sábado, 28 de julho de 2018

"Deus Salve o Rei" dribla crise e termina em alta

"A gente não é engraçado?"

Deus Salve o Rei pode ser considerado como um dos poucos casos de novela que passou por uma intervenção da direção da Globo e conseguiu, de fato, sair de uma crise. Com dificuldades para estabilizar a audiência, a novela medieval do estreante Daniel Adjafre recebeu o auxílio do supervisor de texto Ricardo Linhares e melhorou consideravelmente. Deus Salve o Rei encontrou uma história, lapidou personagens e cresceu em suas semanas finais, tornando-se uma novela bem interessante.

Deus Salve o Rei teve um primeiro capítulo apoteótico. Boas cenas de batalha e suntuosos efeitos especiais chamaram a atenção. No entanto, as belas imagens não conseguiram mascarar por muito tempo a falta de uma boa história. Isso porque um erro na concepção dos protagonistas quase pôs tudo a perder. Afonso (Rômulo Estrela) abriu mão do trono do reino de Montemor, após a morte da rainha Crisélia (Rosamaria Murtinho) em nome do amor a uma plebeia, Amália (Marina Ruy Barbosa). Ela, por sua vez, o encorajou a abrir mão de sua responsabilidade junto a sua família. E o resultado desta paixão foi que Montemor ficou entregue ao irresponsável Rodolfo (Johnny Massaro), irmão de Afonso, que conseguiu arruinar o reino com suas ideias estapafúrdias. Ora, como torcer por um casal que ignorou o sofrimento de todo um povo?

Além disso, Deus Salve o Rei teve um erro grave de direção na condução da vilã Catarina (Bruna Marquezine). O diretor Fabrício Mamberti e a atriz confundiram frieza com apatia, e Catarina tornou-se uma vilã tediosa e cansativa. Com a mesma expressão facial e mesmo tom de voz em todas as situações, Catarina aborreceu e Bruna sofreu muitas e merecidas críticas. E, não bastasse tudo isso, Deus Salve o Rei tinha tramas paralelas desinteressantes e parecia perder o tempo de seus capítulos mostrando personagens inexpressivos em situações que não iam a lugar nenhum.

Vale lembrar que Deus Salve o Rei, mesmo com todos estes problemas no texto, nunca foi um grande fracasso de audiência, como parecia pelas notícias que costumavam sair sobre a trama. A novela não conseguiu segurar os bons índices de audiência de Pega Pega, considerada um sucesso, mas se manteve na média de audiência do horário nos últimos anos, com números próximos a Rock Story (que não foi considerada um fracasso, como de fato não foi). O problema que a direção da Globo constatou em Deus Salve o Rei foi o fato de a novela oscilar muito nos números, demonstrando dificuldades em consolidar um público. A intervenção, portanto, foi para tentar corrigir este erro. Daí veio a escalação de Ricardo Linhares como supervisor de texto, que propôs mudanças que fizeram a novela melhorar consideravelmente.

Com a chegada de Linhares, personagens sem função foram limados, e outros ganharam novos rumos. Além disso, a trama ganhou outros personagens, que chacoalharam a história e a colocaram num trilho mais bem definido. Atores experientes entraram em cena para que a novela, repleta de novos atores, ganhasse rostos mais conhecidos. Nesta fase, surgiu o Rei Otávio (Alexandre Borges), rei da Lastrilha, e a trama passou a explorar mais a relação entre todos os reinos da Cália. Um jogo de poder entrou em cena como um poderoso fio condutor. As relações entre Otávio e Catarina fizeram a novela ganhar em conflitos, e a decisão de Afonso de sair das sombras para finalmente brigar pelo trono deu a história que Deus Salve o Rei tanto precisava.

Além disso, a “nova fase” valorizou personagens que já existiam, mas que eram explorados pontualmente. A bruxa Brice (Bia Arantes), por exemplo, ganhou uma história própria, e cresceu na trama quando passou a buscar pela sua filha perdida. E a revelação de que sua filha era justamente Catarina fez com que Deus Salve o Rei ganhasse novas cores e possibilidades. Fora Brice, a novela mostrou outras bruxas, como Agnes (Mel Maia) e Selena (Marina Moschen), além de aprofundar na temática das caças às bruxas da Idade Média. A chegada do inquisidor Bartolomeu (Stenio Garcia), que acusou Amália de bruxaria, acrescentou não apenas mais conflitos ao enredo, mas também deu a Deus Salve o Rei uma possibilidade de dialogar com a contemporaneidade. Isso porque, neste contexto de caça às bruxas, foi permitido falar sobre preconceito e intolerância. Assim, Deus Salve o Rei corrigiu mais um problema: a trama era completamente distante da nossa realidade, mas conseguiu encontrar ecos com os assuntos da vez.

Por fim, a “intervenção” acrescentou mais humor a Deus Salve o Rei. As mudanças de rota tiveram o cuidado de não trair a proposta mais séria da trama, mas permitiu com que as tramas paralelas de humor ganhassem um tom a mais. Neste contexto, a parceria entre Rodolfo e a princesa Lucrécia (Tatá Werneck) foi valorizada, ganhando um texto mais espirituoso e que brincava com todo o universo da trama, com elementos de metalinguagem, farsa, pastelão e besteirol, tudo muito bem dosado. “Quando receber a mensagem, por favor me responda. Odeio quem visualiza e não responde”, diz Lucrécia a Rodolfo quando pede que ele mande bilhetes por meio de um pombo-correio.

O resultado apareceu, e Deus Salve o Rei viu sua audiência crescer na reta final. E, faltando dois capítulos para seu desfecho, já é possível afirmar que a Globo foi profundamente feliz nas mudanças implantadas durante a novela. Deus Salve o Rei, que parecia rumar para a prateleira das tramas esquecidas da Globo, sairá de cena de maneira digna. No fim, foi mais uma boa experiência do canal.

André Santana

6 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Deus Salve o Rei serviu para mostrar as limitações da Bruna Marquezine. Isso já tinha sido observado, principalmente, na novela Em Família.....DSR poderia ter sido um desastre, mas não foi. Mesmo assim, é válido salientar que está muito longe de ser ótima e inesquecível. Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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    1. Oi Fabio, tudo bem? Não disse que foi ótima, mas reconheço que melhorou muito com as mudanças implantadas. E, vamos combinar, isso é bem raro. Eu acho que a Bruna até melhorou no decorrer da trama, mas concordo contigo que ela nunca foi uma atriz maravilhosa. É, no máximo, correta. Abraço!

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  2. Oi André. Eu por aqui de novo rs.
    Confesso que esperava mais de DSOR e acho que a novela será esquecida.

    Não gostei nem da mocinha (enfadonha, bobinha demais), nem da vilã robótica da Robôquezine. O mesmo vale pra Afonso (Rômulo, ótimo, mas como você bem falou, não deu pra torcer pela inconstância dele enquanto rei). Do núcleo o melhor personagem foi Rodolfo, aliás, Massaro deitou e rolou num personagem cheio de nuances (pra mim, o grande destaque do elenco).

    Acho que a novela deu um banho no uso de efeitos, cenários, figurinos e acessórios todos muito bem cuidados. A abertura também, uma das mais lindas dos últimos tempos, mas creio que faltou mais história à obra. Não dá pra ter uma boa novela, se não temos bom roteiro. Concordo contigo que as mudanças deixaram-na mais agradável. Eu sempre ri muito da Lucrécia e do Rodolfo. E o plot da inquisição foi o melhor. Creio até que se tivesse isso desde o início seria outra novela. Também gostei do lance da peste, que aliás levou embora muitos do elenco.

    Falando em elenco quiseram apostar nas queridinhas da internet e deu no que deu. Faltou mais veteranos (aliás, os que tinham ou morriam ou eram participações. Vale citar a saída de Rosamaria Murtinho - maravilhosa e do Nanini - que depois voltou pra ficar perambulando por aí. Acho um desperdício).

    Amei a Selena da Moschen e a participação do Alexandre Borges e do Ricardo Pereira e Bia Arantes - lindíssima (pra mim foram os melhores vilões). Também vale citar o Constantino (José Fidalgo- QUE HOMEM).

    Teu texto é excelente e meu comentário ficou enorme HAHAHA.

    SUCESSO!

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  3. ps: lembrei da lucréciajéssica: "levanta a cabeça princesa, se não a coroa cai" hahahaha.

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