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ET - Edu e Tata resgata a inventividade perdida do Multishow

Tata Werneck e Eduardo Sterblitch em ET - Edu e Tata
Tata Werneck e Eduardo Sterblitch em ET - Edu e Tata (divulgação)

Quem acompanha a programação da televisão brasileira nos últimos anos compartilha de uma mesma sensação incômoda: o humor parece ter entrado em um hiato criativo. Salvo raras e pontuais exceções, os canais abertos e fechados sucumbiram a fórmulas desgastadas, reprises infindáveis ou formatos que confundem barulho com graça. 

Os humorísticos praticamente desapareceram da grade na TV aberta. O SBT segue como “herói da resistência” ao manter o clássico A Praça É Nossa ativo, e até se permitiu experimentar recentemente com a estreia do Comédia SBT. Já na Globo, não há mais um espaço fixo para o filão há anos. E as poucas experiências neste sentido, como os controversos Tô Nessa e Aberto ao Público, decepcionaram.

A escassez de novas ideias transformou o ato de rir na frente da tela em uma tarefa árdua, deixando o telespectador órfão de uma comédia que realmente dialogue com o contemporâneo de forma inteligente e espontânea.

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Novidade

Diante disso, não é difícil perceber que o humor precisa se reinventar para competir com o dinamismo das redes sociais. A televisão vem perdendo essa batalha de lavada, mostrando-se incapaz de sintonizar com o tempo presente.

É justamente nesse contexto de baixa criativa que a estreia de ET - Edu e Tata, no Multishow, acende uma luz de esperança. Protagonizada por Eduardo Sterblitch e Tata Werneck, a atração surge não apenas como uma novidade na grade, mas como um verdadeiro sopro de renovação na comédia televisiva. 

O programa resgata o prazer do inesperado e prova que o gênero ainda tem muita lenha para queimar, desde que entregue nas mãos de quem realmente entende do ofício. Neste caso, não dá para não exaltar o talento de Tata Werneck e Eduardo Sterblitch, que entregam tudo ao terem um espaço sem amarras para criarem.

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O problema Vai que Cola

Para compreender o impacto positivo de ET, é preciso olhar para o histórico recente do próprio Multishow. O canal, que já foi a principal incubadora de experimentações humorísticas na TV paga, acabou se tornando vítima do seu próprio sucesso. Após o estrondo comercial e de audiência do Vai que Cola, a emissora adotou uma estratégia cômoda e, consequentemente, nociva para a diversidade de sua programação: a replicação exaustiva daquela mesma fórmula.

Essa "vaiquecolização" da grade resultou em uma enxurrada de humorísticos praticamente idênticos. Todos os programas passaram a seguir a mesma cartilha: cenários fixos em formato de sitcom com plateia, piadas mais popularescas, elenco numeroso gritando no palco e tramas que se resolviam em mal-entendidos bobos. 

Embora esse estilo tenha seu valor e seu público garantido, a total falta de variedade pasteurizou o canal, transformando sua faixa de humor em uma esteira de produção industrial sem personalidade. O canal esqueceu que o seu período mais brilhante foi pautado pela pluralidade de formatos e pela ousadia de seus criadores.

Antes de se engessar nesse modelo único, o Multishow ostentava uma grade vibrante e multifacetada. Muita gente deve se lembrar com saudade de atrações que desafiavam o óbvio, como o texto ácido de Adorável Psicose, da ótima Natália Klein, ou o deboche jornalístico do Sensacionalista e a genialidade multifacetada do 220 Volts, comandado por Paulo Gustavo. Eram programas completamente diferentes entre si, que traziam frescor e mostravam que o canal não tinha medo de arriscar em propostas mais autorais e sofisticadas.

Claro que este espírito não desapareceu completamente. E a própria Tata Werneck se tornou expoente de experiências bem-sucedidas no canal pago, vide atrações como Tudo Pela Audiência (com Fabio Porchat), O Estranho Show de Renatinho e, claro, o Lady Night, um dos melhores programas da TV brasileira na atualidade. Mas nada comparado à fase "pré-Vai que Cola".

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Retomada

Felizmente, o Multishow parece ter entendido que era hora de recuperar esse prestígio perdido, e ET - Edu e Tata surge como o marco inicial dessa virada de chave. Ao unir a imprevisibilidade anárquica de Eduardo Sterblitch à rapidez de raciocínio e ao improviso afiado de Tata Werneck, o programa quebra a rigidez dos roteiros engessados que dominavam o canal. A química entre os dois funciona de forma orgânica, baseada no caos controlado e na inteligência cômica.

O grande mérito do novo humorístico reside na sua capacidade de flertar com o absurdo sem perder o timing. Longe das amarras da sitcom tradicional, a atração aposta no dinamismo, em esquetes que subvertem as expectativas do público e em uma liberdade criativa que há muito não se via na televisão. É um humor que respira, que se permite errar para acertar logo em seguida e que, acima de tudo, respeita a inteligência do telespectador.

Com ET, o Multishow sinaliza um retorno digno às suas origens criativas, provando que há vida inteligente e engraçada muito além das fórmulas industriais. O programa não apenas oxigena a grade do canal, mas estabelece um novo padrão de qualidade para o mercado. Que este seja apenas o primeiro passo de uma longa jornada de redescoberta do humor na TV, mostrando que, para fazer rir de verdade, a audácia sempre será o melhor caminho.

André Santana

31/05/2026

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