sábado, 12 de maio de 2018

Walcyr Carrasco não entendeu os críticos: "O Outro Lado do Paraíso" foi criticada porque era ruim!

"Me beija e vamos embora, porque
essa novela não fez o menor sentido!"

Criticada pela maioria dos colunistas especializados do início ao fim, O Outro Lado do Paraíso terminou ontem, 11, sem surpreender e com direito à defesa de seu autor, Walcyr Carrasco. O novelista declarou que a crítica não entendeu sua novela, pois os críticos esperavam realidade numa novela que nunca quis ser realista. Nas palavras dele, O Outro Lado do Paraíso resgatou o folhetim clássico, com agilidade e reviravoltas, abusando da fantasia e sem compromisso com a realidade. OK, direito dele defender a sua obra e varrer para debaixo do tapete inúmeras incongruências que marcaram a saga de Clara (Bianca Bin).

Claramente inspirada em O Conde de Monte Cristo, O Outro Lado do Paraíso contou mais uma história de mocinha vingativa no horário nobre. Dona de terras de onde brotavam esmeraldas, Clara foi vítima da vilã Sophia (Marieta Severo), que juntou uma gangue para botar em prática um plano para conseguir aquelas terras para ela. Tratou de casar Clara com seu filho Gael (Sergio Guizé) e, depois, uniu-se à filha Lívia (Grazi Massafera), o psiquiatra Samuel (Eriberto Leão), o delegado Vinícius (Flavio Tolezani) e o juiz Gustavo (Luís Mello) para fazer com que Clara fosse considerada louca e trancafiada num hospício. Lá, a mocinha passa dez anos tendo aulas de etiqueta com Beatriz (Nathalia Thimberg), se torna herdeira da elegante senhora e sai de sua prisão rica, chique e com sede de vingança.

Com a ajuda de Patrick (Thiago Fragoso), sobrinho de Beatriz e melhor advogado criminalista do país (mas que não foi capaz de tirar sua tia do hospício, onde também foi trancafiada injustamente), e Renato (Rafael Cardoso), o mocinho/vilão sem sutileza, Clara começa a se vingar de todos. Um de cada vez, para fazer render os meses de novela. E coloca em prática planos bem mal elaborados: na verdade, Clara não foi capaz de orquestrar grandes vinganças. Apenas se aproveitava de situações que caíam no seu colo.

Ela descobriu que Samuel era homossexual que escondia sua condição, e tratou de “arrancá-lo do armário”. Ele se sentiu humilhado numa tarde, mas à noite já estava saindo para jantar com o namorado Cido (Rafael Zulu). Seguiu exercendo a medicina e tocando sua vida. Já para se vingar do juiz Gustavo (Luís Mello), a mocinha simplesmente deduziu que ele era o dono misterioso do bordel de Pedra Santa. Ele foi desmascarado e deixou de ser juiz, mas ficou por isso mesmo. Seus outros crimes foram esquecidos. A vingança principal, que seria contra Sophia, também foi fraca. Ela simplesmente descobriu seus assassinatos e a denunciou. Com Vinícius, o plano de vingança também veio a partir de uma dedução: ela conheceu a enteada dele, Laura (Bella Piero) e imaginou que ela tivesse sido vítima de abuso do padrasto. Ao menos, ele teve punição à altura: foi descoberto, julgado e condenado pelos seus crimes. Acabou assassinado na cadeia.

Enquanto Clara se preocupava em derrubar os cúmplices de Sophia, ela deixou o caminho livre para que a vilã se tornasse uma serial killer pra ninguém botar defeito. Com isso, mais uma situação sem sentido surgiu em O Outro Lado do Paraíso: se Sophia era capaz de matar com tanta frieza, por que diabos a vilã preferiu jogar Clara num hospício, de onde ela poderia sair e simplesmente acabar com a festa dela, ao invés de simplesmente matá-la a tesouradas? Claro, se ela fizesse isso não haveria novela, mas são estas contradições no perfil dos personagens que enfraqueceram a argumentação do enredo.

Além da história de Clara, O Outro Lado do Paraíso tinha uma outra história principal forte, a saga de Beth (Gloria Pires). Acusada de ter assassinado o amante Renan (Marcello Novaes), ela é obrigada pelo sogro do mal Natanael (Juca de Oliveira) a forjar sua própria morte. Tornando-se Duda, ela se entrega ao vício do álcool e, mais adiante, torna-se sócia do bordel de Pedra Santa. É quando ela descobre ser a mãe de Clara. No entanto, depois disso, sua história cai vertiginosamente, tornando-se um remendo estranho. Duda descobre que Renan não morreu, reencontra a família, volta a ser Beth, mas é rejeitada pela filha Adriana (Julia Dalávia), e seu alcoolismo retorna com força. Mesmo assim, ela se cura quase milagrosamente e se torna coadjuvante de luxo.

A novela também pecou quando tentou fazer merchandising social. Gael batia na esposa Clara, no início da história, mas se redimiu e teve direito a final feliz. Ou seja, reforçou a impressão de que as mulheres oprimidas por seus maridos violentos podem esperar uma mudança de comportamento. A saga de Estela (Juliana Caldas), que trataria do interessante tema do nanismo, não funcionou, já que a história dela enveredou para um triângulo amoroso sem graça e aborrecido. A pedofilia teve um bom espaço, mas a abordagem quase botou tudo a perder ao passar a mensagem de que o trauma de Laura poderia ser curado com sessões de couch (?). Isso sem falar no reforço ao preconceito contra homossexuais no pretenso núcleo de humor de Samuel. Sem graça nenhuma e um desserviço.

E tudo isso regado a diálogos pobres, inacreditavelmente didáticos e sem nenhuma sutileza. Tudo era dito na base do grito, com frases cortantes feitas sob medida para chocar. Assim, os personagens caíam numa caricatura rasa, como a racista Nádia (Eliane Giardini), que bradava aos quatro cantos que não era racista, mas repetia frases racistas à exaustão. Nádia era uma racista caricata, sem sutileza, feita para chocar. E deixou de ser racista num passe de mágica, numa das muitas soluções fáceis propostas pelo autor ao longo da novela. A mesma sutileza faltou em Renato. Quando era mocinho, estava sempre com uma cara tediosa e monocromática. Quando se revelou vilão, nunca mais se desfez do olhar de desdém, passando a maltratar todo mundo, até mesmo quem ele era amigo quando “bonzinho”.

O ponto forte de O Outro Lado do Paraíso foi mesmo sua estrutura narrativa, episódica, que foi capaz de promover vários pontos de clímax no decorrer da novela. As viradas, normalmente marcadas pela conclusão de uma das vinganças de Clara, mantinham o interesse da audiência lá em cima. Neste ponto, Walcyr Carrasco foi feliz, pois conseguiu contar várias histórias, mas mantendo uma linha narrativa principal, a vingança de Clara. Sem dúvidas, foram estas viradas que fizeram O Outro Lado do Paraíso o sucesso de audiência que foi.

Mesmo assim, isso não elimina seus inúmeros pontos fracos e sua irresponsabilidade no trato de temas importantes. Então, senhor Carrasco, não é que a crítica não entendeu sua proposta, o que aconteceu é que a crítica entendeu, mas não comprou sua pretensa intenção de resgatar o folhetim tradicional. Porque é possível fazer um folhetim tradicional sem cair na preguiça e no lugar-comum. E é possível se apaixonar por uma história de fantasia, desde que ela seja realmente uma fábula. Não se pode dizer que a novela é uma fantasia, mas, ao mesmo tempo, tentar discutir temas polêmicos e que estão na pauta da sociedade, e discuti-los porcamente, sem qualquer responsabilidade, sob a capa de que se trata de uma “fantasia”. Ou é uma fantasia, ou não é, não há meio termo. Foi isso que Walcyr Carrasco não entendeu.

André Santana

14 comentários:

  1. Fiquei com pena da fraca atuação da Glória Pires como a ex- alcoólatra Beth, faz tempo que ela não tem boas atuações, mas ainda tem crédito.

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    1. Eu tinha esperança que a saga de Beth salvaria O Outro Lado do Paraíso. Mas, em algum momento, a história se perdeu. Pena!

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  2. Olá, tudo bem? Publicarei hoje no meu blog a lista com os pontos positivos e negativos de O Outro Lado do Paraíso. Realmente, foi a novela mais fraca do Walcyr Carrasco nos últimos 20 anos. Claramente, o autor percebeu o início pífio da trama no IBOPE e abusou dos clichês.... Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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    1. Sim, foi bem ruim mesmo esta novela. Walcyr precisa de férias, não é possível trabalhar tanto e manter a qualidade.

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  3. Novelinha de quinta categoria mesmo. Só fez sucesso porque o público brasileiro tem dificuldades em pensar. Pensar exige muito esforço e o público de hoje, cansado dos problemas do país, prefere historinha batida e entregue na bandeja. Adoraria que esse autor flopasse lindamente um dia. Quem sabe pararia de tratar o público como débil mental. Que assim seja!!!

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    1. Walcyr já teve seus flops (alô, Sete Pecados!), mas é um autor que não tem medo de se submeter às vontades de seu público, mesmo passando por cima da coerência. Por isso mesmo, dificilmente fracassa. Resta saber até quando essa fórmula pronta dele vai colar, já que tudo cansa.

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  4. Oetilo do walcyr carrasco sp funciona em novela das seis ele tem.uma linguagem facil demais ...ai discussões aduktas soam bobocas

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  5. Oi André. Primeiramente, dá gosto ler uma crítica sua. Leio todas e quando não tem crítica nova, vou "caçar" as antigas.
    Concordo em gênero, número e grau.
    O Outro Lado do Paraíso pode ter conquistado o "grande" público, pois realmente Walcyr tem o poder de catalizar a história e chamar a audiência para si, mas pra mim esta foi sua pior novela num ajambrado de todos os clichês possíveis de sua obra, cheia de furos, com saídas fáceis para temas sérios (como você mesmo disse), personagens sem função, inúmeras incongruências e humor que não fez rir. Me dava no saco quando ouvia "Marcel que caiu do céu" e afins. Além disso, não entendo como uma novela com três colaboradores teve tanto erro. Enfim, uma das piores novelas das 21:00. Nisso, Walcyr acertou. Abraço e sucesso!

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    1. Oi João! Puxa, obrigado por estar sempre por aqui! Comente sempre, por favor! E, pelo jeito, concordamos sobre as incongruências de O Outro Lado do Paraíso. Foi bem ruim mesmo.

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  6. ps: Numa novela com tantos pessoas ligadas ao direito, a justiça passou longe.
    A juíza foi atropelada a mando de Sophia e nem ela, nem o marido (o delegado pamonha) investigaram.
    Lívia fez terrorismo, alienação parental com Thomaz e colocou droga na bebida da Clara e ficou por isso mesmo.
    Como você falou, como pode Samuel ter dado um falso laudo médico e continuar clinicando? Além disso, recebeu propina de Sophia para um lançamento do livro e tudo bem "vamos voar, afinal é ficção".
    Sophia tentou matar o avô de Clara no começo explodindo o bar, Rato matou um caminhoneiro a mando dele (acho que por engano) e a mesma mãos de tesoura mandou matar o delegado pedófilo. Ela chantageou o diretor do presídio e esses crimes não tiveram punição.
    E a Nádia que recebeu propina e ficou por isso mesmo?

    Enfim, novela péssima que não volte. E que Walcyr tenha descanso.

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    1. Na prática, ninguém foi punido de nada! É Walcyr pregando a impunidade no horário nobre. Responsabilidade mandou lembranças!

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  7. Foi ruim do começo ao fim. Diálogos fracos e irritantes, situações forçadas, histórias sem graça, personagens sem função. Nada se salvou no desastre que foi essa novela. Fico imaginando no martírio para alguns atores terem que dizer aquele texto lamentável.

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    1. Sim, a novela conseguiu até transformar bons atores em remendos.

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