sábado, 4 de novembro de 2017

Pesada, "O Outro Lado do Paraíso" carece de mais equilíbrio

No ar há duas semanas, O Outro Lado do Paraíso já deixou bem clara a sua proposta de não reinventar a roda. Folhetim rasgado, como uma colcha de retalhos de clichês, a nova história de Walcyr Carrasco aposta suas fichas em duas histórias principais fortes e um tanto recorrentes nas novelas das nove. Enquanto Clara (Bianca Bin) fará as vezes de mocinha vingativa, Elizabeth (Gloria Pires) é a vítima de um golpe que se verá obrigada a mudar de identidade. Só para efeito de comparação, a recente A Lei do Amor fez uso das duas histórias na trajetória de Isabela/Marina (Alice Wegman), de uma maneira um tanto mal ajambrada, é verdade.

Apesar de não trazer nada de novo, O Outro Lado do Paraíso demonstra potencial para deslanchar. Afinal, Carrasco é um exímio contador de histórias, e sabe bem mexer com o público e, principalmente, oferecer à audiência o que ela quer. Não por acaso, o novelista possui pouquíssimos fracassos em seu currículo. Em sua nova incursão ao horário nobre, o autor tem em mãos histórias de vinganças que têm tudo para acontecer. Até aqui, a trama anda morna, mas prepara o terreno para as viradas de Clara e Elizabeth. A conferir.

Mesmo com uma história com potencial em mãos, Walcyr Carrasco segue pecando quanto a uma de suas principais características: os diálogos fracos, excessivamente didáticos e com muitas frases duras, escritas somente para chocar. Neste quesito, o autor não economiza nas frases feitas, no didatismo fora de hora (“eu não entendo de leis, mas isso é homicídio culposo, não é?”, disparou Elizabeth ao matar, acidentalmente, seu amante Renan, numa participação de Marcello Novaes) e nas ofensas gratuitas (Sophia, a grande vilã de Marieta Severo, tem uma filha com nanismo, a quem chama de “monstrinho”). Neste último quesito, as ofensas servem, também, para deixar claro os perfis dos personagens. Sem sutileza, o autor mostra que seus malvados adoram xingar todo mundo.

E são muitos os malvados, o que vem deixando estes primeiros capítulos de O Outro Lado do Paraíso um tanto quanto pesados. Enquanto Clara come o pão que o diabo amassou nas mãos do marido mau-caráter Gael (Sérgio Guizé), Elizabeth sofre com as armações do sogro Natanael (Juca de Oliveira), que joga baixo para separá-la de seu filho. Nas demais tramas, mais maldades: Nádia (Eliane Giardini) maltrata a empregada Raquel (Érika Januza) com ataques racistas; Samuel (Eriberto Leão) é frio com a namorada Suzana (Ellen Roche) para esconder sua homossexualidade; Jô (Bárbara Paz) ajuda Natanael em seus planos para ficar com o filho dele; o delegado Vinícius (Flávio Tolezani) é corrupto; e por aí vai.

Apesar do excesso de maldades e da série de diálogos sofríveis, Walcyr tem a vantagem (ou a sorte?) de contar com grandes nomes o cercando, que imprimem credibilidade à obra. A direção de Mauro Mendonça Filho é impecável, dando um acabamento maduro a uma novela que, apesar da trama forte, carrega muitas características infantis. Além disso, o autor conta com um elenco estelar, que, até aqui, vem driblando como pode as deficiências do texto. Bianca Bin, já escolada no terreno das mocinhas, é uma atriz que vem fazendo um belo trabalho. Uma aposta merecida numa atriz que carregou Eta Mundo Bom!, trama anterior de Carrasco, nas costas. Marieta Severo como a grande vilã é outro acerto. Sem dúvidas, um luxo ter a veterana distribuindo as maldades da história.

O Outro Lado do Paraíso conta ainda com o encontro de dois “monstros sagrados”, Fernanda Montenegro e Lima Duarte. Ela é Mercedes, a senhora mística que carrega os segredos da história, enquanto ele é Josafá, o avô de Clara que luta para defender suas terras dos vilões. Além disso, Gloria Pires, mais uma vez, abusa de sua espantosa naturalidade para dar vida à apagada Elizabeth. Além dos medalhões, O Outro Lado do Paraíso conta ainda com Sérgio Guizé, um ator que sempre foge do óbvio com mais um personagem desajustado, Gael, além de Grazi Massafera (Lívia), cada vez melhor e mais segura, e Rafael Cardoso (Renato), um mocinho sempre correto.

Ou seja, até aqui, O Outro Lado do Paraíso tem mostrado muitos erros, mas, também, muitos acertos. O autor precisa, agora, encontrar o equilíbrio entre seus muitos personagens e suas muitas maldades, para permitir com que o espectador respire. É esperar a mudança de fase da história para observar se a trama entrará nos eixos. É possível.

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André Santana

15 comentários:

  1. Primeiro, antes de tudo, uma correcao:Renato nao eh mocinho. Aquele dialogo da Livia com Renato no capitulo 05 ela falando que Clara tem tem uma mina de ouro e ela recusou, ele demosntrou interesse e frieza e em menhum momento defendeu a Clara com emocao. E quando ele foi se consultar com a Mercedes e ela falou no final da cena'mais um' ja da pra sacar que o bom mocismo dele eh de fachada, pra enganar.
    Dito isso, nao resisto a provocacao, mas nao eh voce que adora novelas soturnas nao Andre ? Rs. Nao resisti rs
    Mas entendi sua colocacao desde que te li no OT e foi a mesma impressao que tive da novela, exceco de maldades quem ve a novela, vai achar que so existem pessoas ma no mundo e os bons sao trouxas. Me lembrei de voce, na sua analise final de Amor a Vida falando que os maus venceram e nao sairam impunes na novela. Na epoca achei um comentario moralista, mas hoje, no contexto atual do Brasil e do mundo, concordo perfeitamente. Me deu a impressao que Eta Mundo Bom foi excecao e sua resposta eh O Outro Lado do Paraiso, se em Eta teriamos que ter uma visao polianesca, agora o negativismo . Mas isso nao foi de agora ja que em Verdades isso tava evidente, so que la, era mais coeso e coerente com a proposta.
    Sobre os cliches de mocinha vingativa e a volta dos mortos dos que nao foram, eu tambem to sem paciencia e com mais uma vingadora. Ja o recurso de forjar a morte, nao acho tao manjado assim , o problema eh que Lei do Amor foi a pouco tempo e como foi o maior fracasso a comparacao entendo que foi inevitavel. Mas a proposta de Lei do Amor foi homenagear Selva de Pedra, com a Isabela/Marina.
    De todo modo, o uso de cliches,nao considero defeito, Forca do Querer nao inventou a roda, foi previsivel MAS... extremamente bem executada e com sensibilidade com os temas da atualidade.
    Porem, o grande trunfo do Walcyr, como bem disse Cristina Padiglione, Walcyr eh um grande desenvolvedor de tramas. O que nao quer dizer que saiba desenvolver bem, mas ele sabe destrinchar com ganchos e amarrar de modo que o telespectador medio fique preso. E sim, ele, Gloria e Aguinaldo sempre dao o que a audiencia quer.
    Mas eu nao quero que o Gael se redima e fique bonzinho, pra mim isso foi um erro do Aguinaldo ao redimir o personagem, bruto violento do Nero so porque o publico abracou o personagem, mas segundo Noticias da TV, Gael vai se redimir, e na atual conjuntura do Brasil, que tentamos o empoderamento da mulher eh inaceitavel que um homem que agrida a esposa seja perdoado pelo autor. Walcyr tera que ser bem coerente com essa trajetoria e virada do Gael.
    Enfim, de tudo que voce escreveu e eu disse, com todo perdao Walcyr Carrasco, os maiores meritos da novela serao por conta da direcao artistica do Mauro Mendonca Filho que consertara o texto pobre mais a atuacao impecavel de quase todo elenco estelar, e sim, reconheco que Walcyr sabe amarrar e desenvolver (o que nao quer dizer que seja boa) as tramas. Pra mim o comeco da pra ir, em Amor a Vida o problema foi do meio ate o final que virou o samba do crioulo doido sem pe nem cabeca , mas inegavelmente mobilizou o Brasil com enorme audiencia. Tomara que nao seja essa a trajetoria dela. Enfim, direcao otima, atuacao otima, texto regular torcendo pra que nao seja ruim .
    PS um muito mas muito obrigado pelo texto inedito aqui no blog e nao ter repetido o texto de quinta ou quarta que publicou no OT. Sei que to sendo um chato do cacete, mas pensa bem, se voce nao publicar nada novo inedito aqui, e publicar primeiro tudo la, de que vale entao seguir o blog ?
    Abracao

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    1. O blog sempre terá conteúdo inédito. As poucas vezes que repliquei texto foi em razão da minha falta de tempo. Eu tenho CINCO empregos, e estava numa fase de muitos eventos. Por mais que eu compreenda e até me sinta lisonjeado com as cobranças, também peço um pouco de paciência e compreensão, porque EU SOU UM SÓ. Obrigado pelos comentários.

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    2. Outra coisa: gosto, sim, de histórias soturnas. Desde que bem feitas. Chocar por chocar não me agrada nada.

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  2. Olá, tudo bem? Eu sou fã do Walcyr Carrasco. Porém, desde 1996, é a primeira novela do autor que não sou envolvido. O texto do autor e a direção de filme argentino não combinam. O Outro Lado do Paraíso não tem cara de novela das nove. Isso é gravíssimo. tem mais "jeitão" de novela das onze. Caso continue assim, trilhará o mesmo caminho de Babilônia, A Regra do Jogo....Abs, Fabio www.tvfabio.zip.net

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    1. Não acho que chegará a tanto, mas tenho achado a novela um tanto sem emoção. Vamos ver se haverá uma virada. Abraço!

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  3. Nunca gostei dos diálogos do Walcyr, as vezes testam a nossa paciência, a anã que só.fala do tamanho dela, a vilã q só é simplesmente maldade, empregada e filho de patroa escrota... Nada novo muitos clichês... Ele apenas conta com atores maravilhosos com ele, e que fazem eu assistir... E até isso tá comprometido pois cada capítulo todos falam as mesmas coisas, óbvias demais , caricato demais que eu creio que não tem mais espaço nas novelas de hoje, nem consigo mais terminar de assistir... Enfim, só resta esperar a nova fase que apesar dos pesares tem tudo para supreender/ critiquei.

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  4. Fiquei agoniada qdo.aquele diplomata ficava falando.toda hora que era justo e pedia que seus parentes fossem diplomáticos e não sei o que... Não foi nem .um pouco natural e forçou demais a inteligência de quem tá assistindo / relatei.

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  5. Nossa não é possível que a Rede Globo não entende que ao mudar a imagem o público não gosta
    Novela tem q ter cara de novela , é o que público que assisti gosta
    Não gosto de novela com cara de seriado ou filme ,se quiser ver assim eu assisto há uma série logo e creio que o público também acha isso

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    1. Não vejo isso como um problema. Pelo contrário, adoro novidades estéticas. O problema maior é a trama mesmo, esquisitona demais.

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  6. Também achei as primeiras semanas pesadas em todos os núcleos. O jeito é esperar a 2° fase com algo mais solar!

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  7. Parece, André, que a maioria dos telespectadores não concorda com você. Até agora O Outro Lado do Paraíso vai bem de audiência, em torno dos 31 pontos(o mesmo índice que A Força do Querer, que acabou virando fenômeno, registrou em suas primeiras semanas). Mas, de fato, comprar imediatamente a história de garota maltratada e violentada pelo homem que ama é complicado, ainda mais após uma novela que trouxe como protagonistas três mulheres fortes e emponderadas. Acho que, na próxima fase, isso vai mudar.

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    1. A audiência quase nunca concorda comigo, Jason, hahaha! Vamos ver se a coisa melhora.

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