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Três Graças, novelas verticais e o que o espectador procura

Arminda (Grazi Massafera), vilã de Três Graças
Arminda (Grazi Massafera), vilã de Três Graças (Estevam Avellar/TV Globo)

Na última semana, a Globo fez sua primeira incursão na seara das novelas para redes sociais - ou novela vertical, ou “novelinha”, como queiram. Tudo por Uma Segunda Chance, estrelada por Débora Ozório, Daniel Rangel e Jade Picon, estreou acumulando mais elogios do que críticas, ao menos na “bolha” já habituada a esse tipo de dramaturgia, digamos, “ligeira”.

Mesmo que a “novelinha” da Globo não seja feita para espectadores de novelas tradicionais, é fato que o canal busca uma maneira de se conectar com um público mais jovem e que consome produtos nas mais variadas plataformas. E esse público, ao que parece, gosta mesmo de tramas mais rápidas, sem enrolação.

Tanto que muitas novelas tradicionais têm feito sucesso junto a este público graças aos “cortes” espalhados pela web. Já existe uma audiência que consome folhetins por meio destes trechos que viralizam, mas que nem sempre assistem os capítulos na íntegra, seja pela TV convencional, seja pelo Globoplay.

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Ansiedade

Enquanto isso, as novelas mais tradicionais parecem sofrer com uma espécie de ansiedade deste público que gosta de coisas mais ligeiras. Três Graças, atual novela das nove da Globo, é um exemplo claro disso. Apesar da baixa audiência para os padrões da emissora, a novela de Aguinaldo Silva é muito elogiada pela crítica e pelo espectador nas redes sociais. Porém, há quem reclame da “lentidão” da história.

Atenta aos comentários do público, a Globo já trabalha na reedição dos capítulos para deixar Três Graças mais ágil. Ainda não dá pra saber se tal manobra fará os números melhorarem. Porém, o que dá pra cravar é que o público de hoje parece mais ansioso quanto ao desenrolar de uma novela. Três Graças é uma novela à moda antiga, com uma história que se desenrola sem pressa. Mas há quem reclame que “nada acontece na novela”. Será?

A trama principal da novela gira em torno de um roubo orquestrado por Gerluce (Sophie Charlotte), que quer roubar a estátua que dá nome à novela - e que pertence à vilã Arminda (Grazi Massafera) - para reparar as vítimas da vilã, sócia de uma fundação que distribui remédios falsificados. Uma mocinha que planeja um roubo não é algo muito convencional num folhetim e, provavelmente, é justamente por isso que os autores têm contado a história sem pressa.

O espectador precisa conhecer Gerluce, se envolver com seus dramas e se compadecer ao constatar de que ela é vítima de vilões terríveis. Só assim o roubo praticado por ela se justificará como uma “boa causa”. Caso contrário, corre-se o risco de o espectador não comprar o drama da protagonista e condená-la pelo roubo. Com isso, a história armada pelos autores iria por água abaixo.

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Pressa demais

Não faz muito tempo que o público penou com uma história apressada demais. Mania de Você (2024) construiu tão mal a relação entre os mocinhos Viola (Gabz) e Rudá (Nicolas Prattes) que ficou impossível torcer por eles. Pelo contrário. Eles foram condenados pela audiência, fazendo até Rudá morrer na reta final. Enquanto isso, o espectador preferiu torcer pelos vilões, e Mavi (Chay Suede) e Luma (Agatha Moreira) tiveram um final feliz.

Ou seja, quando não há uma construção da motivação dos personagens, sejam eles heróis ou vilões, o público simplesmente não se envolve com eles. Sem envolvimento afetivo, não há torcida, não há ódio, não há ranço, não há nada. 

Sob este ponto de vista, Três Graças não tem nada de lenta. Claro, comparada ao ritmo da maioria das produções atuais, a trama é sim menos apressada. Entretanto, está claro que a novela prepara o terreno para uma grande virada, que deve não apenas provocar uma grande catarse no público como também despertar a curiosidade sobre o que virá.

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É vilã ou não é?

Outra reclamação sobre Três Graças diz respeito à vilã Arminda. Há quem diga que a personagem de Grazi Massafera é uma vilã de araque, já que suas maldades, até agora, se resumem a maltratar a mãe idosa e disparar ofensas. Essa percepção gera um questionamento interessante: afinal, um grande vilã precisa sujar as mãos logo de cara para convencer?

Mais uma vez, vamos voltar ao passado. Ninguém duvida de que Odete Roitman (Beatriz Segall) era uma grande vilã em Vale Tudo (1988). Porém, vale lembrar que ela estava longe de ser uma assassina fria e calculista. Suas maldades passavam por outro lugar. Mas, para “atualizá-la”, Manuela Dias fez Odete (Debora Bloch) “sujar as mãos” e praticar assassinatos na recente versão de Vale Tudo (2025). Precisava?

Laurinha Figueiroa (Gloria Menezes), de Rainha da Sucata (1991), também é uma vilã marcante da teledramaturgia. Mas quem acompanha o Vale a Pena Ver de Novo percebe que suas maldades também são diferentes. Claro, a personagem vai evoluindo conforme a trama se desenrola, mas, aos olhos do espectador de hoje, parece que nem a primeira Odete e nem Laurinha são tão vilãs assim.

Já faz algum tempo que o público se encantou com vilãs mais ardilosas e psicopatas, vide Nazaré (Renata Sorrah), de Senhora do Destino (2004), ou Flora (Patrícia Pillar), de A Favorita (2008). Assim, quando uma vilã age pelas beiradas, o público reclama que ela não é tão malvada assim. O que chega a ser meio absurdo, se considerarmos que Arminda participa de um esquema de falsificação de remédios que mata muita gente inocente. Além disso, ela maltrata a mãe, os empregados, e mantém um romance com o marido da amiga. Como assim ela não é vilã?...

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Futuro das novelas

O charme de Três Graças passa justamente pelo fato de a novela se permitir dar tempo para que as tramas e os personagens se estabeleçam. Trata-se de um estilo cada vez mais raro no horário nobre da Globo, ultimamente tomado por histórias atabalhoadas e quase estrambólicas. A trama antecessora, Vale Tudo, tinha muita ação acontecendo, mas a grande maioria em nada contribuía para o andamento da história.

Dito isso, fica a torcida para que as medidas para agilizar Três Graças não eliminem justamente esse cuidado de contar uma história mais bem construída. É claro que a Globo precisa identificar o motivo da baixa audiência e tentar entregar ao público o que ele quer. Porém, é preciso achar um meio termo, de modo a atender tanto o público ansioso quanto às metas de audiência. Depois de tanta cabeçada, o público merece uma novela das nove mais bem resolvida.

André Santana

29/11/2025

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