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| Renata Sayuri como Kira, apresentadora do Band Kids (divulgação) |
No início dos anos 2000, a televisão brasileira vivia um cenário engessado em sua grade diária. Enquanto as manhãs eram dominadas por atrações infantis e as tardes ficavam restritas aos programas femininos de variedades, a Rede Bandeirantes decidiu chutar o balde do óbvio. Em agosto de 2000, a emissora colocava no ar o Band Kids, uma sessão de animações que não apenas subvertia a lógica do controle remoto, mas carregava o peso de uma das maiores e mais ousadas ambições comerciais da história do canal.
A estratégia traçada pela Band ia na contramão de suas concorrentes. Conforme reportou a jornalista Anna Lee na Folha de S. Paulo à época, a emissora quis "percorrer o caminho inverso das emissoras, que colocam a programação infantil no horário da manhã".
O objetivo imediato era capturar as crianças e pré-adolescentes que ficavam órfãos de opções na faixa vespertina, dominada por receitas de cozinha e fofocas. Mas, nos bastidores, o plano era infinitamente maior: o bloco de desenhos era a semente de um futuro império de mídia.
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Band Kids na TV paga
O Band Kids nasceu blindado por um orçamento inicial de US$ 1 milhão para o seu primeiro ano, mas a meta final mirava o topo. Em entrevista à jornalista Erika Sallum, também da Folha, o então vice-presidente da rede, Roberto de Oliveira, revelou a verdadeira faceta do projeto: "A intenção é lançar, em no máximo dois anos, um canal a cabo para crianças, que também se chamaria 'Band Kids'". A TV aberta, portanto, funcionava como uma gigantesca vitrine e incubadora de público.
"Os desenhos japoneses que adquirimos devem fidelizar a audiência que, posteriormente, sustentará o canal pago", explicou Roberto de Oliveira ao Meio & Mensagem. A aposta em desenhos japoneses não era por acaso: a Band já exibia Dragon Ball Z na época e a animação surpreendeu a emissora no Ibope. Além disso, a Manchete havia acabado de sair do ar, deixando uma lacuna de “canal de animes” que precisava ser preenchida. A Band viu aí a oportunidade de criar seu próprio público infantil.
Essa expansão não pararia na TV por assinatura. O plano de negócios da emissora do Morumbi englobava a criação de parques temáticos e uma vasta linha de produtos licenciados. Conforme revelou o diretor de Produção da Band, Celso Tavares, ao O Estado de S. Paulo, pesquisas da consultoria Geca haviam diagnosticado que o público-alvo da emissora estava envelhecendo, concentrado acima dos 30 anos. O rejuvenescimento da marca era vital, e as crianças eram a chave para o futuro.
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Kira: uma apresentadora diferente
Para comandar essa revolução infantojuvenil, a Band buscou deliberadamente fugir do saturado estereótipo da "lourinha dos infantis", como destacou a imprensa da época. Entre 70 candidatas, a escolhida foi Renata Sayuri, uma jovem mestiça de 19 anos que deu vida a Kira, uma aprendiz de heroína espacial com traços e vestimentas que remetiam diretamente à cultura pop asiática.
Na atração, Kira fazia a costura dos desenhos animados, interagindo com os personagens Grande Olho e o robô Yuki. Embalada por tecnologia 100% digital, a atração casava perfeitamente com a febre dos animes que dominava o mercado.
Exibido originalmente das 15h às 17h, o programa conquistou seu público com uma seleção de desenhos de ação: Bucky, Cadillacs e Dinossauros, Os Seis Biônicos e, claro, o fenômeno absoluto Dragon Ball Z. Posteriormente, vieram outras atrações, como O Mago e El Hazard. A mistura deu tão certo que, logo na primeira semana, a audiência da faixa cresceu 20%.
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Fim do sonho
Entretanto, os planos da Band para construir um grande “conglomerado infantil” não saiu do papel. Pouco antes de completar um ano no ar, Band Kids acabou sendo rifado da grade. Isso porque, em 2001, Rogério Gallo assumiu a superintendência artística da emissora e adotou uma estratégia para “popularizar” a Band, buscando fortalecer a audiência e o faturamento da emissora.
Com isso, a Band contratou nomes como Leão Lobo e Márcia Goldschmidt e mexeu em sua programação vespertina. Surgiram o Melhor da Tarde, que Leão comandava ao lado de Astrid Fontenelle e Aparecida Liberato, e Hora da Verdade, telebarraco com Márcia. Os programas estrearam em junho de 2000, “empurrando” o Band Kids para a faixa das 18h. Nesta fase, Kira saiu de cena e ficaram apenas os desenhos. A faixa acabou deixando a grade no final de 2001, quando foi lançado o Brasil Urgente.
Depois disso, a Band “ressuscitou” a marca Band Kids em outras oportunidades, mas sem levar adiante a ideia de estendê-la para outras plataformas. Embora o canal pago próprio e os parques temáticos nunca tenham saído do papel da forma como foram planejados, o Band Kids garantiu seu lugar na história como um sopro de audácia que provou que as tardes de semana também podiam ser das crianças.
André Santana
02/07/2026

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