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| O autor Manoel Carlos (Marcos D'Paula/Dedoc) |
Mais um medalhão da teledramaturgia brasileira se vai. Manoel Carlos fez história como um dos mais emblemáticos autores de novelas do país, além de ter sido, também, ator, diretor e produtor, um dos pioneiros do veículo que tanto amamos.
Como roteirista de folhetins, Maneco foi um dos grandes que deixou uma marca altamente reconhecível. Não apenas pelas protagonistas de nome Helena, mas pela criação do próprio “manecoverso”, que inclui as rua do Leblon e as belas paisagens cariocas, a bossa nova e o olhar atento sobre os pequenos dramas cotidianos transformados em grandes enredos.
Este jornalista tem em Laços de Família (2000) uma de suas novelas favoritas de todos os tempos. Mas o que dizer de Felicidade (1991), História de Amor (1995), Por Amor (1997) e Mulheres Apaixonadas (2003) - entre tantas outras? Grandes obras imaginadas por um autor que entrou no imaginário do espectador brasileiro e se tornou um patrimônio da cultura nacional.
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Novelas de autor
Inicialmente autor de novelas das seis, Maneco estreou no horário nobre em Baila Comigo (1980), mas foi a partir de 1997, com Por Amor, que ele se firmou no time mais estrelado da Globo, responsável pelas famosas novelas das oito/nove. Nesta era, a emissora solidificou uma equipe de novelistas que emplacou enormes sucessos, cada um com um estilo. Foi a era das “novelas de autor”.
Havia Benedito Ruy Barbosa, com suas sagas rurais. Gilberto Braga, com seu olhar único sobre a elite brasileira. Gloria Perez e os avanços contemporâneos e culturais. Silvio de Abreu e seus thrillers. Aguinaldo Silva e seu humor ácido, seja urbano ou de realismo fantástico. E havia Maneco, o autor “bossa nova”.
Essa era já chegou ao fim. Benedito se aposentou, Gloria e Silvio deixaram a Globo, Gilberto Braga faleceu e Maneco já estava aposentado até nos deixar, no último final de semana. Aguinaldo Silva retornou após um hiato longo para quem era figurinha habitual do horário nobre da Globo entre as décadas de 1980 e 2010. Esse time estrelado não foi renovado.
Atualmente, apenas João Emanuel Carneiro e Walcyr Carrasco seguem a “tradição”, com estilos muito bem marcados no horário nobre. Manuela Dias tenta se firmar, assim como Bruno Luperi, que busca seguir a tradição do avô Benedito Ruy Barbosa assinando histórias rurais. Uma busca de renovação válida, mas que ainda não tem o mesmo brilho do “dream team” do passado.
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Sucessão
Manoel Carlos criou um estilo muito característico de fazer novela, ao ponto de ser reconhecido pelo texto. Mas quem poderá manter a crônica cotidiana viva na televisão? Ao que parece, Maneco não deixou sucessores - ao menos, não com um estilo tão próprio.
Lícia Manzo, com as adoráveis A Vida da Gente (2011) e Sete Vidas (2015), mostrou que tem uma visão parecida com a de Maneco sobre a construção de um folhetim. Mas, em sua estreia na faixa das 21h com Um Lugar ao Sol, a crônica cotidiana não ficou tão evidente, já que autora procurou criar uma história com uma crítica social mais contundente. Porém, muito calcada nos diálogos, assim como Maneco fazia. De fato, a obra de Lícia tem familiaridade com a de Maneco.
Às 19h, Rosane Svartman também se mostra adepta da crônica cotidiana, com histórias em que relações familiares ganham destaque. Com Volta por Cima (2024), Claudia Souto também mostrou vontade de enveredar para esse estilo. Mas, ainda assim, não alcançam a habilidade de Maneco de criar histórias de fácil identificação a partir de situações corriqueiras.
Em suma: Manoel Carlos faz falta. Ao mesmo tempo em que nos despedimos de um dos maiores novelistas do Brasil, também observamos a dificuldade em “substituir” os medalhões que praticamente inventaram a novela brasileira. Mas, enquanto isso não acontece, qualquer reprise de novela de Maneco é bem-vinda. Cafezinho, dona Helena?
André Santana
14/01/2026

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