Salomão em uma cena é o tipo de coisa que pode jogar por terra a boa história que estava sendo narrada. Já que a Record quer usar suas novelas para promover a sua igreja, poderia ter, ao menos, o bom senso de fazer isso por meio das histórias. A trajetória de Angélica já é uma propaganda poderosa. Não precisava “desenhar”.

Na verdade, o que se pede é que se tenha o mesmo cuidado que se exige quando qualquer novela resolve fazer merchandising social. É preciso que a temática que se pretende abordar esteja dentro de uma dramaturgia, ou seja, a serviço da história. E não o contrário. Se não for feito de maneira habilidosa, o merchan cria um ruído na narrativa e o espectador percebe. Assim, ele terá o efeito contrário do que se pretendia alcançar.

Basta ver a reação na internet sobre o tal QR Code de Amor Sem Igual. A propaganda descarada pegou tão mal, que as qualidades da história acabaram ofuscadas por uma repercussão negativa. De novo: a própria história de Angélica em si já passava a mensagem do “caminho da salvação”. Não precisava de panfletagem. Bola fora.

A “fase áurea” da dramaturgia da Record, na qual as novelas podiam ser mais “fora da caixinha” e não tinham a obrigação de fazer propaganda religiosa, faz muita falta. Mas, se a emissora pretende continuar a usar suas novelas para passar suas mensagens, que ao menos o faça diante de uma boa história, com uma boa produção e um elenco bem escalado. Neste sentido, Amor Sem Igual teve mais acertos que erros.

E, agora, é a dramaturgia bíblica propriamente dita que está em xeque. Depois de produções que passaram em brancas nuvens, e que nem de longe resgataram o sucesso de Os Dez Mandamentos, a emissora agora aposta em Gênesis, uma superprodução épica dividida em sete fases, que funcionarão como sete “minisséries” amarradas. Pelo que se vê, o resultado na tela é mesmo deslumbrante. Vamos ver se a dramaturgia será tão poderosa quanto a produção. Lindas imagens são o chamariz, mas o que segura a audiência mesmo é a emoção.

André Santana

3 comentários:

  1. Olá, tudo bem? A Record TV tem todo o direito de expor a visão da IURD em suas telenovelas. Direito dela. E é nosso direito assistir ou não. Foca em um público. Eu, particularmente, não fiquei envolvido com Amor sem Igual. Gostei mais de Topíssima. Sobre as tramas bíblicas: a IURD passou sua visão nos textos do Novo Testamento. Direito dela. E naufragou com Jesus e Apocalipse. Em Gênesis, não deverá ocorrer esse fenômeno (texto do Velho Testamento). Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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    1. Sim o canal e dela. ..porem com a intervenção tão forte da igreja mas tramas vai ter sempre poucos autores a disposição pra escrever pois serão meros fantoches da filha do bispo

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    2. Oi Fabio! Oxi, em que momento eu disse que ela não tem esse direito? A Record pode fazer o que ela quiser. Mas eu, enquanto crítico de TV, também tenho o direito de apontar que esse tipo de merchan de igreja empobrece a dramaturgia. Estou aqui pra analisar dramaturgia, e não crenças pessoais. Abraço!

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