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| Laurinha (Gloria Menezes), Edu (Tony Ramos) e Maria do Carmo (Regina Duarte) em Rainha da Sucata (divulgação) |
Durante muito tempo, o canal Viva fez a alegria dos noveleiros ao resgatar clássicos da teledramaturgia da Globo que não teriam mais vez no Vale a Pena Ver de Novo. Porém, algo mudou por ali. E não foi só o nome do canal, rebatizado este ano para Globoplay Novelas.
Como parte da celebração de seus 60 anos, a TV Globo ampliou o espaço para repetecos de clássicos, como Tieta (1989), A Viagem (1994), História de Amor (1996) e Terra Nostra (1999). Enquanto isso, o Globoplay Novelas oferece tramas mais “recentes”, como Fina Estampa (2011) e Além do Tempo (2015). Ou seja, houve uma inversão de propostas entre os canais pago e aberto do Grupo Globo.
Trata-se de uma mudança de paradigma. A Globo evitava reprisar novelas muito antigas, em razão da qualidade e do formato da imagem. Entretanto, os bons resultados da maioria dos clássicos reprisados mostra que o público não se importa com uma imagem mais borrada se a trama valer a pena. Neste contexto, Tieta surpreendeu. A trama protagonizada por Betty Faria, mesmo com imagem bastante inferior às atuais, fez muito sucesso nos finais de tarde da emissora.
Os bons resultados de Tieta encorajaram o canal a seguir apostando em clássicos mais “antigos” no Vale a Pena Ver de Novo. Vieram, na sequência, A Viagem e, agora, Rainha da Sucata (1990) ocupa o espaço. Mas, ao contrário das novelas de Aguinaldo Silva e Ivani Ribeiro, a trama assinada por Silvio de Abreu ainda não disse a que veio. O que mostra que clássicos, por melhores que sejam, não são infalíveis.
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Grande sucesso
Exibida entre abril e outubro de 1990, Rainha da Sucata foi a novela das oito da Globo de maior audiência daquela década. A história da rivalidade entre Maria do Carmo (Regina Duarte) e Laurinha Figueiroa (Gloria Menezes) conquistou o público com seu bom humor e personagens marcantes, como dona Armênia (Aracy Balabanian) e Adriana (Claudia Raia), a “bailarina da coxa grossa”.
De fato, é uma ótima novela. Silvio de Abreu fez sua estreia no horário mais nobre da Globo oferecendo uma história que, a princípio, tinha cara de “novela das sete”. Porém, ao perceber que o público estranhou a novidade, o autor tratou de aumentar o melodrama e a novela emplacou, ditando moda e se tornando um grande clássico da teledramaturgia brasileira.
A trama foi reprisada quatro anos depois de sua exibição original no Vale a Pena Ver de Novo. E, mais uma vez, não fez feio e elevou a audiência das tardes da Globo. Em 2013, a novela foi reapresentada no canal Viva, também com ótima repercussão. Por conta deste histórico de sucesso, a novela se tornou forte candidata a um novo repeteco no Vale a Pena Ver de Novo nesta fase em que a Globo resgata seus clássicos. Mas, desta vez, o sucesso não veio. Ao menos, não ainda.
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Baixa audiência
Segundo matéria do site Notícias da TV, Rainha da Sucata perdeu um de cada cinco telespectadores da reprise de A Viagem. De acordo com a publicação, a novela registrou uma média de 14,0 pontos de audiência na Grande São Paulo após o fim da dobradinha com a história de Diná (Christiane Torloni) em sua segunda semana. No último dia 19, a trama chegou a 11,8 pontos, seu recorde negativo.
É preciso considerar que o recorde negativo se deu numa véspera de feriado, dia de share baixo. Ainda assim, é possível notar que Rainha da Sucata não conseguiu segurar o público de A Viagem. Será que a trama de Silvio de Abreu foi rejeitada pelo público e interromperá o período de êxitos da faixa de reprises da Globo?
Ao que parece, por mais que Rainha da Sucata seja um clássico incontestável, sua reprise parece não fazer muito sentido nos dias de hoje. Tieta e A Viagem, mesmo sendo praticamente contemporâneas à história de Maria do Carmo, narram histórias mais atemporais. Já Rainha da Sucata parece fruto de seu tempo, daí a reprise não chamar tanto a atenção.
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Trama datada?
Claro, a base de Rainha da Sucata é folhetim puro. A trama narra a disputa entre a heroína Maria do Carmo e a vilã Laurinha Figueiroa pelo amor do mocinho Edu (Tony Ramos). Porém, a história tem como pano de fundo a ascensão dos “novos ricos” e a decadência da elite paulistana, algo muito em voga no início dos anos 1990. Além disso, o “plano Collor” foi incorporado ao enredo com habilidade e a crise econômica da época ajudou a construir aqueles personagens.
Rainha da Sucata tem outros atrativos, como o humor afiado e tipos bem delineados, como a própria Laurinha Figueiroa, uma vilã marcante vivida por uma Gloria Menezes no auge de seu talento. A víbora é uma peste odiosa, sem dúvida uma das grandes megeras da teledramaturgia nacional.
Mas isso não parece ser suficiente para conquistar o espectador que aceitou bem os repetecos anteriores. Provavelmente porque Tieta é uma novela extremamente popular, cujo humor e ambientação faz com que ela não pareça datada. O mesmo vale para A Viagem, uma trama espírita. A temática continua encantando o espectador e, ao que parece, nunca cansa, dado o êxito de todas as suas reprises anteriores.
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Esperança
Por outro lado, é preciso lembrar que, como dito acima, Rainha da Sucata também demorou a emplacar em 1990. O público não aceitou bem uma típica comédia das 19h na faixa das 20h, o que obrigou Silvio de Abreu a corrigir os rumos da obra. Pode ser então que, mais uma vez, o público tenha rejeitado o início da história.
Assim, é preciso dar mais um tempo para saber se Rainha da Sucata vai virar o jogo no decorrer de sua reprise, do mesmo jeito que aconteceu em 1990. Fato é que se trata realmente de uma boa novela, e que merece ser descoberta pelos “noveleiros da nova geração”.
André Santana
22/11/2025

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