sábado, 11 de maio de 2019

Globo acerta com nova safra de séries nacionais

"Olha lá, eles gostaram da gente!"

As séries nacionais são o principal produto da linha de shows da Globo há muitos anos. E, neste tempo todo, a emissora enfileirou erros e acertos, buscando novas linguagens e novas formas de narrativas. Inicialmente dedicada apenas às comédias, a emissora foi se abrindo para outros gêneros, experimentando drama, policial, noir e até terror. Além disso, abriu espaço para parcerias e coproduções, injetando sangue novo no segmento. Tantas experiências serviram para que a Globo chegasse à grade atual, com a exibição de quatro boas séries que apontam o futuro do gênero na TV aberta.

A principal novidade da atual safra é Cine Holliúdy. Exibida nas noites de terça-feira, logo depois de O Sétimo Guardião, a comédia veio com a ingrata missão de dar seguimento ao sucesso das suas antecessoras. Substituta natural de Mister Brau e Tapas & Beijos, últimas comédias do horário, a nova série é baseada no filme de mesmo nome. E o que se viu na estreia é que Cine Holliúdy foi uma grata surpresa.

A série é centrada no mesmo Francisgleydisson (Edmilson Filho) do filme, mas dá um salto para trás no tempo. Aqui, ele está na década de 1970 e toca seu Cine Holliúdy na pequena Pitombas. O cinema é a única opção de entretenimento da cidade. Mas está ameaçado com a chegada da televisão, novidade orquestrada pelo prefeito Olegário (Matheus Nachtergaele). Para driblar a concorrência “desleal” com as novelas, Francisgleydisson resolve, em vez de exibir filmes estrangeiros, passar a produzir seus próprios longas. Para a empreitada, ele conta com a ajuda de Marylin (Letícia Colin), enteada do prefeito.

A trama é simples e não traz nada de novo ao universo das séries da Globo. No entanto, Cine Holliúdy tem o mérito de retratar um Nordeste pouco visto em rede nacional. O tom é de comédia, mas traz impresso um toque de melancolia. E o “cearensês”, bem carregado, dá um charme à história. Além disso, a temática é de um saudosismo irresistível. Ao confrontar televisão e cinema numa trama de época, a série explora a boa e velha discussão sobre qual tempo é o melhor: o de ontem ou o de hoje. A receita, ao que tudo indica agradou, já que a estreia foi muito bem na audiência.

Logo após Cine Holliúdy, a Globo exibe a segunda temporada de Carcereiros. Na nova fase, a série perdeu o fator novidade. Porém, ela consegue se sustentar na figura de seu protagonista, um sujeito rico em possibilidades. Adriano (Rodrigo Lombardi) segue como uma das peças daquele presídio, recebendo toda a carga negativa do ambiente e levando-a nas costas. Mesmo assim, ele consegue ser compreensivo e ponderado quando necessário. Em suma, é um tipo comum, o que é sempre um desafio para um ator. E Rodrigo Lombardi comprou bem esta proposta, fazendo aqui o seu melhor trabalho na TV. A nova temporada explora o relacionamento entre Adriano e uma presidiária, Érika (Letícia Sabatella), e como isso influi diretamente em sua relação com o trabalho e com sua família.

Enquanto isso, às quintas-feiras, a Globo exibe a terceira (e, segundo a emissora, última) temporada de Sob Pressão. Melhor série lançada pelo canal nos últimos anos, o drama hospitalar que explora as mazelas da saúde pública brasileira mostra um vigor impressionante na nova fase. Depois de denunciar as consequências da falta de recursos de um hospital público e como a corrupção prejudica ainda mais o sistema, Sob Pressão agora enfoca o problema das milícias, mostrando sintonia com a contemporaneidade. Além disso, Evandro (Julio Andrade) e Carolina (Marjorie Estiano) são grandes personagens, que dão riqueza às histórias de Sob Pressão. Em meio ao caos de suas profissões, os dois vivem uma relação cheia de obstáculos. O casal luta contra a depressão, os fantasmas passados e a correria de seus cotidianos atribulados. Em suma, são tipos realistas, que driblam o idealismo de seus papéis enquanto profissionais de saúde. E a nova temporada mostra que Sob Pressão deveria continuar, pois assunto é o que não falta.

A novidade da grade 2019 da Globo é volta das séries nacionais às noites de sexta-feira, depois do Globo Repórter. Há anos, a faixa vinha sendo ocupada por séries estrangeiras. Agora, o cartaz é Assédio, série produzida originalmente para o GloboPlay. Inspirada no livro A Clínica – A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih, a série escrita por Maria Camargo e dirigida por Amora Mautner, é um esmero em todos os sentidos. A produção conta a história de Roger Sadala (Antonio Calloni), um famoso e respeitado especialista em reprodução humana que abusa sexualmente de várias de suas pacientes. Assédio faz um painel da jornada deste personagem, do apogeu à queda. Paralelamente, mostra o trabalho da jornalista investigativa Mira (Elisa Volpato). Ela contata um grupo de mulheres abusadas pelo médico e passa a investigar os casos.

A temática de Assédio é bastante oportuna em tempos em que a discussão sobre a cultura do estupro está na ordem do dia. E a minissérie acerta ao trazer o ponto de vista feminino. Ela mostra, com muita competência, as devastadoras consequências de um abuso sexual na vida de uma mulher. A abordagem ganha credibilidade, tendo em vista que é inspirada num caso real. Além disso, esclarece e faz refletir, sem ser nem um pouco didática. Ao contrário. O texto é perturbador e envolvente. Assim, Assédio completa a cartela de boas séries que a Globo escalou para sua programação 2019. Um acerto.

André Santana

6 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Eu comentarei série por série nos próximos "posts" do meu blog. Eu assisti ao filme Cine Holliúdy. Muito bom. Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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  2. Oi Andre. Voce tem razao, nesse trimestre a Globo acertou em cheio sua safra de series. Mas tudo o que voce falou de Sobre Pressao, o mesmo merece tambem para Carcereiros. Ambos tratam de temas importantes e merecem ter mais temporadas, e essa segunda temporada de Carcereiros esta melhor, tem um olhar mais feminino e com ganchos folhetinescos rs. Talvez nao tenha assistido, se nao viu se puder veja o episodio que tem a Monica Iozzi, ela ta bem num papel romantico e que nao eh de humor.
    Sobre Cine Holliudy a primeira impressao que me deu foi um ar meio Guel Arraes com Ariano Suassuna, apesar da historia ser no Ceara e peco desculpas aos cearenses caso nao tenham gostado da comparacao. E sim,como voce falou no OT, tambem remete a O Bem Amado , enfim varias referencias. E achei magnifico que a audiencia tenha abracado a serie.
    Ja Assedio, que inicialmente so seria exibido na globoplay, a Globo merece os parabens pela exibicao na tv aberta e que bom , uma serie nacional nas sextas, com todo respeito aos seriados americanos. Mas a faixa das madrugadas depois do Bial pra mim eh um bom horario para exibirem as series americanas.
    Caso Sobre Pressao e Carcereiros realmente saiam ano que vem, pelo menos ja temos uma serie com pelo menos tres temporadas garatindas, Ilha de Ferro, segundo dizem um dos maiores sucessos de audiencia da globoplay e a outra serie a se candidatar na outra vaga aberta sera Aruanas ja com uma segunda temporada garantida na globoplay. E a vaga das sextas feiras, depois de Assedio eu chuto que sera da segunda temporada de Os Experientes. Mas tanto Ilha de Ferro como Aruanas estao programadas para o ultimo trimestre. Provavelmente em julho ou agosto as vagas de Cine Holliudy, Sobre Pressao e Carcereiros sera ocupada pelo The Voice Brasil, que a partir do ano passado comecou a ser exibido nas tercas e quintas.

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    1. Daniel, acho que o The Voice será exibido no final de julho e ficará no ar até setembro. Em outubro, portanto, virão novidades. Ilha de Ferro parece que já está confirmada, mas as outras séries ainda são dúvida. Creio que Shippados, pela popularidade da Tatá Werneck, deve ganhar espaço na TV aberta, depois da estreia no GloboPlay. Resta saber se a emissora voltará a apostar em auditórios. Amor & Sexo está suspenso este ano, e Os Melhores Anos de Nossas Vidas também não aparece nos planos. Virão novos formatos? Tô aqui na torcida pra que o projeto de Angélica substitua o Amor & Sexo nas noites de terça, mas creio ser pouco provável. Vamos ver.

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  3. André, aproveitando o tema, o que achou de "Se eu fechar os olhos agora"?
    Vi muito pouca crítica sobre essa minissérie. Particularmente, achei ela muito corrida. Poderia ter tido o dobro de capitulos para desenvolver melhor história e personagens. No geral, achei tudo meio vago e sem emoção.

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    1. Oi Rodrigo! Eu gostei da minissérie. Não foi um arroubo, mas teve suas qualidades. Eu ia fazer uma análise aqui, mas não o fiz por um único motivo: esqueci... rs! Quando lembrei, já tinha perdido o "time". Desculpe nossa falha, rsrs! Mas achei que ela se desenvolveu bem em dez capítulos mesmo. Não a considerei corrida. Concordo que faltou um pouco de emoção, mas a trama em si foi interessante.

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