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Lícia Manzo frustra fãs ao anunciar despedida das novelas

Lícia Manzo
Lícia Manzo (Leo Martins/O Globo)

A teledramaturgia brasileira perdeu oficial e definitivamente uma de suas vozes mais sensíveis e singulares no formato diário. Em declarações recentes à imprensa, a autora Lícia Manzo cravou o fim de seu ciclo como novelista: aos 61 anos (prestes a completar 62), a dramaturga revelou que não pretende mais assinar folhetins. O motivo: o ritmo industrial e desgastante da produção de folhetins diários.

A notícia, embora desaponte os apaixonados pelo folhetim clássico, abre espaço para um recomeço empolgante. De volta à TV Globo, a autora agora se dedica ao universo das séries com Resposta ao Tempo, projeto original desenvolvido para o Globoplay. A produção, focada no reencontro de quatro ex-nadadoras maduras, promete mergulhar no etarismo e na violência de gênero após o assassinato de uma das protagonistas. Drica Moraes, Debora Bloch, Giulia Gam e Edvana Carvalho atendem pelos papéis centrais.

A novidade marca o retorno de Lícia Manzo às séries. Vale lembrar que a autora estreou com um projeto autoral na Globo com a graciosa Tudo Novo de Novo, seriado exibido em 2009 que narrava os desencontros do casal Clara (Julia Lemmertz) e Miguel (Marco Ricca), às voltas com ex-maridos e filhos de outros casamentos. Uma ótima produção, mas que rendeu apenas uma temporada.

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Fãs

Ao longo de sua trajetória na TV aberta, Lícia Manzo construiu um público extremamente fiel, que encontrou em seu texto uma alternativa à espetacularização e aos ganchos histriônicos. Sua escrita sempre foi calcada no aprofundamento das relações humanas, nos dilemas cotidianos e em diálogos de uma delicadeza ímpar, nos quais o subtexto e os silêncios falavam tão alto quanto as palavras.

Essa assinatura ficou cristalina em suas duas passagens pela faixa das 18h. Em A Vida da Gente (2011), o triângulo amoroso e ético formado por Ana (Fernanda Vasconcellos), Manuela (Marjorie Estiano) e Rodrigo (Rafael Cardoso) cativou o público pelo nível de maturação e empatia com que a dor de cada personagem era tratada. Não por acaso, a trama se consolidou como uma das novelas mais vendidas e exportadas da história da TV Globo.

Anos mais tarde, Sete Vidas (2015) reeditou o sucesso da parceria com a faixa das seis. Ao abordar a busca de meio-irmãos gerados por doação de sêmen pelo pai biológico (Domingos Montagner), a autora entregou mais uma aula de construção de personagens imperfeitos, com seus traumas familiares expostos de forma elegante e emocionante.

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Despedida amarga

A transição para o horário nobre, contudo, revelou-se um desafio tortuoso. Estreada em 2021 sob o contexto adverso da pandemia de Covid-19 e com capítulos totalmente gravados antecedendo a exibição, Um Lugar ao Sol sofreu na faixa das 21h. Enfrentando uma recepção morna da audiência e amargando índices baixos no Ibope, a produção foi rotulada como um fiasco.

Ainda assim, julgar a obra apenas pelos números de audiência não seria justo. Um Lugar ao Sol manteve intacta a dignidade do texto de Lícia Manzo. A saga de usurpação de identidade entre os gêmeos Christian e Renato (Cauã Reymond) serviu de pano de fundo para reflexões profundas sobre preconceito de classe, gordofobia, etarismo e dependência emocional, mantendo o padrão refinado que a consagrou.

Vale lembrar que Lícia Manzo quase voltou às novelas em 2024, quando foi anunciada seu retorno à faixa das seis com O País de Alice. A autora já trabalhava no texto e a novela já estava em pré-produção quando foi cancelada e “substituída” por No Rancho Fundo. 

Além disso, a autora teve outra novela cancelada: Jogo da Memória, escrita inicialmente para a faixa das 23 horas. Em entrevista ao O Globo, Lícia revelou que considera essa a sua melhor novela. Pena que nunca a veremos… 

Porém, a Globo parece empolgada em voltar a produzir novelas exclusivas para o Globoplay e deve lançar suas produções em seu streaming em 2027: Vida Dupla, de Ricardo Linhares, e Paraíso Perdido, de George Moura e Sergio Goldenberg. A emissora, então, bem que poderia considerar desengavetar Jogo da Memória, né?

André Santana

22/102/2026

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