sábado, 1 de setembro de 2018

Com "Segundo Sol", João Emanuel Carneiro muda a regra do jogo

"Essa novela é nossa, meu rei!"

Ao estrear no horário nobre da Globo, João Emanuel Carneiro acumulou tramas nas quais imprimiu uma identidade muito própria. Adepto do folhetim tradicional, com muitas reviravoltas e ganchos poderosos, o autor também incluiu em suas tramas elementos que subvertiam o tradicional em alguns momentos, sobretudo na aposta em personagens dúbios que, em algum momento, mudam de rota e surpreendem. Por conta disso, atraiu uma legião de fãs fiéis, que esperam sempre surpresas oriundas da imaginação fértil do jovem autor.

Isso começou em A Favorita, quando João Emanuel Carneiro esperou 60 capítulos para contar ao público quem era a mocinha e quem era a vilã da história. O autor jogou com seu público, apresentando Flora (Patrícia Pillar) como uma mãe em busca de justiça, e Donatela (Claudia Raia) como uma rica esnobe e deslumbrada. Mais adiante, revelou a verdade: Flora estava fingindo e Donatela era uma grande vítima de toda a situação. A partir daí, A Favorita virou um novelão tradicional, mas este jogo com a audiência na primeira fase da obra não deixa de ser uma ousadia.

A Favorita abriu caminho para Avenida Brasil, principal sucesso do autor. Desta vez, João Emanuel Carneiro deixou bem claro quem era a mocinha e quem era a vilã. Mas apostou em nova subversão, ao inverter características mais comuns ao folhetim tradicional. Normalmente, uma mocinha é enganada pela vilã até o fim da obra, quando decide tomar uma atitude. Em Avenida Brasil, era a mocinha Nina (Débora Falabella) quem tinha o controle da situação. Até a metade da obra, era ela quem enganava a vilã Carminha (Adriana Esteves), conquistando sua confiança para armar o bote mais adiante.

Aí veio A Regra do Jogo, quando Carneiro optou por dar um passo além. Ao invés de apostar numa rivalidade entre duas mulheres, o autor trouxe a trama de um homem, Romero Rômulo (Alexandre Nero), numa saga no qual ele pendia para o bem e o mal ao longo de toda a trajetória. Bandido, Romero mantinha uma imagem pública ilibada e, num determinado momento, acaba se apaixonando pelo mito que criou para si e tenta torná-lo real. Entretanto, sua incursão no mundo do crime o coloca sempre em xeque, e Romero não consegue se livrar da vida bandida. Como se vê, uma trama mais complexa, o que fez de A Regra do Jogo a novela menos querida do portfólio do autor.

Talvez por conta do relativo fracasso de A Regra do Jogo, João Emanuel Carneiro resolveu partir para uma nova estratégia na atual Segundo Sol. O autor apostou numa história de amor clássica, ao narrar a saga de Luzia (Giovanna Antonelli), a mocinha que teve a família destruída pela dupla de vilãs Karola (Deborah Secco) e Laureta (Adriana Esteves) ao se apaixonar por Beto Falcão (Emílio Dantas), um cantor que fingiu a própria morte e se viu tornar um ídolo falecido. No entanto, Carneiro não deixou algumas das características de sua obra de fora do novo enredo, mas as deslocou para suas tramas paralelas. Assim, pela primeira vez em sua passagem pela faixa das nove, Carneiro construiu uma novela cujas tramas paralelas são mais interessantes que a principal.

Dois personagens de Segundo Sol carregam a dubiedade que tanto atrai Carneiro. Uma delas é Rosa (Letícia Colin), considerada a “protagonista moral” de Segundo Sol, e que enfrentou as vilãs e se colocou no centro de praticamente todos os acontecimentos. E, embora apresentada como uma prostituta que lutava para se livrar das dificuldades causadas por uma família opressora, Rosa acabou se deslumbrando com o poder que a vida ao lado de Laureta proporciona. Agora, aconselhada pela vilã-mor, ela dá o golpe da barriga no desavisado Valentim (Danilo Mesquita).

O outro é Roberval (Fabrício Boliveira), protagonista de uma história bastante interessante. Roberval e Edgar (Caco Ciocler) são filhos do poderoso Severo Athayde (Odilon Wagner) com sua empregada, Zefa (Claudia Di Moura). Mas Severo escolheu o filho branco para ser criado como legítimo, enquanto o filho negro foi criado na casa unicamente como o filho da empregada que se torna motorista. Ao descobrir a verdade, Roberval se revolta, tomando atitudes um tanto controversas contra os Athayde. Nesta saga, ele oscila: às vezes parece se compadecer, mas logo é tomado pelo ódio. Trata-se do entrecho mais original e cheio de nuances de Segundo Sol.

Enquanto isso, Luzia e Beto tornaram-se coadjuvantes de luxo. Passaram vários capítulos sem qualquer sequência importante, Voltaram ao centro do enredo apenas esta semana, quando Luzia foi inocentada da acusação de ter matado o ex-marido, ao mesmo tempo em que Beto finalmente revela a todos que está vivo.

Ou seja, na prática, João Emanuel Carneiro construiu uma narrativa no qual colocou o casal principal como um romance açucarado para agradar o espectador do folhetim tradicional. Eles são o par romântico central, mas não necessariamente movem a história. O eixo motor da trama foi deslocado para núcleos paralelos. Todos muito bem amarrados, o que mostra outra novidade do estilo do autor, anteriormente adepto de tramas desconectadas do eixo principal. A estratégia em si não é uma novidade. Gilberto Braga fez isso em Insensato Coração e Babilônia, tramas cujo casal romântico central em nada acrescentava ao enredo. Silvio de Abreu também fez isso em Passione, e até Aguinaldo Silva usou da estrutura em Império.

A Favorita, Avenida Brasil e A Regra do Jogo tinham tramas centrais fortes e interessantes, e núcleos paralelos desinteressantes e desnecessários. Já em Segundo Sol, acontece o inverso. Provavelmente, Carneiro mudou sua estrutura anterior para tentar fazer uma história a prova de erros, capaz de agregar públicos distintos. Com isso, não criou uma nova Avenida Brasil, mas também conseguiu escapar de assinar uma nova A Regra do Jogo.

André Santana

4 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Segundo Sol está bem longe de ser uma das minhas novelas preferidas..... Nesta semana, a trama cresceu, mas há sérios problemas que comentarei no meu blog em breve. Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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    1. Oi Fabio! Também não é minha preferida, não, mas, no geral, gosto da novela. Mas concordo contigo, ela tem alguns problemas estruturais. Parece que entrou no ar sem estar totalmente madura para isso. Abraço!

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  2. Oi Andre. Lembro que sua ultima novela das nove foi AvBr. Voce poderia fazer o seu ranking das novelas do JEC? A minha eh assim: 1 A Favorita. 2 A Regra do Jogo 3 A Cor do Pecado 4 Cobras e Lagartos 5 AvBr 6 Segundo Sol.
    Mas nao eh porque Segundo Sol esta em ultimo que isso significa que ela seja ruim, pelo contrario, eh boa. Nao existe novela ruim do JEC, por enquanto. Apenas mais fraca. E como voce mesmo disse, as tramas paralelas sao mais interessantes que a do casal Beto Luzia. Eu gosto mais a historia dos Athayde, que eh o JEC de Regra do Jogo.

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    1. Oi Daniel! Do Carneiro, minha preferida é A Favorita. Depois vem Avenida Brasil, Da Cor do Pecado, A Regra do Jogo, Segundo Sol e Cobras & Lagartos. Abraço!

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