sábado, 27 de maio de 2017

De "Globinho" à "Bambuluá": uma história esquecida da programação da Globo

Em 1999, a programação infantil da Globo andava mal das pernas. O Angel Mix, infantil apresentado por Angélica todas as manhãs, não ia bem e encarou uma série de reformulações, todas insuficientes diante da forte concorrência com o Eliana & Alegria, da Record, que exibia o hit Pokémon, e o Bom Dia e Cia, de Jackeline Petcovik, que trazia o forte pacote de animações do SBT. Por isso mesmo, no final daquele ano, a Globo convocou o saudoso Roberto Talma para comandar o núcleo infantil e colocar no ar um projeto ambicioso, de nome Globinho.

Sabemos que o tal projeto ambicioso se tornaria o programa Bambuluá, que estreou em outubro de 2000. No entanto, até chegar ao Bambuluá visto no ar nas manhãs do canal, o projeto Globinho passou por várias fases, todas amplamente divulgadas pela imprensa, mas que foram sendo transformadas. O projeto inicial Globinho era bem diferente do Bambuluá, e, agora, o blog TELE-VISÃO resgata esta história bem interessante.

Pra começar, Globinho não seria um programa em si. Seria o nome de uma faixa de programação, que abrigaria vários programas de meia hora que ocupariam toda a manhã da Globo. A ideia era abrir mão de ter um único programa infantil e abrir espaço para atrações de forte cunho educacional e didático, com muito conteúdo nacional, e que pudesse fazer frente aos poderosos desenhos da concorrência. Nestes planos, Angélica perderia espaço. À ela, estava destinada a missão de “costurar” as atrações que compunham a faixa Globinho, e protagonizar uma nova novelinha infantil, no intuito de resgatar o sucesso de Caça Talentos. E o nome desta nova novelinha não era Bambuluá, e sim Angel Road.

Em Angel Road, Angélica viveria ela mesma, e seria uma cantora que, a bordo de um ônibus, viajaria pelo país fazendo shows. Ela apareceria acompanhada de seu staff, vividos por André Marques e Maurício Branco, além de conviver com personagens cômicos vividos por Patrícia Luchesi e a dupla Rosa & Rosinha. A vilã da história era Vicky, vivida por Mônica Carvalho, uma invejosa mulher que fazia de tudo para sabotar os shows de Angélica. Angel Road chegou a ter capítulos gravados, mas não foi adiante. O material gravado se tornou uma espécie de minissérie em cinco capítulos, que a Globo exibiu entre 14 e 18 de agosto de 2000, com o nome Angélica na Estrada.

Além de Angel Road, a faixa Globinho teria ainda uma nova série infantil chamada Capitão Sardinha. Criada por Cao Hamburger, atual autor de Malhação, Capitão Sardinha se passava num submarino amarelo comandado pelo personagem-título, vivido por Stênio Garcia. De cabelo vermelho e bigodes, o capitão viveria aventuras submarinas ao lado do Marujo Pimenta, papel de Cássio Scapin (o Nino do Castelo Rá-Tim-Bum, outra criação de Hamburger). Curiosamente, após vários episódios gravados, a direção da Globo resolveu reformular a série totalmente, transformando-a numa “minissérie” chamada As Aventuras de Zeca e Juca, substituindo Sardinha e Pimenta por duas crianças. Foi ao ar tempos depois, já no Bambuluá.

A nova versão do Sítio do Picapau Amarelo, que estreou dentro do Bambuluá em 2001, também foi inicialmente pensada para integrar o projeto Globinho. E, além de todos estes programas, Globinho teria ainda uma atração comandada pela Turma da Mônica, cujos desenhos animados estrearam na televisão um ano antes, em 1999. A ideia era que a turminha criada por Mauricio de Sousa tivesse uma atração com meia hora de duração, que mesclasse as animações tradicionais com bonecos representando toda a gama de personagens criada pelo cartunista.

Entretanto, conforme foi tomando forma, o projeto Globinho foi mudando. Foi criado um time de crianças, “inspirado” nos Sete Anões, para fazer reportagens dentro do Globinho. Assim, Globinho se transformou em TV Globinho, ganhando a apresentação de Jujuba, Prego, Matraca, Xereta, Pipoca, Minhoca, Escova e Careca. A TV Globinho, por sua vez, ganhou a forma de uma emissora de televisão. Esta emissora de televisão acabou ganhando, em torno dela, uma cidade inteira, onde viveriam os outros personagens dos outros programas. Por exemplo, nesta cidade ficaria o porto de onde Capitão Sardinha sairia com seu submarino. A cidade acabou ganhando o nome de Bambuluá e, como ela era maior que a TV Globinho, optou-se por batizar a nova programação infantil com o nome da cidade, e não da emissora de TV. Angélica, assim, viu suas aventuras serem transferidas da estrada para a “cidade dos sonhos”, surgindo assim a novelinha principal que dava nome ao programa.

Por isso, quando entrou no ar, o projeto Globinho era Bambuluá, a cidade dos sonhos. A TV Globinho, que ficava dentro da cidade, tornou-se a “costura” do programa, trazendo as reportagens dos personagens e quadros variados, como Garrafinha, Iscavoka-Iscavoka, Irmãos em Ação e Turma da Mônica na TV, além de desenhos animados. Na época da estreia, Talma reforçou, em entrevistas, que vários dos projetos previstos para o Globinho estavam sendo preparados para estrear em breve no Bambuluá. "O Sítio do Picapau Amarelo, Capitão Sardinha e Pequeno Alquimista já estão sendo preparados para estrear no próximo ano, assim como Blur, um longa metragem de animação por computador que se passa no futuro", explicou ele ao jornal O Estado de S. Paulo em outubro de 2000. Na mesma estrevista, Talma falou sobre a reformulação enfrentada por Capitão Sardinha. "Já sobre o Capitão Sardinha, analisamos o piloto e achamos que não repercutiria junto ao nosso público alvo. Vamos repensá-lo”, afirmou.

Capitão Sardinha virou As Aventuras de Zeca e Juca e estreou em 2001, junto com Sítio do Picapau Amarelo. Já Pequeno Alquimista foi engavetado, tornando-se um especial de fim de ano anos depois. Ou seja, a ideia inicial de fazer uma faixa com vários programas acabou se tornando um único programa, porém formado por segmentos diversos. E o resto é história: Bambuluá não alcançou os índices de audiência desejados pela Globo e saiu do ar no final de 2001.

Quando foi decretado o fim de Bambuluá, a ideia da Globo era apostar num outro projeto infantil. O canal, assim, acabou escalando Marlene Mattos, então responsável pelo núcleo dos programas Planeta Xuxa, Caldeirão do Huck e Mais Você, para assumir o núcleo infantil, substituindo Roberto Talma. Na época, a poderosa ex-diretora de Xuxa anunciou que sua ideia era trazer Xuxa de volta aos infantis diários, mas, também, aproveitar Angélica. “Eu vejo a Angélica na programação infantil, sim, mas ainda não sei como”, disse a diretora à revista Contigo!. No entanto, Marlene nunca chegou a assumir, de fato, a grade infantil, pois rompeu com Xuxa pouco tempo depois. Foi Xuxa quem acabou voltando para as manhãs, com seu Xuxa no Mundo da Imaginação, com Roberto Talma como diretor de núcleo. Enquanto isso, Angélica deixou de vez os infantis, assumindo o Vídeo Game, no Vídeo Show, e o reality musical Fama. E o resto todos sabemos: Xuxa tentou ainda com seu TV Xuxa, o Sítio do Picapau Amarelo ficaria no ar até o final de 2007, e a TV Globinho acabou se tornando o único infantil da emissora a atravessar a década, ficando no ar até agosto de 2015.

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André Santana

14 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Nesta época, já estudava de manhã na Faculdade. Então, não acompanhei essa fase dos infantis da Globo. Na realidade, sempre acompanhei Cultura e SBT na minha infância. Abs, Fabio www.tvfabio.zip.net

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    1. Eu estava no colegial e também não acompanhava os infantis. Tinha 16 anos, não era o público-alvo dos programas, mas eu gostava da Angélica, então eu via sempre que tinha uma folga. Mas esta história toda que contei no post eu acompanhei pela imprensa mesmo. Sempre torci para o Capitão Sardinha ter vidado realidade, parecia uma ideia tão boa... rsrs. Abraço!

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  2. Voce deveria fazer mais textos desse tipo, Andre. Sao textos assim que valem um livro Tele-visao, pelo tom documental. Posts opinativos sao bons, mas opiniao eh algo individual que nao traduz necessariamente um registro historico. Aquele post sobre as tardes de sabado do SBT eh um exemplo de registro historico

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    1. Eu adoro fazer este tipo de texto, Daniel! Sempre que pintar alguma ideia bacana neste sentido, pode ter certeza que estará por aqui. Obrigado!

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  3. O canal viva do grupo Globo bem que poderia passar os primeiros anos do Angel mix lembro que tinha musicais e brincadeiras seria muito bom rever essa fase de Angélica nos infantis da globo
    Tenho esperança pois a novela caça talentos já passou no viva

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    1. Eu também gostava bastante do primeiro Angel Mix. Era beeem "inspirado" no Passa ou Repassa, programa no qual Angélica se destacou no SBT e despertou o interesse da Globo. Caça Talentos e Flora Encantada já passaram pelo Viva, Angel Mix e Bambuluá bem que poderia passar também!

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  4. Até hoje é bem nebuloso o afastamento da Xuxa e da Marlene, mas esse afastamento fez mal às duas. A Marlene está praticamente no ostracismo e a Xuxa, apesar de ainda ter um forte apelo, nunca mais fez grande sucesso depois dessa ruptura...

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    1. Isso é verdade. As duas perderam força ao se separarem.

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  5. Excelente texto! Adoro saber sobre essas curiosidades da televisão!

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    1. Obrigado! Quero fazer isso mais vezes por aqui!

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  6. Esses textos com curiosidade é muito bom mesmo !Me parece que entre 1998 e 1999 os programas femininos da rede manchete tv Gazeta e tv Record tiveram muita troca de apresentadoras como Beth russo ,Claudete Troiano Ana Maria Braga e Cátia Fonseca
    Parece que Cátia e claudete Já se revezaram em vários programas
    Mulher de hoje ,Pra você ,note e anote
    Seria uma boa pauta neh ,o auge dos programas femininos e troca de apresentadoras assim que puder poste algo

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    1. Caio, é uma ótima ideia! Eu acompanhei bem este troca-troca de apresentadoras nos programas femininos! Vou pensar num texto bem bacana sobre isso. Obrigado pela sugestão!

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  7. Parece que em 2000 a Angélica recebeu proposta para fazer um programa para jovens com auditório nas tardes de domingo na Record você se lembra desse fato ?

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    1. Olá! Não me lembro deste fato, infelizmente! Vou pesquisar pra tentar descobrir. O que eu me lembro é que a Angélica declarou publicamente, entre 2000 e 2001, que não estava feliz fazendo o Bambuluá e queria um programa para jovens. E que, na época, em razão destas declarações e da aproximação do fim do contrato dela com a Globo, houve uma sondagem da Band.

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