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| Agrado (Isadora Cruz) em Coração Acelerado (reprodução) |
A reta final de Coração Acelerado deixou um amargo tom de desencanto no público que acompanhou a trama da Globo. Vendida com a promessa de ser uma celebração vibrante do universo sertanejo e da força feminina, a produção encerrou sua exibição na última sexta-feira, 14, revelando lacunas profundas no desenvolvimento narrativo, na construção temática e na condução dos seus arcos secundários.
O principal argumento conceitual da novela, a ascensão do feminejo e a exaltação de mulheres fortes, donas do próprio destino e porta-vozes da independência feminina, ruiu diante da condução de suas protagonistas.
Enquanto o movimento musical real se consolidou justamente por cantar a autonomia, o amor-próprio e a superação das dependências afetivas, Agrado (Isadora Cruz) e Eduarda (Gabz) viram suas trajetórias reduzidas a um ciclo repetitivo de disputas emocionais. As constantes brigas motivadas por ciúmes e triangulações amorosas esvaziaram a mensagem de empoderamento, transformando figuras que deveriam liderar uma revolução comportamental na trama em reféns de clichês melodramáticos ultrapassados.
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Péssimos desfechos
No aspecto estrutural, a novela sofreu com falhas graves de ritmo e planejamento. Grandes reviravoltas, como a suposta "morte" de Jean Carlos (Ricardo Pereira) e as revelações sobre a verdadeira origem de João Raul (Filipe Bragança), foram negligenciadas ao longo de meses.
Em vez de servirem como motores contínuos de suspense e desenvolvimento psicológico dos personagens, esses ganchos cruciais foram engavetados para serem resgatados apenas na última semana de exibição, e da pior forma possível.
Jean Carlos vivo foi difícil de engolir. Pareceu uma solução apressada apenas para inocentar Zilá (Leandra Leal) de assassinato. Enquanto isso, João Raul descobriu que, na verdade, era filho de Ronei (Thomás Aquino), seu empresário. Uma revelação que não fez muito sentido e em nada agregou ao final, já que a confissão foi feita e tudo ficou por isso mesmo. Não houve repercussão.
Agrado ser filha de Alaorzinho (Daniel de Oliveira) era uma bola cantada desde o início de Coração Acelerado. Porém, a revelação poderia ter acontecido antes para reconfigurar a relação entre a cantora e Naiane, afinal, elas são irmãs, e não primas. Mas a nova informação em nada afetou essa rivalidade.
O resultado foi uma resolução apressada, rocambolesca e desprovida do peso dramático que a longa espera exigia, soando mais como uma prestação de contas burocrática do roteiro do que como um desfecho natural.
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Tramas paralelas sem força ou função
A fragilidade da condução principal refletiu-se de forma ainda mais evidente nos núcleos secundários. As tramas paralelas careceram de estofo, acumulando situações repetitivas que pouco ou nada acrescentaram ao conflito central. Sem dinâmicas cativantes ou arcos de desenvolvimento real, os coadjuvantes funcionaram em grande parte como meros preenchedores de tempo, contribuindo para a sensação de lentidão e barriga que arrastou a exibição do folhetim por vários meses.
Para selar os problemas da produção, o capítulo final apostou em uma pacificação repentina e pouco convincente. Conflitos e rivalidades construídos durante toda a exibição foram dissolvidos sem a devida construção dramática. A mudança abrupta de postura de vilãs como Zilá e Naiane, que abandonaram do dia para a noite a oposição ferrenha a Janete e Agrado, soou artificial.
Coração Acelerado foi uma tentativa da Globo de fazer uma novela ao gosto do público, já que pesquisas apontavam que o brasileiro gosta de sertanejo. Entretanto, a pouca receptividade da trama mostra que não adianta “fabricar” novelas baseadas em pesquisas, no intuito de agradar o gosto do público. Afinal, às vezes, o público gosta mesmo é de uma boa surpresa.
André Santana
16/08/2026

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