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| Letícia Colin e Antonio Fagundes em Quem Ama Cuida (divulgação) |
O retorno de Walcyr Carrasco ao horário nobre da Globo, agora dividindo a autoria com Claudia Souto, recupera um elemento clássico das novelas que vinha sendo pouco explorado nas produções recentes: a estreia marcada por um grande impacto emocional. Em Quem Ama Cuida, a história começa sem rodeios, mergulhando imediatamente o público em um acontecimento devastador que estabelece o tom dramático da trama desde os primeiros minutos.
A enchente que atinge a comunidade onde vive Adriana (Letícia Colin) proporcionou um primeiro capítulo impactante. A novela apostou em cenas intensas, repletas de tensão e efeitos bem executados, algo que há tempos não ganhava tanto destaque na faixa das nove. O desastre não apenas destrói o lar da protagonista, como também elimina aquilo que sustentava emocionalmente sua vida, criando um trauma imediato que movimenta toda a narrativa.
A morte de Carlos (Jesuíta Barbosa), marido de Adriana, consolida esse ponto de ruptura e define o principal conflito da personagem. Depois de um período em que muitas novelas apostaram em construções lentas ou excessivamente conceituais, a escolha por uma abertura explosiva devolve ao folhetim o senso de urgência e emoção popular. O resultado é uma estreia capaz de prender a atenção do público logo de início, despertando forte envolvimento emocional.
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Mocinha carismática
Depois da adorável Gerluce (Sophie Charlotte) em Três Graças, o desafio da Globo era oferecer mais uma mocinha capaz de gerar identificação na audiência. E Adriana parece que cumprirá bem tal missão, ao menos nesse início. O que não é tarefa fácil, pois a personagem reúne características delicadas de equilibrar: é ética, determinada e bastante rígida em seus princípios. Neste ponto, Adriana poderia ser uma chata, mas Letícia Colin, sempre ligeira, consegue imprimir carisma ao tipo.
A atriz consegue fazer de Adriana profundamente humana. Letícia Colin revela as inseguranças e fragilidades escondidas por trás da postura firme da personagem, criando uma conexão imediata com o espectador. Mesmo quando Adriana insiste em atitudes que poderiam soar excessivamente moralistas, a atriz transmite sensibilidade suficiente para manter a empatia do público.
O momento mais forte da estreia acontece justamente quando Adriana desmorona diante da perda do marido e da destruição de sua vida. Em uma interpretação intensa e sem exageros artificiais, Letícia Colin transforma o sofrimento da personagem em algo genuíno, reforçando a dimensão emocional da novela e consolidando a protagonista como o grande coração da história.
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A presença de veteranos
Outro destaque importante de Quem Ama Cuida é a valorização de grandes nomes da dramaturgia brasileira. A presença de Tony Ramos dá à novela uma solidez imediata. Com sua experiência e domínio de cena, o ator imprime autoridade ao núcleo central e acrescenta profundidade dramática às sequências em que aparece.
A estreia também chamou atenção pelo retorno de artistas muito queridos pelo público. Antonio Fagundes surge com o carisma e a imponência que marcaram sua trajetória, agregando prestígio instantâneo à produção. Mais do que um apelo nostálgico, a participação desses veteranos reforça uma sensação de qualidade clássica que muitos telespectadores sentiam falta nas novelas recentes.
Neste contexto, vale salientar a boa parceria entre Letícia Colin e Antonio Fagundes. A amizade que surge entre a humilde fisioterapeuta Adriana e o milionário Arthur Brandão é a espinha dorsal da novela e vem sendo bem construída. Os dois personagens funcionam juntos, num tipo de parceria que Walcyr Carrasco já ofereceu em outras novelas, como Chocolate com Pimenta (2003), que tinha na amizade de Aninha (Mariana Ximenes) e Ludovico (Ary Fontoura) o pontapé inicial.
Ainda sobre veteranos, Deborah Evelyn e Isabela Garcia completam esse elenco experiente de maneira bastante eficiente. Deborah aparece em um papel que já sugere camadas complexas e possíveis tons de antagonismo, enquanto Isabela resgata a naturalidade e o calor humano que sempre caracterizaram suas interpretações. A escolha por reunir nomes tão marcantes evidencia a aposta da novela na memória afetiva do público.
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Nem tudo são flores
Há que se considerar ainda a presença marcante de Isabel Teixeira que, como Pilar, engata a terceira vilã seguida de sua carreira. A atriz foi criticada pelas tintas fortes, mas é preciso considerar que Quem Ama Cuida é um dramalhão. Boa profissional, Isabel Teixeira há de encontrar o equilíbrio para fazer de Pilar uma megera eficiente.
Porém, entre tantas boas atuações, uma se destaca negativamente. Trata-se de Chay Suede, intérprete do mocinho Pedro. Chay não é um ator ruim, mas, desde Amor de Mãe (2019), criou o hábito de ditar o texto de forma descompromissada, quase sem esforço, tentando encontrar certo naturalismo em sua interpretação. A técnica funcionou bem para o mocinho Danilo, mas o problema é que, depois disso, o ator passou a repetir tal fórmula nas tramas posteriores, Travessia (2022) e Mania de Você (2024).
Assim, Pedro parece um reboot de Mavi, algo totalmente fora de propósito. Chay precisa parar de usar esse “descompromisso” como muleta e partir para construções diferentes, já que essa repetição tem enfraquecido sua performance. Pedro não deveria ser igual Mavi. Não mesmo.
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Trama promissora
Um dos principais autores de novelas da Globo, Walcyr Carrasco sempre dividiu opiniões com suas novelas das nove. Enquanto suas tramas das seis, como O Cravo e a Rosa (2000) e Alma Gêmea (2005) são praticamente unanimidades, às nove o autor sempre parece que ficou devendo, embora tenha emplacado vários sucessos.
Amor à Vida (2013), por exemplo, é lembrada como sucesso por conta do marcante Félix (Mateus Solano), mas quem está acompanhando a reprise da trama no Globoplay Novelas pode conferir que o folhetim foi bastante problemático e irregular. O Outro Lado do Paraíso (2017) pesou a mão em seu início e precisou passar por um chacoalhão para recuperar o rumo. Já A Dona do Pedaço (2019) também teve percalços e situações forçadas, assim como Terra e Paixão (2023).
Quem Ama Cuida, por outro lado, teve uma primeira semana mais coesa e interessante. Arrisco dizer que é a melhor primeira semana de uma novela de Walcyr Carrasco às 21h. A parceria com Claudia Souto parece promissora, já que o habitual didatismo de Carrasco ficou mais diluído em meio a histórias que soam mais bem construídas. Se mantiver tais características, Quem Ama Cuida há de se revelar um bom novelão das 21h.
Porém, a fraca audiência inicial pode fazer com que mudanças sejam feitas. Fica, então, a torcida para que eventuais alterações melhorem a novela, e não o contrário.
André Santana
24/05/2026

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