"Poxa, que coxa!"

Se tem um setor do SBT que nunca cai na rotina é o jornalismo. Antes de apostar num jornal de seis horas comandado por um menino de 20 anos, ou de castigar âncoras impedindo-os de aparecer às sextas-feiras, a emissora lançou um jornal bem curioso. Em setembro de 2003, o SBT estreou um noticiário que ficou famoso, conhecido até mesmo por quem nunca o assistiu, tamanho o burburinho que causou. Isso porque suas apresentadoras, Cynthia Benini e Analice Nicolau, surgiam lendo as notícias com as pernas à mostra, o que levou o programa a ganhar o apelido de “Jornal das Pernas”. Com o singelo nome de Jornal do SBT – 1ª Edição, a atração era exibida na faixa das 19h30 e marcava o retorno de um telejornal no horário nobre da emissora, algo que não existia desde a extinção do Jornal do SBT/CBS, em 1998.

Muitos devem se lembrar do “Jornal das Pernas” quando o programa se tornou um boletim de notícias na programação, com o nome SBT Notícias Breves, em 2005. Mas a atração estreou dois anos antes, mais precisamente em 1º de setembro de 2003, como Jornal do SBT – 1ª Edição. Na época, a emissora tinha como único jornal o Jornal do SBT, de Hermano Henning, que era exibido no início da madrugada. Silvio Santos, então, resolveu fazer uma nova edição do jornal, em horário nobre e com uma apresentação diferente. Para isso, ele escalou Cynthia Benini e Analice Nicolau, que participaram da segunda edição da Casa dos Artistas, e lançou um novo jornal, na qual as apresentadoras apareciam sempre de saias, atrás de uma bancada transparente, com as pernas à mostra.

O SBT fez mistério sobre o lançamento. Colocou no ar as chamadas do jornal apenas uma semana antes da estreia, e, inicialmente, o novo noticioso era anunciado com o redundante nome Jornal de Notícias. No entanto, ainda antes da estreia, o nome já mudou para Jornal do SBT – 1ª Edição. A atração era realizada sem nenhum investimento, e trazia exatamente as mesmas atrações do jornal de Hermano Henning, apenas com cenários e apresentadores diferentes. Com equipe mínima, as notícias do dia eram dadas em forma de “Frases do Dia”, e o Jornal do SBT exibia quadros enlatados, como Tolerância Zero, sobre a atuação da polícia dos EUA, e Aconteceu no Mundo, com vídeos tipo “isto é incrível”. O jornal também tinha a participação dos comentaristas José Nêumanne Pinto e Denise Campos de Toledo. Semanas depois, Daniela Freitas se juntava ao time com as notícias do esporte.

Na semana seguinte à estreia, o jornal Folha de S. Paulo publicava uma matéria sobre a nova aposta de Silvio Santos. O jornal afirmava que a atração era criticada por muitos em razão do pouco conteúdo noticioso e pelas apresentadoras chamarem mais atenção que as notícias, mas também dizia que o SBT seguia a tendência mundial de fazer uma mistura entre jornalismo e show. No entanto, nem mesmo as pernas das apresentadoras seguraram a atração, que não atraiu anunciantes e nem audiência.

Como não emplacou no horário nobre, o SBT tentou uma inversão com o jornal da madrugada. Assim, Hermano Henning aparecia às 19h30, enquanto Cynthia e Analice davam expediente à 0h. Não funcionou. Então, Hermano voltou para as madrugadas, enquanto Cynthia e Analice passaram para as manhãs, às 6h, e a atração se tornou Jornal do SBT – Manhã em 2004. Ainda este ano, a emissora fez nova tentativa de emplacar o programa num novo horário, na faixa das 17h30, mas o jornal sucumbiu diante da concorrência com Os Cavaleiros do Zodíaco, que a Band exibia no mesmo horário. Acabou retornando para as manhãs.

Em 2005, o jornal continuava matinal, mas ganhou boletins ao longo da programação, de hora em hora, das 16h às 22h. Surgia assim o lembrado SBT Notícias Breves. Entretanto, no mesmo ano, o SBT reformulou sua programação jornalística, contratando o diretor de jornalismo Luiz Gonzaga Mineiro e a apresentadora Ana Paula Padrão. Com uma nova equipe, foi lançado então o SBT Brasil, enquanto o SBT Notícias Breves foi extinto, e as duas edições do Jornal do SBT foram reformuladas. Assim, o Jornal do SBT – Manhã passou a ser apresentado por Joyce Ribeiro.

Com as mudanças, Cynthia Benini e Analice Nicolau migraram para o entretenimento do SBT. Elas apareceram no programa Bailando por um Sonho, de Silvio Santos, e gravaram pilotos de Ver Para Crer, um programa de vídeos incríveis que acabou nas mãos de Celso Portiolli e César Filho. A partir de 2007, porém, o SBT fez nova reformulação no jornalismo, e Cynthia e Analice retornaram, mas sem pernas de fora. Primeiro, foi Cynthia Benini quem voltou, dividindo com Carlos Nascimento o SBT Brasil. Algum tempo depois, Analice Nicolau retornou, dividindo com Hermano Henning o SBT Manhã. Cynthia Benini deixou o canal há alguns anos, enquanto Analice Nicolau seguiu no canal, como uma das apresentadoras do SBT Notícias. Foi dispensada com o fim do jornal, há alguns meses.

E esta foi a trajetória do lendário “Jornal das Pernas” de Cynthia Benini e Analice Nicolau, que durou dois anos, passou por vários horários, teve vários nomes e acabou alimentando algumas lendas urbanas da TV. Por exemplo, há quem acredite, até hoje, que Cynthia e Analice ficavam cruzando as pernas enquanto apresentavam o jornal. Não é verdade. Elas apareciam sentadas com as pernas cruzadas, mas jamais cruzaram as pernas no ar.

Relembre como era o “Jornal das Pernas”:



André Santana