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| Netinho de Paula e Salgadinho no Samba, Pagode & Cia (reprodução) |
A virada do milênio foi um dos períodos mais intensos na guerra pela audiência da TV aberta brasileira. Nos sábados à tarde, a soberania da TV Globo enfrentava uma ameaça sem precedentes que vinha diretamente da Barra Funda: o Programa Raul Gil, então na Record.
Com o quadro de calouros e o icônico Pra Quem Você Tira o Chapéu, o apresentador arrastava multidões e frequentemente se mantinha na liderança isolada de audiência, deixando o canal carioca em sinal de alerta. Desesperada para conter o avanço do concorrente e recuperar o topo do pódio, a alta cúpula da Globo decidiu contra-atacar em 1999 com a mesma moeda que dominava as rádios na época: o pagode romântico.
Foi assim que nasceu o Samba, Pagode & Cia, uma atração que tinha tudo para ser uma grande festa, mas acabou entrando para a história como um dos maiores fiascos da emissora. A atração estreou em 27 de março de 1999 e ficou poucas semanas no ar.
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Roda de pagode
A premissa do programa parecia infalível no papel. Em vez de contratar um apresentador tradicional, a Globo decidiu colocar os maiores ídolos do gênero musical do momento para comandar a atração. No comando estavam Salgadinho, então vocalista do Katinguelê, e Netinho de Paula, líder do Negritude Júnior. Com eles estava a jovem e então desconhecida Kelly Key, estreando na televisão.
O cenário simulava um grande botequim, onde os anfitriões recebiam outros grandes nomes do samba e do pagode para cantar, bater papo e comandar gincanas. A direção de núcleo era assinada pelo experiente Roberto Talma e o objetivo era criar um ambiente descontraído, popular e musical que roubasse o público jovem e periférico que estava sintonizado em Raul Gil.
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Desastre
O tiro, no entanto, saiu bizarramente pela culatra. Logo na estreia, ficou evidente que o carisma dos cantores nos palcos não se traduzia em jogo de cintura para comandar um programa de auditório engessado. Faltava ritmo, espontaneidade e, acima de tudo, experiência na comunicação direta com o telespectador daquela faixa de horário.
Em vez de frear o Programa Raul Gil, o Samba, Pagode & Cia acabou servindo como um trampolim para o concorrente. A audiência da Globo despencou para patamares alarmantes na faixa das 13h, registrando médias que flertavam perigosamente com os 8 pontos, algo inadmissível para os padrões globais da época.
Raul Gil não apenas manteve seu público fiel, como ampliou a liderança, vencendo a Globo com folga em vários sábados consecutivos. Diante de tamanho desastre, a emissora carioca resolveu mexer e reformular a atração, trocando diretores e mudando o formato. Samba, Pagode & Cia ganhou uma dose de dramaturgia, com Netinho e Salgadinho vivendo num apartamento e recebendo convidados, como uma "novelinha". Mas não deu certo.
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Fim da linha
Diante da rejeição massiva do público e das duras críticas que o programa recebia da imprensa especializada, a Globo não pensou duas vezes. Após menos de dois meses no ar, Samba, Pagode & Cia foi extinto em 15 de maio de 1999, somando apenas sete episódios.
Para estancar a sangria nos sábados à tarde, a emissora precisou recorrer a pacotes de filmes e, posteriormente, a formatos mais tradicionais de entretenimento que pudessem dialogar com a família brasileira sem afugentar o mercado publicitário.
Depois disso, a Globo ainda tentou mexer no sábado novamente, planejando lançar o Gente Inocente, com Márcio Garcia, para bater de frente com Raul Gil. Entretanto, o canal mudou de ideia e acabou lançando o Gente Inocente aos domingos. Já o sábado seguiu com filmes até 2000, quando foi lançado o Caldeirão do Huck (que também foi freguês de Raul Gil em seus primeiros anos, diga-se).
André Santana
12/06/2026

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