![]() |
| Silvio Santos no comando do primeiro Teleton (reprodução) |
Na noite desta sexta-feira, 6, o SBT abre as portas de seus estúdios no CDT da Anhanguera para dar início a mais uma maratona televisiva em prol da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), o Teleton. A mobilização, que se estende ao longo do sábado, 7, já faz parte do calendário afetivo e da identidade do canal. No entanto, para entender a dimensão desse compromisso, é preciso voltar a maio de 1998, quando Silvio Santos tomou uma das decisões mais ousadas da história da televisão brasileira ao colocar no ar o primeiro Teleton.
A ideia do formato nasceu nos Estados Unidos há mais de duas décadas pelas mãos do comediante Jerry Lewis, que popularizou a "olimpíada televisiva" de arrecadação para caridade, modelo posteriormente replicado com sucesso em países da América Latina como o Chile e o México. No Brasil, contudo, a semente custou a vingar. Conforme reportou o Jornal do Brasil em 16 de maio de 1998, o idealizador da versão nacional e diretor da AACD, Waldomiro Carvas Jr., revelou que tentava viabilizar o projeto no país há dez anos, até que o SBT finalmente comprou a briga no final de 1997.
Continua depois da publicidade
O sacrifício do domingo e a união de redes rivais
A aposta não era pequena. Para colocar o maratona no ar a partir das 21h do sábado, 16 de maio de 1998, Silvio Santos abriu mão de 25 horas seguidas da programação normal da emissora, incluindo a faixa dominical, justamente o dia de maior faturamento comercial e retorno de audiência do SBT. Na imprensa da época, matérias do jornal O Globo e da Folha de S. Paulo destacavam o ineditismo da operação, que reuniu um batalhão de mais de cem artistas sem a cobrança de cachês.
Embora a Rede Globo não tenha liberado a participação em estúdio de sua principal estrela infantil na época, Xuxa Meneghel, o evento rompeu barreiras históricas da rivalidade entre emissoras. O Teleton contou com transmissões simultâneas e apoio de redes como a extinta Manchete, TV Cultura, TV Gazeta, MTV e CNT, além de entradas ao vivo de grandes nomes do meio musical, como Roberto Carlos (falando direto de Manaus), Daniela Mercury, É o Tchan! e Netinho.
A bancada de apresentadores transformou-se em um encontro histórico de talentos da TV. Lado a lado com os pratas da casa do SBT, como Silvio Santos, Hebe Camargo, Gugu Liberato, Jô Soares, Marília Gabriela, Serginho Groisman, Eliana e Carlos Alberto da Nóbrega, o palco recebeu comunicadores de canais concorrentes, como Luciano Huck (então na Band), Ione Borges (da CNT/Gazeta), além de Astrid Fontenelle, Sabrina Parlatore e Gastão Moreira (destaques da MTV).
Continua depois da publicidade
Meta batida e uma lição de dignidade na TV
A meta inicial da AACD era arrecadar R$ 9 milhões para viabilizar a construção de um novo centro de reabilitação fora de São Paulo, mais especificamente em Recife (PE), capaz de atender centenas de pacientes por dia.
O resultado final superou todas as expectativas da organização. Como noticiado pela Folha de S. Paulo em 19 de maio de 1998, a transmissão ultrapassou a marca de R$ 9,4 milhões arrecadados apenas em doações diretas por telefone, valor que ainda seria acrescido por depósitos bancários e pelo leilão de itens históricos, como um capacete do piloto Emerson Fittipaldi e uma camisa do jogador de vôlei Marcelo Negrão.
A repercussão do evento na imprensa foi estrondosa. Em crítica publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 24 de maio de 1998, a jornalista Elenice Brígida Lombardo destacou que o montante arrecadado pelo SBT foi "mais que o dobro do Criança Esperança, da Globo, de 1997 (R$ 4,4 milhões)", ressaltando a maturidade da cobertura ao vivo conduzida ao longo de mais de 27 horas.
O artigo do Estadão pontuou ainda que a maratona serviu como um divisor de águas institucional para a emissora de Silvio Santos:
"Se o brasileiro teve chance de fazer um exercício de solidariedade com o Teleton, o SBT mostrou competência nas 27 horas e 30 minutos em que manteve o programa no ar, ao vivo [...]. O Teleton mostrou um SBT ágil, moderno e estruturado, capaz de mobilizar a população sem apelar para o grotesco [...]. O humanitário Teleton acabou humanizando um canal acostumado a transformar a miséria em espetáculo."
Ao apresentar histórias tocantes de superação com sensibilidade e assumir a transparência de prestar contas sobre cada centavo investido, o primeiro Teleton não apenas garantiu tijolo por tijolo a expansão do trabalho da AACD pelo Brasil, como fixou uma das marcas mais nobres do SBT. Uma tradição de solidariedade e grande apelo popular que se renova no ar a partir de hoje.
André Santana
06/11/2026

0 Comentários