Numa tentativa de reinventar o programa de auditório neste período de pandemia, no qual aglomerações devem ser evitadas, alguns programas da TV brasileira lançaram o conceito de “plateia virtual”. Quem começou com esta história foi o SBT, que tratou de espalhar monitores no lugar na plateia em seus programas de auditório com imagens de pessoas reagindo.

Na prática, a plateia virtual do SBT se revelou uma grande bobagem. Programa do Ratinho, Domingo Legal e Programa da Maisa fazem uso do recurso, e melhor seria se não utilizassem. Isso porque as pessoas que aparecem no telão não estão ali em tempo real. São imagens pré-gravadas de reações variadas de espectadores. Que são colocadas no ar sem nenhum critério. Assim, quando acontece algo engraçado no palco da Maisa, os telões mostram pessoas sérias olhando. Ou então, sem nenhum motivo aparente, alguns deles aplaudem. Ou riem quando não é hora. Ou seja, nem ao menos colocam as reações certas na hora certa. O que acontece no palco não dialoga com a reação da plateia, o que gera uma sensação de descompasso.

Aí veio o Caldeirão do Huck, com um conceito de plateia virtual mais bem definido. No programa de Luciano Huck, o espectador assiste, de sua casa, a gravação do programa em tempo real. Deste modo, consegue reagir ao que é dito pelo apresentador, e até mesmo interagir com ele. Assim, Luciano bate-papo com a plateia, lê cartazes exibidos pelo público e consegue manter a sensação de plateia presente, mesmo estando sozinho no palco. Além disso, a plateia virtual participa ativamente do quadro Quem Quer Ser um Milionário?, já que pode ajudar o participante quando é solicitada. Funciona.

Porém, vale lembrar da primeira experiência (ao menos que eu me lembre) de plateia virtual na TV brasileira. Isso aconteceu bem antes de uma pandemia eliminar a plateia presencial dos programas de auditório, mais precisamente em 2001. O programa Sociedade Anônima, apresentado por Cazé Peçanha no final das noites de domingo da Globo, já ostentava uma plateia virtual.

No programa, Cazé tinha uma plateia presencial. Mas havia também uma plateia virtual, que aparecia no telão do cenário, e também em tótens com monitores espalhados no meio da plateia presencial. Era o mesmo recurso utilizado por Luciano Huck atualmente, mas em condições bem mais precárias, já que banda larga era para poucos, e fibra ótica nem existia. Ou seja, a imagem do cidadão na plateia era bem prejudicada, assim como a interação com o apresentador. 

Isso só reforça algo que já foi dito pelo TELE-VISÃO tempos atrás: Sociedade Anônima era um programa de vanguarda, e que estava à frente do seu tempo. Um programa de auditório anárquico, crítico e absurdamente reflexivo e que, de quebra, se mostrou visionário. Uma pena ter sido um fracasso e durado apenas 9 edições. Merecia mais. 

Veja abaixo um trecho do Sociedade Anônima e relembre essa loucura:



André Santana