sábado, 25 de novembro de 2017

"Apocalipse" tem uma boa história em mãos, mas se perde no tom doutrinário

Finalmente, saem de cena os figurinos que parecem fantasia de escola de samba, os cenários de parque temático e as paisagens do deserto. Em Apocalipse, nova novela bíblica da Record, a ordem é brincar de “futurologia” diante do livro bíblico de mesmo nome, narrando os acontecimentos previstos no livro sagrado que levarão à destruição do mundo. A trama assinada por Vivian de Oliveira conta a história da chegada do anticristo, do arrebatamento e do retorno de Jesus, tudo em tom de folhetim.

Apocalipse, sem dúvidas, tem uma grande história pra contar. Afinal, o que não faltam são conjecturas acerca do fim do mundo, tema recorrente no cotidiano das pessoas (afinal, quantos “fins dos mundos” não são constantemente anunciados por aí?) e até nas grandes produções cinematográficas. O cinema-catástrofe de Hollywood já explorou o tema sob as mais variadas óticas e possibilidades, produzindo grandes blockbusters que arrastaram multidões para diante das telonas.

Ou seja, o que não faltam são possibilidades narrativas. Como se trata de uma novela, Vivian de Oliveira conta a história num tom romântico, embora bastante sombrio. Apocalipse traz casais apaixonados e romances, mas traz também um “narrador-diabo”, um thriller policial e até um espírito maligno que cerca os personagens centrais.

Apocalipse teve um primeiro capítulo de impacto, como pede uma novela com uma temática tão obscura. O tom soturno imperou desde a primeira sequência, com uma muito bem feita cena de um tsunami, que matou os pais de Alan (Maurício Pitanga), um dos protagonistas desta primeira fase, passada nos anos 1980. Outra sequência de impacto foi a descoberta de um assassino em série no Brasil, injetando uma trama de mistério em meio às demais tragédias. Chamou a atenção também o fato de o primeiro capítulo ter se passado em vários lugares do mundo, como Israel, Brasil e EUA.

Com uma direção inspirada de Edson Spinello, Apocalipse finalmente tira a dramaturgia da Record do lugar-comum, buscando uma identidade própria à trama. Os takes inusitados e as grandes tomadas chamam a atenção, assim como a direção de atores. Boas performances foram vistas, com destaque para Manuela do Monte (Débora), Maurício Pitanga, Marcelo Argenta (Luís) e os veteranos Jussara Freire (Tamar) e Lucinha Lins (Lia). Entretanto, a trama apela para a cafonice em alguns momentos, com as falas em off do anticristo, na voz de Sergio Marone, que não convence nem como narrador e nem como diabo. A fumaça preta que representa o espírito maligno que envolve Adriano (Felipe Cunha) também pareceu óbvia e despropositada.

No entanto, o que mais pesa contra Apocalipse é seu tom absurdamente evangelizador. Não que as novelas bíblicas da Record não tenham este propósito, mas em Os Dez Mandamentos, A Terra Prometida e O Rico e Lázaro, por mais que trouxessem mensagens religiosas, ainda se percebia uma intenção maior de se contar uma história, e não apenas evangelizar. Já Apocalipse parece mesmo um tanto mais explícita em seu tom doutrinário, parecendo querer deixar claro que salvos serão aqueles que estão sob a proteção da igreja (e não qualquer igreja), e que aqueles que não o estão irão para o inferno. Muitos enxergaram elementos da igreja católica ao lado daqueles que cercam a história do anticristo na trama. Complicado.

Uma pena! Vivian de Oliveira mostrou, em seus trabalhos anteriores, que tem boa mão para transformar passagens bíblicas em folhetim, mesmo que resvale no didatismo e nos diálogos pobres. Mas, ao menos, mostrou habilidade na construção de suas tramas e subtramas, o que não parece uma tarefa fácil, tendo em vista que a Bíblia não é assim tão detalhista em suas narrativas. Sempre coube à autora preencher brechas e criar histórias paralelas para dar sustentação às suas tramas, afinal, por mais que a temática seja bíblica, ela escreve uma novela. E novelas têm suas próprias características, que precisam ser respeitadas.

Em Apocalipse, a liberdade de criação de Vivian de Oliveira é muito maior. Assim, seria bem melhor se a temática fosse tratada, como em Os Dez Mandamentos, como uma história a ser contada, e não como ferramenta doutrinária. Seria até uma maneira de atrair um público diferente para as novelas da Record. Ao manter o tom excessivamente evangelizador, a Record atrai somente os fieis da igreja que a controla.

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André Santana

6 comentários:

  1. Em resumo: Tem gente que acha que o problema do Brasil é a Globo...Vendo a concorrência, dá para ver que, se um dia tomarem a liderança midiática, a coisa será ainda bem pior que é hoje (sem querer defender a Globo). A Record tem um discurso fundamentalista que é perigosíssimo e doutrinário e não vejo muita gente reclamar nas redes sociais; já a Globo muitas vezes apanha de forma exagerada. Mesmo com os programas de polícia, já existe todo um discurso moralista e que parece fazer que só existe salvação na igreja (e não qualquer igreja, como você bem diz no texto...). As novelas são só mais um veículo para isso, lamentavelmente.

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    1. A autora da trama se não me engano é evangélica...o perigo é puxar a sardinha pro lado da iurd..ate pra evangelizar não é bom atacar a fé alheia

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  2. Pois eh, eu tava super afim de ver, mas ai vi o clip e brochei. Aquelas citacoes religiosas, parecia que queria me evangelizar. E criticas ao catolicismo, em guerras santas nenhuma religiao tem razao. Eu achei que por ser contemporanea nao teria esse teor evangelico. Outra coisa no clip que me incomodou foi um excesso de atores. Mas pelo que vi a audiencia ta decrescente nao? Se bem que eh normal imicio de novela audiencia cair. Nossa estamos numa ma fase nao? Novelas da Globo e Record no horario nobre com audiencia ruim e criticas negativas. As das!

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  3. So lembrando que mesmo que Apocalipse tiber audiencia igual ou inferior a Rico e o Lazaro, a Record tem motivo para continuar com novelas evangelicas (passarei a chamar de novelas evangelicas, porque se fossem mesmo religiosas abririam espacos pra novelax com outras religioes como catolicismo, umbanda, islamismo) ja suas producoes sao sucessos de venda e audiencia no exterior

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  4. O problema é a mão da IURD por trás da trama!

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  5. Isso pra Record não se achar tanto !
    O emissora que se acha antes de vê o resultado público
    Tenho a impressão que a cada ano a Record perde mais telespectadores devido a sua ganância e mesquinharias que sempre fazem
    Além de não tratar seu auditório muito bem vamos dizer !!

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