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| Ícaro Silva, Letícia Colin, Paulo Mathias Jr e Geovanna Tominaga na TV Globinho (Angelica Goudinho) |
Como parte da maratona do Criança Esperança, a Globo exibiu na manhã deste sábado, 10, uma edição especial da TV Globinho. A atração reuniu Geovanna Tominaga, Letícia Colin, Paulo Mathias Jr e Ícaro Silva, que passaram pela apresentação do programa clássico, e exibiu episódios de Três Espiãs Demais, Dragon Ball Z e Digimon, animações que marcaram a história da faixa.
A audiência não foi lá essas coisas, mas a nostalgia bateu forte no coração das “crianças” de 30 anos que cresceram assistindo à TV Globinho. Diante de tamanho saudosismo, fica a impressão de que o infantil realmente foi uma das melhores coisas que já passou pela programação infantil da Globo. Mas não foi bem assim.
Na verdade, a TV Globinho representa a ruína da programação infantil da Globo. Afinal, o programa representa uma fase pouco criativa do segmento na emissora, num momento em que o canal jogou a toalha de vez na tentativa de produzir um programa infantil capaz de chamar a atenção das crianças e recorreu à fácil solução de exibir um desenho animado atrás do outro.
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Superproduções
Desde o início de sua história, a Globo se preocupou em produzir programas para crianças. Logo no início da emissora, o programa Uni-Duni-Tê, lançado em 1965, buscou agradar os pequenos espectadores. Nos anos 1970, surgiram programas como Globinho (não confundir com TV Globinho) e a primeira adaptação da Globo do Sítio do Picapau Amarelo.
Já nos anos 1980, o espaço para programas infantis cresceu consideravelmente com o lançamento de ícones como Balão Mágico e Xou da Xuxa. Esse último ficou no ar até 1992 e, ao sair de cena, abriu espaço para a TV Colosso. O programa com bonecos animatrônicos mostra bem que a Globo não economizava no intuito de produzir um programa infantil de qualidade e muito bem feito.
Com o fim da TV Colosso, entrou em cena a era de Angélica, que comandou o Angel Mix e protagonizou as novelinhas Caça Talentos, Flora Encantada e Bambuluá. Mais uma vez, nota-se o alto investimento da emissora no segmento. Bambuluá, por exemplo, se passava numa enorme cidade cenográfica e não apenas abrigava uma novelinha de aventura, mas também segmentos realizados com bonecos, atores e animações. Era um projeto grandioso.
Depois disso, vieram ainda a versão anos 2000 do Sítio do Picapau Amarelo, também bastante caprichado, e os últimos programas infantis da Xuxa, Xuxa no Mundo da Imaginação e TV Xuxa. Tanto o Sítio do Picapau Amarelo quanto a versão infantil do TV Xuxa chegaram ao fim em 2007, enterrando de vez os altos investimentos da Globo na programação infantil.
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Só desenho
Grande parte dos programas infantis produzidos pela Globo tinha desenhos em seu recheio. No entanto, percebia-se a preocupação de não oferecer apenas animações, mas também outros conteúdos capazes de criar uma conexão com o espectador mirim. A emissora, durante muitos anos, dispensou muita atenção aos seus infantis e produziu coisas realmente grandes.
Neste meio-tempo, surgiu a TV Globinho. Inicialmente, a marca era um quadro do Bambuluá, responsável por exibir os desenhos e as séries que costuravam toda a novelinha. Mas, a partir de 2002, TV Globinho se tornou um programa independente e, de fato, virou uma faixa de desenhos, sem muita preocupação com o conteúdo.
Em outubro de 2002, a Globo reformulou a programação infantil com a estreia de Xuxa no Mundo da Imaginação. A faixa entre 9h30 e meio-dia abrigava três programas diferentes: a atração de Xuxa, o Sítio do Picapau Amarelo e a TV Globinho encerrando a grade infantil. Era uma ideia interessante, pois “organizava” o conteúdo.
Xuxa no Mundo da Imaginação, por exemplo, não tinha desenhos em seu início e era voltado a um público pequeno, com um conteúdo bastante didático. Na sequência, vinha o Sítio do Picapau Amarelo, voltado a um público um pouco mais velho. Por fim, a TV Globinho se tornou o espaço para desenhos nessa nova grade, com animações de aventura voltadas às crianças mais velhas e pré-adolescentes. Fazia sentido.
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O fim
Entretanto, aos poucos, a Globo viu sua programação infantil perder força. Xuxa no Mundo da Imaginação começou bem, mas perdeu audiência logo. Com isso, em 2005, foi substituído pelo TV Xuxa, atração também formada por vários segmentos, muitos cenários e quadros. Ficava claro que a Globo ainda investia bastante em infantis.
Mas tanto Xuxa quanto o Sítio do Picapau Amarelo já não apresentavam a audiência que a Globo esperava. Paralelamente, começavam as mudanças quanto à publicidade infantil na TV, o que desestimulou emissoras a investir em programas para crianças. Diante desse cenário, a Globo simplesmente desistiu de produzir algo mais elaborado para crianças.
O raciocínio era simples: pra que investir rios de dinheiro em conteúdo infantil original se a audiência não corresponde e o faturamento é reduzido? Assim, ao optar por encerrar o TV Xuxa e o Sítio do Picapau Amarelo, a Globo optou por não buscar novos programas infantis. O canal tratou, apenas, de aumentar o espaço da TV Globinho, reduzindo sua programação infantil à exibição de desenhos.
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Criança gosta de desenho
Vale considerar que a Globo não estava sozinha nesse raciocínio. Muita gente lembra que o Bom Dia & Cia fazia sucesso com Yudi e Priscila distribuindo Playstations, mas é importante lembrar que a principal atração do infantil do SBT, naquela fase, já eram os desenhos. Tanto que, em seu início, Bom Dia & Cia tinha preocupação com conteúdo, com quadros variados. Porém, em seus últimos anos, o programa foi reduzido a jogos por telefone, já sem os mesmos investimentos de antes. O SBT também já teve uma fase áurea de programas infantis, mas, com o fim do Disney Cruj, o investimento foi drasticamente reduzido.
Com a TV Globinho, a Globo foi pelo mesmo raciocínio. A emissora tratou de investir apenas na “embalagem”, com uma marca e um grupo de apresentadores para chamar desenhos e fazer da TV Globinho uma faixa de animações. Ou seja, de 2008 a 2015, a emissora decidiu simplesmente seguir com os desenhos e não produzir mais nada para crianças, afinal, no fundo, os desenhos é que chamavam a atenção do público mesmo…
Tanto que, até seu fim, a TV Globinho não chegou a decepcionar na audiência. As animações seguraram bem o público, e só perderam espaço mesmo porque não faturavam. Ao trocar os desenhos pelo Encontro com Fátima Bernardes e o É de Casa, a Globo somente optou por investir em conteúdos com maior potencial comercial. Simples assim.
Ou seja, muita gente tem a nostalgia dos tempos em que acordava cedo, tomava leite e assistia aos melhores animes no sofá. Mas a TV Globinho não era nada além disso: uma sessão de desenhos. Foi, na verdade, a pá de cal que enterrou uma fase mais inventiva e criativa da programação infantil da emissora.
André Santana
10/10/2026

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