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| Isadora Cruz como Rosa em Guerreiros do Sol (divulgação) |
A TV Globo encontrou um motivo real para comemorar em sua complicada grade noturna de 2026. A exibição de Guerreiros do Sol, superprodução originalmente desenvolvida para o Globoplay, surpreendeu ao registrar índices de audiência altamente expressivos na faixa das 22h30. O folhetim épico, inspirado na saga de Lampião e Maria Bonita, fincou o pé na liderança isolada e injetou fôlego novo em um horário que vinha sofrendo com o desgaste crônico.
O dado que mais chamou a atenção foi a estabilidade dos números. A saga de Rosa (Isadora Cruz) e Josué (Thomás Aquino) conseguiu a proeza de praticamente manter a média de público herdada do recém-encerrado BBB 26. Conseguir segurar o telespectador do reality show mais lucrativo do país, sem sofrer a tradicional "queda de barriga" pós-temporada, é um feito raro na atual engrenagem da televisão.
Esse resultado se torna ainda mais impressionante quando analisamos o atual panorama de retração da TV aberta no Brasil. Em tempos de migração em massa para o streaming e de fragmentação do público, segurar a atenção de milhões de pessoas no final da noite é uma tarefa ingrata. O sucesso do enredo assinado por George Moura e Sergio Goldenberg provou que boas produções são capazes de chamar a audiência.
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Biscoito fino
O segredo desse fenômeno reside na altíssima qualidade técnica e narrativa da obra. Guerreiros do Sol se provou uma excelente novela, muito bem escrita, com direção de arte impecável e atuações viscerais. O acabamento estético e o ritmo ágil de minissérie prenderam o público justamente por oferecer um respiro de sofisticação visual em meio à padronização das novelas diárias da TV aberta.
Para os telespectadores mais atentos, a produção trouxe uma deliciosa sensação de nostalgia artística. A condução da história, a fotografia árida do sertão e a densidade psicológica dos personagens lembraram os tempos de ouro das grandes microsséries e minisséries da Globo do passado, como Chiquinha Gonzaga (1999), A Muralha (2000) ou A Casa das Sete Mulheres (2003). Era o padrão de excelência da líder de audiência em sua melhor forma.
Ao apostar em uma dramaturgia forte e sem medo de ousar no tom dramático, o canal provou que a boa ficção ainda é o maior patrimônio da televisão nacional. O público comprou a jornada de vingança, amor e sobrevivência no Nordeste porque se sentiu respeitado por uma história inteligente. Os bons resultados mostraram que o espectador precisava dessa densidade.
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Variedade
Por outro lado, o êxito avassalador de Guerreiros do Sol escancara uma ferida aberta nos bastidores da emissora carioca. Há anos, a tradicional linha de shows da Globo anda visivelmente abandonada e sem identidade própria. A direção artística da rede parecia ter perdido a capacidade de criar ou aprovar projetos de ficção originais e relevantes para o meio da semana, deixando o telespectador órfão de boas opções após a novela das nove.
Nos últimos tempos, a Globo deu sinais claros de que seu único interesse reside na produção massiva de realities e formatos de confinamento. De janeiro a dezembro, a grade foi inundada por variações de competições musicais, culinárias ou de convivência, em uma busca incessante por faturamento rápido e engajamento imediato de marcas. Essa saturação de formatos comerciais acabou empobrecendo a diversidade cultural que sempre foi o pilar da emissora.
A lição deixada por Guerreiros do Sol é didática e urgente. O público cansou da mesmice dos palcos coloridos e dos julgamentos de jurados famosos. A boa e velha dramaturgia, quando feita com orçamento adequado, elenco escalado a dedo e um texto afiado, é plenamente capaz de garantir o interesse do público na competitiva e ingrata faixa das 22h, sem precisar apelar para votações populares na internet.
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Futuro
Espera-se agora que o tombo positivo da audiência faça a alta cúpula da Globo recalcular a rota para os próximos anos. Usar o streaming apenas como um laboratório ou depósito de luxo, enquanto a TV aberta agoniza na repetição de fórmulas, é um erro estratégico que custa caro. A televisão precisa voltar a arriscar em narrativas fechadas, adultas e com forte sotaque brasileiro para manter sua relevância no controle remoto.
Os números não mentem e servem como um divisor de águas na gestão de conteúdo. Guerreiros do Sol não foi apenas um ponto fora da curva na audiência, mas um manifesto silencioso do telespectador soberano. As pessoas querem se emocionar com grandes interpretações, chorar com tragédias ficcionais e vibrar com heróis imperfeitos. A ficção de qualidade salvou a linha de shows do marasmo comercial.
Importante lembrar ainda que Guerreiros do Sol é uma produção original do Globoplay e também foi exibida no Globoplay Novelas. Ou seja, a TV Globo foi a terceira janela de exibição. E, ainda assim, a novela obteve resultados satisfatórios. Já pensou se a emissora voltasse a apostar em atrações originais na faixa? Basta lembrar dos bons tempos das novelas das onze, com boas produções como O Astro (2011), Gabriela (2012) e Verdades Secretas (2015).
Em suma, a trajetória vitoriosa da saga dos cangaceiros na TV aberta deixa um legado de esperança para os profissionais da nossa cultura. Ela ratifica que o DNA da Globo é, e sempre será, a capacidade de contar boas histórias. Que os diretores olhem menos para as planilhas de formatos enlatados estrangeiros e prestem mais atenção na força avassaladora do sol do nosso próprio sertão.
André Santana
20/06/2026

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