#Maruca ou #Saroca?

Em 2015, o autor Mario Teixeira, em parceria com Alcides Nogueira, assinou a novela das sete I Love Paraisópolis. A trama, que narrava a trajetória da humilde Mari (Bruna Marquezine), começou muito bem. Leve, divertida, com bons personagens e situações, a história elevou a audiência do horário das sete, que parecia numa crise eterna. Porém, ao longo de sua trajetória, a trama perdeu fôlego, a história desandou e a audiência acabou caindo.

Um dos motivos que levou à queda de I Love Paraisópolis foi a ideia dos autores de casar os protagonistas, Mari e Ben (Maurício Destri), num momento bem distante de seu desfecho. O casal caiu nas graças da audiência jovem e “shippadora”, que não aceitava vê-los separados. Assim, eles se casaram e passaram todo o resto da novela juntos. Com isso, a história de ambos esvaziou-se, e Mari e Ben perderam o protagonismo. Os autores acabaram deslocando o romance principal para o casal antagonista, Grego (Caio Castro) e Margot (Maria Casadevall). Para suprir a ausência de vilões, trouxe o mafioso Dom Peppino (Lima Duarte) de volta (a princípio, ele faria apenas uma participação nos primeiros capítulos), e I Love Paraisópolis se tornou uma estranha comédia sobre uma máfia italiana instalada numa comunidade paulistana.

Com O Tempo Não Para, do mesmo Mario Teixeira, desta vez assinando sozinho, aconteceu algo semelhante. A história começou inspiradíssima. A ideia de congelar uma família do século 19 e colocá-los num contexto atual, por si só, já parecia brilhante. Quando Dom Sabino (Edson Celulari), Marocas (Juliana Paiva) e seus parentes acordaram no século 21, O Tempo Não Para se colocou como uma comédia provocativa e reflexiva. Afinal, em que ponto evoluímos enquanto sociedade do século 19 para cá? E em quais pontos regredimos? Estas perguntas eram colocadas na novela o tempo todo, sempre com bom humor.

Por meio da estranheza de Dom Sabino vivendo nos dias de hoje, O Tempo Não Para levantou questões importantes, sobretudo nas temáticas de machismo e patriarcado e, principalmente, escravidão e racismo. Enquanto isso, a mocinha Marocas vivia um romance com um jovem dos dias de hoje, Samuca (Nicolas Prattes), que passou bons momentos tentando entender como funciona a cabeça de uma jovem do século 19 para poder conquistá-la. Foi um romance gracioso e divertido.

O casal funcionou. E os “shippadores”, sempre eles, mais uma vez não queriam ver seu casal favorito separado. Em matéria recente do site Notícias da TV, foi revelado que, na sinopse original de O Tempo Não Para, Samuca e Marocas passaria um bom tempo separados. Ele acabaria se envolvendo com Walesca (Carol Castro), enquanto ela se casaria com Emílio (João Baldasserini). Ao mesmo tempo, Samuca e Dom Sabino travariam uma grande batalha pelas terras da Sam Vita, a empresa de Samuca, instalada nas mesmas terras que pertenceram a Dom Sabino no passado. A briga familiar impediria os protagonistas de viver o amor por um bom tempo. Mas nada disso aconteceu. O autor até separou o casal, mas por pouquíssimo tempo. E tratou de casá-los logo em seguida. Com isso, precisou tirar novas tramas da manga para manter a novela de pé. Mas, neste processo, acabou se perdendo.

Para agitar O Tempo Não Para, o autor “matou” o vilão Emílio, trazendo em seguida seu irmão gêmeo, Lúcio (João Baldasserini). A troca nunca se justificou. Betina (Cleo), que já era uma antagonista um tanto sem graça, se tornou uma maluca criminosa, cometendo as maiores barbaridades sem levantar uma suspeita sequer. Para piorar, os personagens congelados já estavam adaptados à vida nova, e a contraposição entre passado e presente perdeu espaço. Assim, sem ter mais o que fazer, Mario Teixeira trouxe de volta a doutora Petra (Eva Wilma), que havia participado dos primeiros capítulos, injetando uma última trama sobre um vírus mortal que os congelados carregariam. Petra voltou como uma espécie de vilã, confinando os protagonistas. Assim, a “estratégia Dom Peppino”, de I Love Paraisópolis, foi repetida.

Neste contexto, a trama abandonou vários personagens no caminho. Zelda (Adriane Galisteu) começou como comparsa de Betina, mas acabou sendo substituída justamente pelo seu “escada”, Poc (Leo Bahia). Assim, foi deslocada para um triângulo amoroso com Teófilo (Kiko Mascarenhas) e Monalisa (Alexandra Richter), outros atores jogados para escanteio. Enquanto isso, Helen (Rafaela Mandelli), Cairu (Cris Vianna), Amadeu (Luiz Fernando Guimarães), Mazé (Juliana Alves) e tantos outros fizeram figuração de luxo. E alguém aí sabe o que aconteceu com Marino (Marcos Pasquim)?

Apesar dos problemas estruturais, O Tempo Não Para teve seus méritos. Mesmo quando a trama desandou, ainda era possível assistir e se divertir com os diálogos inspirados e o humor classudo da trama. Personagens como Mariacarla (Regiane Alves), Coronela (Solange Couto), Januza (Bia Montez), Cesária (Olívia Araújo), Elmo (Felipe Simas) e Miss Celine (Maria Eduarda de Carvalho), entre outros, mantiveram a trama de pé. Além disso, O Tempo Não Para nos brindou com as boas performances de Juliana Paiva, Edson Celulari, Christiane Torloni (Carmen) e Milton Gonçalves (Eliseu), entre outros.

Ou seja, apesar dos pesares, O Tempo Não Para não foi uma novela ruim. Mas sairá de cena com a impressão de que deveria ser melhor do que foi. Fica a lembrança da ótima premissa, dos primeiros capítulos geniais, dos diálogos inteligentes e dos bons personagens de uma novela que teve seus momentos.

André Santana