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| Sophie Charlotte como Gerluce em Três Graças (divulgação) |
Três Graças tem tido uma curva ascendente na audiência desde o início de 2026. E não é por acaso. A trama das nove da Globo ganhou um ritmo intenso de acontecimentos desde a virada do ano, mostrando o desenrolar da venda do filho do bebê de Joelly (Alana Cabral) e do roubo da estátua As Três Graças, liderado por Gerluce (Sophie Charlotte). Semana após semana, o folhetim apresenta novos acontecimentos, sempre com ganchos poderosos.
O ritmo é intenso, mas não acelerado. Na verdade, Três Graças resgata o folhetim em sua melhor forma, valendo-se da experiência do veterano Aguinaldo Silva, um dos principais autores de novela do Brasil. Acompanhado de Zé Dassilva e Virgilio Silva, o veterano tratou de nos lembrar que uma trama não precisa ser acelerada para ser intensa.
Três Graças colhe bons frutos desde o início do ano porque se aproveitou das várias catarses, consequências diretas do que vinha sendo mostrado desde o início da novela. Muita gente reclamou que a novela era demasiadamente lenta em seu início, mas não era bem assim. A trama, na verdade, preparava com cuidado os acontecimentos que viriam a seguir. Deste modo, não teve viradas gratuitas, pois tudo fazia sentido dentro da proposta da história. Por isso a fase atual é tão saborosa.
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Obra aberta
Claro, o fato de os autores de Três Graças terem preparado tudo para as viradas vistas agora, isso não quer dizer que a novela não passou por desvios. Entretanto, os desvios observados fazem parte do que se entende como obra aberta, sem necessariamente afetar a história que se pretendia contar.
Isso fica claro que observarmos a história de amor envolvendo Gerluce e Paulinho (Romulo Estrela). Ao que tudo indica, a trama previa obstáculos maiores para o romance do casal, tanto que foi criado o personagem Gilmar (Amaury Lorenzo). Se Gerluce tinha um segundo pretendente, ela porque os autores, em algum momento, pensavam em separar o casal principal.
O motivo do afastamento, claro, seria o fato de Gerluce ter liderado um roubo justamente investigado por Paulinho. Há uma quebra de confiança, um conflito ético envolvendo a situação. No entanto, nem a descoberta da verdade fez Paulinho desistir de Gerluce, pelo contrário, o investigador entendeu rapidamente a motivação da amada e perdoou as mentiras.
Isso porque a situação está tão bem armada que os autores devem ter percebido que não havia necessidade de separar o casal principal da novela. Com isso, criaram uma situação até rara, já que novelas tendem a ficar desinteressantes quando não há uma reviravolta amorosa. No caso de Três Graças, isso não foi necessário. E Gilmar, consequentemente, ficou um tempo sumido, até reaparecer ao ser transferido para outro núcleo, formando um triângulo amoroso com Misael (Belo) e Consuelo (Viviane Araújo).
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Sem pirotecnia
Outro ponto interessante ao ser observado em Três Graças é o fato de a novela ter uma estrutura muito simples. Há poucos personagens, poucos cenários, externas econômicas. Ou seja, não há uma pirotecnia que já foi observada em novelas das nove no passado, quando tudo era mais grandioso.
Sabe-se que a Globo tem sido mais econômica com suas produções nos últimos anos. E Três Graças traduz bem o atual momento da emissora. Entretanto, é interessante observar que, mesmo com uma estrutura mais enxuta, a novela funciona. Há poucos personagens, mas são personagens fortes, carismáticos, que mexem com o público.
A trama toda é muito bem armada, envolvente. Isso mostra que, com criatividade, dá pra fazer uma novela “menor” e, mesmo assim, interessante, boa de se acompanhar. Basta ter um bom enredo, uma direção criativa e um elenco potente, capaz de grandes performances. Neste quesito, Três Graças tem muitos acertos.
Sophie Charlotte entrega uma de suas melhores performances, enquanto Grazi Massafera mostra maturidade o suficiente para se permitir brincar em cena com sua vilã divertida, Arminda. A novela tem veteranos queridos pelo público, como Murilo Benício, Dira Paes e Arlete Salles, além de ter promovido o retorno de artistas sumidos, caso de Carla Marins e Miguel Falabella. E ótimas revelações, como Alana Cabral e Gabriela Loran.
É bom ver a Globo acertando com uma novela original no horário nobre após tantas derrapadas e remakes em demasia. Foi preciso o retorno de um veterano do quilate de Aguinaldo Silva para provar que, quando a emissora quer, consegue entregar uma produção à altura, mesmo diante de tantas restrições.
André Santana
05/04/2026

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