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Fila de autores para o horário nobre ainda é um problema na Globo

Aguinaldo Silva
O autor Aguinaldo Silva (reprodução)

A faixa das 21 horas da TV Globo, historicamente batizada como o coração da programação da emissora, atravessa um momento de  indefinição de bastidores. O público atualmente acompanha Quem Ama Cuida, e a única certeza no horizonte do horário nobre é a escalação de Filhos do Divino (título que deverá ser alterado), obra inédita de João Emanuel Carneiro vendida como continuação do fenômeno Avenida Brasil. 

O problema real começa no dia seguinte ao encerramento da trama de Carneiro: a alta cúpula do canal simplesmente ainda não bateu o martelo sobre qual autor assumirá o bastão do horário mais importante da grade. Essa crônica indefinição escancara uma ferida antiga na gestão de conteúdo da emissora: a incapacidade crônica de manter uma fila organizada a longo prazo. 

No passado, saber quem escreveria a novela das nove com dois ou três anos de antecedência era a regra do jogo, permitindo pré-produções minuciosas e escalações sem sobressaltos. Hoje, a Globo vive de sobressaltos conceituais e urgências, avaliando projetos de Manuela Dias e Bruno Luperi sem dar o sinal verde definitivo, deixando o mercado e a própria equipe técnica em compasso de espera.

Essa pane de planejamento é o reflexo tardio, mas inevitável, de um processo de transição mal administrado após a perda consecutiva de seus maiores medalhões. A faixa das nove foi desidratada criativamente após a aposentadoria ou falecimento de grifes como Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa e Gilberto Braga, além do afastamento de nomes como Silvio de Abreu e Gloria Perez da linha de frente. 

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Valorização da experiência

É justamente no epicentro desse caos de planejamento que surge uma notícia capaz de reconfigurar o tabuleiro do horário nobre. De acordo com informações publicadas pelo portal Notícias da TV, a Globo oficializou a renovação do contrato do veterano Aguinaldo Silva até o fim de 2029. 

O autor, que havia retornado ao canal no fim de 2024 sob um esquema rígido de contrato por obra apenas para escrever Três Graças, agora ganha um vínculo estável de mais três anos e já foi incluído oficialmente na fila de desenvolvimento para a faixa das 21h.  

A decisão de estender o tapete vermelho para o criador de Senhora do Destino (2004) e Fina Estampa (2011) funciona como um forte indicador de que a emissora percebeu o erro estratégico de abrir mão de seus autores clássicos. Ao garantir a permanência de Aguinaldo, a direção de teledramaturgia sinaliza o desejo de colocar ordem na casa e estruturar uma fila minimamente confiável. O canal compra tempo e ganha o peso de uma assinatura que, independentemente de críticas estéticas, possui uma conexão quase umbilical com o grande público da TV aberta.

Essa valorização tardia dos veteranos serve como um excelente sinalizador para o mercado. O flerte excessivo com narrativas experimentais de streaming ou remakes rurais exaustivos cansou o telespectador tradicional. Trazer de volta a grife de um autor vencedor do Emmy que entende perfeitamente a estrutura do melodrama clássico, calcado em vilões folhetinescos memoráveis, reviravoltas rocambolescas e forte apelo popular, é o primeiro passo concreto para rejuvenescer a mística das novelas das nove.

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Equilíbrio

A presença de Aguinaldo Silva na disputa direta pelo horário não invalida a necessidade urgente de renovação, mas impõe um filtro de maturidade indispensável. Enquanto o autor de Três Graças desenvolve sua nova sinopse, os projetos de Manuela Dias e Bruno Luperi continuam sob a lupa da direção. 

O grande desafio da Globo não é escolher entre o clássico e o moderno, mas aprender a costurar uma transição suave onde ambos os estilos possam coexistir na grade sem sobressaltos ou cancelamentos abruptos.  

A atual política de deixar a definição para a última hora prejudica diretamente a qualidade técnica do produto final, gerando estreias atropeladas que o público logo rejeita. Ou pior: gera a necessidade de remakes, fórmula que vem se mostrando cada vez menos eficaz. Com a canetada que segurou Aguinaldo Silva até 2029, a Globo começa a colocar ordem na casa e reorganizar seus núcleos criativos. 

A lição que fica desse atual período de indefinição é que o desespero por novidades baratas quase custou a identidade do horário nobre. O futuro da teledramaturgia da casa depende da sua capacidade de olhar para a frente sem esquecer as fórmulas estruturais que a consagraram. A fila pede ordem, e o público agradece o retorno do profissionalismo.

André Santana

20/07/2026

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