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| Rivaldo e sua família em Três Graças (divulgação) |
Como observado em análise publicada neste espaço no último final de semana, Três Graças saiu de cena deixando várias lições para a Globo. Além das já elencadas no texto anterior, a trama escrita por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva também deixa como lição o fato de que núcleo de humor não deve ser obrigatório em novelas e não faz falta quando é abolido.
Refiro-me, claro, ao núcleo da família do porteiro Rivaldo (Augusto Madeira), composto por ele, sua esposa Alaíde (Juliana Alves), o filho Cristiano (Davi Luis Flores) e seus sogros Célio (Otávio Muller) e Chica (Rejane Faria). Os personagens, que viviam no prédio em frente à casa de Arminda (Grazi Massafera) foram criados, inicialmente, como “alívios cômicos” da trama.
Rivaldo vivia às voltas com as maluquices do sogro, enquanto tentava ficar bem com a esposa e o filho. Entretanto, o núcleo não foi muito feliz nas situações ditas engraçadas e acabou perdendo espaço na narrativa. Ao perceber que os personagens não caíram nas graças do público, os autores trataram de recalcular a rota e modificaram a história que os envolvia.
Com a mudança, Célio acabou morrendo, assassinado por Arminda, e Chica passou vários capítulos sumida, ao viajar para o Nordeste em busca do marido. Enquanto isso, Rivaldo e Alaíde descobriram que o filho faz parte do espectro autista e passaram a aprender como lidar com essa condição. Ou seja, eles deixaram de ser “núcleo cômico” para se tornarem “núcleo merchan social”.
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Não precisa
É fato que a trama envolvendo o autismo não foi das mais relevantes de Três Graças. Apesar da boa intenção dos autores, a história de Cristiano acabou soando como um improviso, já que não foi bem construída. Mas, independentemente disso, é preciso reconhecer que os autores foram felizes ao identificar a rejeição do público e alterar a rota da história.
E é essa a lição que fica. Novela não precisa ter um núcleo obrigatoriamente cômico. Essa é uma “regra” que se estabeleceu na teledramaturgia brasileira quando os autores entenderam que precisavam fazer o público relaxar entre um drama e outro. Diante dessa regra, o que surgiram foram núcleos forçados, com humor questionável e que, normalmente, se desconectam do restante do enredo. E isso é ruim.
Veja: Três Graças não precisava de um “núcleo Rivaldo” para ser engraçada. Ferette (Murilo Benício) e Arminda eram os grandes vilões e estavam inseridos em uma trama séria, mas os personagens eram divertidos. As sequências da dupla arrancavam boas risadas e não eram forçadas. Joaquim (Marcos Palmeira) e Misael (Belo) também tiveram seus momentos divertidos, e até a própria Gerluce (Sophie Charlotte) teve cenas mais divertidas. Ou seja, o humor dentro de uma novela dramática funciona quando está bem encaixada na trama. Não precisa vir separado, como um “extra”.
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Humor sim, núcleo cômico não
Essa constatação surge quando a Globo reprisa Avenida Brasil (2012), novela muito querida pelo público, mas criticada por conta de seu núcleo cômico. As aventuras de Cadinho (Alexandre Borges) e suas três mulheres correm quase que totalmente em paralelo ao enredo principal, justamente na intenção de ser “alívio cômico”. E não funciona.
Isso, aliás, é uma constante em novelas de João Emanuel Carneiro. A Favorita (2008) padeceu com Céu (Deborah Secco) e Orlandinho (Iran Malfitano), enquanto Todas as Flores (2022) tinha a chatíssima história de Oberdan (Douglas Silva). Tramas desconectadas, pouco engraçadas e que não precisavam existir dentro da história.
Em Avenida Brasil, a família Tufão já é engraçada o suficiente. As cenas de refeição, com Tufão (Murilo Benício) e seus parentes falando todos ao mesmo tempo já eram naturalmente divertidas, mesmo inseridas no contexto dramático do enredo.
Assim, a lição que Três Graças deixa é: uma novela dramática pode, sim, apostar em comédia dentro de um enredo dramático. Mas essa comédia não deve vir “separada”, num núcleo cômico. Chega de ser engraçado por obrigação!
André Santana
19/05/2026

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