No ar há duas semanas, O Outro Lado do Paraíso já deixou bem clara a sua proposta de não reinventar a roda. Folhetim rasgado, como uma colcha de retalhos de clichês, a nova história de Walcyr Carrasco aposta suas fichas em duas histórias principais fortes e um tanto recorrentes nas novelas das nove. Enquanto Clara (Bianca Bin) fará as vezes de mocinha vingativa, Elizabeth (Gloria Pires) é a vítima de um golpe que se verá obrigada a mudar de identidade. Só para efeito de comparação, a recente A Lei do Amor fez uso das duas histórias na trajetória de Isabela/Marina (Alice Wegman), de uma maneira um tanto mal ajambrada, é verdade.

Apesar de não trazer nada de novo, O Outro Lado do Paraíso demonstra potencial para deslanchar. Afinal, Carrasco é um exímio contador de histórias, e sabe bem mexer com o público e, principalmente, oferecer à audiência o que ela quer. Não por acaso, o novelista possui pouquíssimos fracassos em seu currículo. Em sua nova incursão ao horário nobre, o autor tem em mãos histórias de vinganças que têm tudo para acontecer. Até aqui, a trama anda morna, mas prepara o terreno para as viradas de Clara e Elizabeth. A conferir.

Mesmo com uma história com potencial em mãos, Walcyr Carrasco segue pecando quanto a uma de suas principais características: os diálogos fracos, excessivamente didáticos e com muitas frases duras, escritas somente para chocar. Neste quesito, o autor não economiza nas frases feitas, no didatismo fora de hora (“eu não entendo de leis, mas isso é homicídio culposo, não é?”, disparou Elizabeth ao matar, acidentalmente, seu amante Renan, numa participação de Marcello Novaes) e nas ofensas gratuitas (Sophia, a grande vilã de Marieta Severo, tem uma filha com nanismo, a quem chama de “monstrinho”). Neste último quesito, as ofensas servem, também, para deixar claro os perfis dos personagens. Sem sutileza, o autor mostra que seus malvados adoram xingar todo mundo.

E são muitos os malvados, o que vem deixando estes primeiros capítulos de O Outro Lado do Paraíso um tanto quanto pesados. Enquanto Clara come o pão que o diabo amassou nas mãos do marido mau-caráter Gael (Sérgio Guizé), Elizabeth sofre com as armações do sogro Natanael (Juca de Oliveira), que joga baixo para separá-la de seu filho. Nas demais tramas, mais maldades: Nádia (Eliane Giardini) maltrata a empregada Raquel (Érika Januza) com ataques racistas; Samuel (Eriberto Leão) é frio com a namorada Suzana (Ellen Roche) para esconder sua homossexualidade; Jô (Bárbara Paz) ajuda Natanael em seus planos para ficar com o filho dele; o delegado Vinícius (Flávio Tolezani) é corrupto; e por aí vai.

Apesar do excesso de maldades e da série de diálogos sofríveis, Walcyr tem a vantagem (ou a sorte?) de contar com grandes nomes o cercando, que imprimem credibilidade à obra. A direção de Mauro Mendonça Filho é impecável, dando um acabamento maduro a uma novela que, apesar da trama forte, carrega muitas características infantis. Além disso, o autor conta com um elenco estelar, que, até aqui, vem driblando como pode as deficiências do texto. Bianca Bin, já escolada no terreno das mocinhas, é uma atriz que vem fazendo um belo trabalho. Uma aposta merecida numa atriz que carregou Eta Mundo Bom!, trama anterior de Carrasco, nas costas. Marieta Severo como a grande vilã é outro acerto. Sem dúvidas, um luxo ter a veterana distribuindo as maldades da história.

O Outro Lado do Paraíso conta ainda com o encontro de dois “monstros sagrados”, Fernanda Montenegro e Lima Duarte. Ela é Mercedes, a senhora mística que carrega os segredos da história, enquanto ele é Josafá, o avô de Clara que luta para defender suas terras dos vilões. Além disso, Gloria Pires, mais uma vez, abusa de sua espantosa naturalidade para dar vida à apagada Elizabeth. Além dos medalhões, O Outro Lado do Paraíso conta ainda com Sérgio Guizé, um ator que sempre foge do óbvio com mais um personagem desajustado, Gael, além de Grazi Massafera (Lívia), cada vez melhor e mais segura, e Rafael Cardoso (Renato), um mocinho sempre correto.

Ou seja, até aqui, O Outro Lado do Paraíso tem mostrado muitos erros, mas, também, muitos acertos. O autor precisa, agora, encontrar o equilíbrio entre seus muitos personagens e suas muitas maldades, para permitir com que o espectador respire. É esperar a mudança de fase da história para observar se a trama entrará nos eixos. É possível.

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André Santana