sábado, 27 de julho de 2019

Nostalgia e non sense "salvaram" "Verão 90"


"Só faltou os brinquedos do Gugu!"
Não há dúvidas de que a história de Verão 90 deixou muito a desejar. A trama criada por Izabel de Oliveira e Paula Amaral foi uma sucessão de esquetes de humor, sem uma espinha dorsal lá muito definida, além de sérios problemas estruturais, buracos e inconsistências. Mesmo assim, a novela das sete conquistou uma audiência bastante satisfatória, se tornando um dos principais sucessos da faixa na década. Afinal, Verão 90 foi ruim ou não?

Para quem desligou o botão da coerência e embarcou no universo amalucado de Verão 90, a novela, verdade seja dita, divertiu horrores. Direção, atores e texto carregaram nas tintas, oferecendo uma novela propositalmente carregada e exagerada. Muito mais kitsch do que as novelas dos anos 1990, que a estética da obra tentava emular. O resultado foi uma história com personagens que eram caricaturas e situações um tanto over.

Curiosamente, Verão 90 homenageou bastante a década de 1980. O fato de o trio protagonista Manu (Isabelle Drummond), João (Rafael Vitti) e Jerônimo (Jesuíta Barbosa) ter feito parte de um conjunto musical infantil da década anterior em nada acrescentou ao enredo. Mas, sem dúvidas, o prólogo do primeiro capítulo, os flashbacks e as canções claramente inspiradas em Balão Mágico e afins, despertou a nostalgia de quem foi criança naquele período (incluindo este que vos escreve).

No ano de 1993, onde se situou a maior parte da ação de Verão 90, pouco importava de onde vieram Manu, João e Jerônimo. Enquanto os dois primeiros viviam típicas situações de comédia romântica e tentavam reaver a fama (e João buscava provar sua inocência numa acusação de assassinato que o levou à cadeia), o terceiro tentava se dar bem. Jerônimo virou Rogê, se fez de rico, conquistou amigos na alta sociedade carioca e conseguiu um bom cargo na Pop TV, emissora musical que homenageava a lendária (e saudosa) MTV Brasil. Ali, ele aplicava golpes e batia de frente com Mercedes (Totia Meirelles), a dona da estação e grande vilã da novela, que era má apenas porque era e pronto.

Mercedes, aliás, formava com Lidiane (Claudia Raia) e Janaína (Dira Paes) o trio de protagonistas maduras da obra. E as duas primeiras traduziam bem o clima exagerado de Verão 90. Mercedes era a vilã de novela mexicana, com caras e bocas e discursos politicamente incorretos. Enquanto isso, Lidiane era a bufona, um tipo cômico elevado à enésima potência, e com a exuberância que só Claudia Raia consegue alcançar. Muitos criticaram o sotaque carioca fake da “pantera”, mas, justiça seja feita, a atriz é ótima defendendo peruas assim. Já Janaína era a típica mocinha batalhadora, que venceu na vida com honestidade e cuidava dos filhos com unhas e dentes.

Estes e outros personagens carregaram estes meses de Verão 90 nas costas com situações episódicas, costuradas pelas divertidas vinhetas da Pop TV (que souberam reproduzir as “loucas” vinhetas que caracterizaram a MTV), músicas da época e muita nostalgia. Enquanto a trama rolava, vários ícones da década surgiam na história, como roupas, celulares antigos, lambada e, claro, novelas, muitas novelas. Como Verão 90 se passava no universo da fama, incluindo aí os bastidores da TV, as novelas da Globo foram reverenciadas em vários momentos (inclusive aconteceu uma gafe, num caco de Claudia Raia, que disse que Fera Ferida era uma novela de Gloria Perez. Na verdade, a trama era assinada por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn).

Vale destacar o bom desempenho de vários atores, como Camila Queiroz, que se mostrou madura como a vilã Vanessa. Ao lado dela, Gabriel Godoy fez de Galdino mais um bom tipo seu em novelas das sete, e o ator já se tornou um curinga da faixa. Jesuíta Barbosa, com ótimos serviços prestados em séries e minisséries, estreou com um papel regular numa novela e foi um bom vilão. Muitos o acusaram de inexpressivo, mas discordo. Jesuíta fez um Jerônimo mais contido, justamente para contrastar com o exagero do restante da novela. A força da atuação do jovem estava no olhar atento e nos pequenos maneirismos. Foi bem. Outro destaque é o sempre bom Ícaro Silva, que divertiu horrores como Ticiano, o cantor de lambada. Sua parceria com Dandara Mariano, a Dandara (ótima também, atriz da melhor qualidade com excepcional tempo de comédia) funcionou muito bem.

Quando Verão 90 estreou, falei aqui que a novela poderia cair na armadilha de se calcar demais na nostalgia e se esquecer da história. E foi isso mesmo que aconteceu. Por outro lado, o tom farsesco, exagerado, non sense e descompromissado da obra acabou por render situações deliciosamente ridículas. E isso é um elogio. As autoras conseguiram unir escracho e humor fácil, quase infantil, criando tipos divertidos vivendo situações inusitadas. E tudo isso emoldurado pela nostalgia, o que deu a Verão 90 uma identidade muito forte.

Talvez seja questionável a opção da direção (encabeçada por Jorge Fernando) em fazer uma novela plasticamente parecida com as dos anos 1990. Os cenários eram mais “pobres”, a iluminação era chapada e tudo soava fake. Algo que salta aos olhos do espectador agora, já acostumados com os filtros de texturas de imagens e cenários realistas. Tal opção deu a sensação de que Verão 90 foi uma novela mal feita. Mas, com certeza, até isso contribuiu para que a novela tivesse uma cara muito particular. Para o bem e para o mal.

Sendo assim, apesar da história fraca, Verão 90 foi bem-sucedida no sentido de trazer um entretenimento descompromissado e escapista. Pode não virar um clássico, mas divertiu quem comprou a ideia. No fim, acabou sendo uma experiência bem interessante.

André Santana

5 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Acabei de publicar minha relação de pontos positivos e negativos de Verão 90 no meu blog. Eu adorei esse filtro na novela. Chega de escuridão!!! Novela não é filme!!! Novela não é série!!!! Novela é novela!!! Cenários limpos. Sem ornamentação. Ótimo. Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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    1. Também axho que acunagek cinematografica deveria ficar restrita a seriados

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    2. esse filtro é a tendência pras novelas e será assim pra sempre, você vai ter que aceitar isso sem mimimi

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    3. Oi Fabio, oi Miguel! Concordo em termos. Não vejo problemas com os filtros de imagem, só vejo problemas quando eles são mal utilizados, ou quando a fotografia acaba ficando escura demais (tipo O Sétimo Guardião). Porém, ao mesmo tempo, acho que o tratamento de imagem é necessário, sim, porque estamos em tempo de alta definição, 4K e afins. Ou seja, uma imagem não tratada fica feia nestes novos aparelhos. Verão 90 me soava fake demais, porque os cenários tinham cara de cenários. Compare com a atual, Bom Sucesso, que tem a imagem mais bem tratada, mas é, também, limpa, clara, clean. Não vejo esse tratamento como tentativa de imitar cinema ou sérios, e sim como uma adequação à nova realidade, que são imagens de altíssima definição. Abraços!

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  2. Foi uma novela adoravelmente ruim! Gostei demais da pobreza estética e do formato de tramas episódicas, como a do sonho batizado que quase todos os personagens comeram. Mas para mim, que adoro novela e tinha alta expectativa com essa, por se passar na década que cresci, faltou o principal: uma história cativante. Também poderiam ter escalado atores icônicos da década ou ainda terem mergulhado mais fundo no que aconteceu nos anos 90 (ficou superficial demais). E deviam punir quem desperdiçou Cláudia Ohana desse jeito.

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