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| Clara Moneke como Leo em Dona de Mim (divulgação) |
Com Dona de Mim, Rosane Svartman deixa definitivamente uma identidade muito bem definida na faixa das sete da Globo. Autora dos sucessos Totalmente Demais (2015), Bom Sucesso (2019) - ambas com Paulo Halm - e Vai na Fé (2023), a novelista se firma com histórias de mocinhas fortes e tramas com um olhar muito atento à contemporaneidade, sempre num tom agridoce. Ou seja, novelas que tratam de temas pesados, mas buscam fazê-lo com alguma leveza.
A trama das sete encerrada esta semana seguiu da mesma cartilha de suas antecessoras. Leo (Clara Moneke), a mocinha, foi apresentada como uma jovem solar, divertida, com certa tendência ao trambique, mas longe de ser uma vigarista. Carismática e forte, a protagonista parecia uma evolução de Kate, personagem da atriz em Vai na Fé, e caiu como uma luva nas mãos de sua intérprete, que demonstrou talento tanto no drama como na comédia.
Ao fazer a trama girar em torno da relação da babá Leo e de Sofia (Elis Cabral), Dona de Mim fincou sua história diante de relações familiares, como numa crônica cotidiana. A história ganhou alguma profundidade ao tratar do trauma de Leo, que vivia o luto da perda de uma filha, e como esse momento trágico contribuiu para a afeição da babá e da garotinha, que vivia em meio a uma família disfuncional. O encontro transformou as duas personagens.
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Acertos
O maior acerto de Dona de Mim foi a abordagem bem-sucedida sobre saúde mental. Foram vários os temas, espalhados pelos mais variados núcleos, mostrando que a questão vai além da condição social.
Por meio de Filipa, personagem de cores muito reais interpretada pela sempre ótima Claudia Abreu, Dona de Mim tratou de bipolaridade. Já Stephany (Nikolly Fernandes), irmã de Leo, sofreu com o burnout por conta da pressão de se formar na faculdade.
Além disso, Dona de Mim emocionou ao falar do Mal de Alzheimer por meio de Rosa (Suely Franco), uma das personagens mais destacadas da novela. A trama mostrou como a condição da idosa afetou toda a família Boaz, numa abordagem sensível, terna e muito realista. Rosa emocionou o público e mostrou o tamanho de Suely Franco, atriz veterana normalmente escalada para papéis de menor expressão.
O drama de Kami (Giovanna Lancellotti), que sofreu perseguição e abuso sexual, também foi mostrado de forma sensível e muito competente. Cabe ainda destacar a saga de Marlon (Humberto Morais), bom mocinho que lutava por justiça dentro da polícia.
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Erros
Entretanto, Dona de Mim teve vários erros que jogaram contra a novela. O maior deles, sem dúvida, foi sua duração exagerada. A novela ficou no ar por quase dez meses, com cansativos 2018 capítulos, o que prejudicou consideravelmente o andamento da história.
Com isso, Rosane Svartman e sua equipe caíram em várias armadilhas, como a cansativa batalha pela guarda de Sofia, herdeira da fábrica de lingeries Boaz. A batalha pelo controle do negócio da família rendeu boas tramas, sobretudo porque justificava as ações do bom vilão Jaques (Marcello Novaes), mas, muitas vezes, girava em círculos. Além do vilão principal, a novela apostou em “vilões pontuais” para se sustentar, porém isso acaba criando situações repetitivas.
Além disso, a autora se viu obrigada a “ressuscitar” Ellen (Camila Pitanga), a mãe biológica de Sofia que a entregou para Abel (Tony Ramos) no início da história. A justificativa para sua falsa morte não convenceu e, ainda, apresentá-la como uma vigarista acabou jogando por terra a boa relação entre a jovem e Abel explicada no início da história - na trama, Ellen, à beira da morte e temendo que Sofia caísse nas mãos do pai biológico, um bandido, entrega sua filha ao ricaço, que, por sua vez, tinha uma dívida de gratidão com ela, já que Ellen o impediu de tirar a própria vida no passado. A personagem, que era uma presença forte mesmo ausente, perdeu tal força ao retornar.
Foi uma clara manobra para fazer a novela render mais alguns capítulos. Porém, foi tudo forçado e chato. Além disso, Rosane Svartman já havia apostado nos mortos que retornam em Totalmente Demais, com Sofia (Priscila Sztejnman), e em Bom Sucesso, com Elias (Marcelo Faria). Em ambos os casos, os “novos vilões” pesaram a mão e tornaram a narrativa das novelas mais sombrias. Não foi legal, mas, mesmo assim, a novelista repetiu o expediente novamente.
Outra trama criada na reta final para fazer Dona de Mim render foi o plot do esquema de apostas na academia, algo já visto em outra obra de Rosane Svartman, Malhação - Sonhos (2014). A autora reciclou a si mesma.
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Protagonista apagada
A longa duração de Dona de Mim também atrapalhou o protagonismo de Leo, ótima personagem que acabou perdendo espaço ao longo da trama ao ser inserida em histórias pouco consistentes, novamente para fazer a trama “render”.
Durante a novela, a devoção de Leo por Sofia a fez se desviar de seus próprios propósitos, já que a garota abriu mão de sua vida para “proteger” a garota. Leo, que sonhava em estudar e ter uma carreira, passou muitos capítulos sem correr atrás de seus propósitos. Isso também prejudicou seu romance com Samuel (Juan Paiva), mocinho que também perdeu o brilho ao longo da história com um excesso de teimosia que servia apenas para fazer a história andar. Mas, mesmo assim, é preciso ressaltar o bom trabalho de Clara Moneke, dona de um evidente carisma. A atriz defendeu com dignidade uma personagem muitas vezes difícil de defender.
Mesmo com tais erros, Dona de Mim se mostrou uma novela interessante, com bons momentos, e que reafirmou o talento de Rosane Svartman na construção de dramas maduros e envolventes. Com menos capítulos, a novela teria entregado mais.
André Santana
11/01/2026

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