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Só agora? A Nobreza do Amor erra ao adiar embate entre mocinha e vilão

Lázaro Ramos como Jendal em A Nobreza do Amor
Lázaro Ramos como Jendal em A Nobreza do Amor (reprodução)

A reta final de uma novela das seis costuma ser o momento em que os conflitos acumulados ao longo dos meses finalmente explodem, entregando o clímax prometido desde o primeiro capítulo. Em A Nobreza do Amor, no entanto, o sentimento que fica não é apenas o de expectativa, mas também o de um incômodo da sensação de oportunidade perdida.

As chamadas que anunciam a chegada do vilão Jendal (Lázaro Ramos) ao solo brasileiro para esta semana trazem um sopro indiscutível de energia para a narrativa. Contudo, ao constatar que a grande ameaça ao destino da princesa Alika (Duda Santos) só pisa no Brasil quando a produção já se encaminha para o seu encerramento, fica difícil não questionar as escolhas de ritmo adotadas pelos autores Duca Rachid, Julio Fischer e Elísio Lopes Jr.

A premissa fundamental da trama sempre foi o seu maior chamariz e o seu grande diferencial estético. A fusão entre a suntuosidade de um reino africano fictício e o cotidiano de uma fictícia cidadezinha no interior do Nordeste trazia um frescor interessante para o horário das 18h, misturando ancestralidade, realeza e brasilidade de forma encantadora.

O problema é que, na prática, essa promessa de integração demorou tanto para se concretizar de forma plena que a novela acabou parecendo dividida por uma barreira invisível. Durante meses, o público assistiu a praticamente dois folhetins distintos sendo exibidos dentro da mesma novela, sem que houvesse uma ponte dramática verdadeiramente sólida entre eles.

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Duas novelas

De um lado, o universo de Batanga ofereceu uma estética rica, dilemas políticos instigantes e a performance magnética de um vilão ditador tomando atitudes cruéis e reprimindo toda uma nação. Do outro, a rotina de Barro Preto sustentou a leveza folhetinesca, o colorido do cotidiano nordestino e os romances típicos que garantiram a simpatia de parte da audiência, inclusive da princesa Alika, ali vivendo sob a falsa identidade de Lúcia, tendo embates com a vilã Virgínia (Theresa Fonseca) e vivendo seu amor por Tonho (Ronald Soto).

Entretanto, o grande motor da história principal, que seria o embate direto entre a nobreza exilada e o tirano Jendal, permaneceu em banho-maria por tempo excessivo. A distância geográfica entre os personagens acabou gerando uma estagnação conflituosa, em que ameaças eram feitas à distância e planos eram traçados em um vácuo de ação direta.

Na prática, eram duas novelas em uma. A distância entre Alika e Jendal por tantos capítulos criou a sensação de que nada de fato estava acontecendo na novela. Assim, A Nobreza do Amor ficou parecendo uma antítese de Amor Perfeito, novela anterior do trio de autores. Em 2023, a trama sobre Marê (Camila Queiroz) foi criticada por ser excessivamente acelerada, sem dar tempo de o público se envolver de fato com os personagens, em constante movimento. Já em A Nobreza do Amor parece que aconteceu o contrário.

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Possíveis soluções

É inegável que a literatura e a teledramaturgia vivem de criar expectativas, mas o arrasto prolongado de uma premissa cobra o seu preço no engajamento. Ao confinar o vilão em seu domínio africano enquanto a protagonista reorganizava sua vida no Nordeste do Brasil, os autores abdicaram da faísca diária que surge do confronto olho no olho entre o bem e o mal.

Existiam inúmeras alternativas criativas para encurtar essa distância sem comprometer a escala da história. Jendal poderia ter enviado emissários mais perigosos a Barro Preto logo no primeiro terço da novela, ou a busca por Alika poderia ter gerado um jogo de esconde-esconde muito mais dinâmico e integrado ao cotidiano da cidade acolhedora.

A decisão de postergar esse encontro para a reta final faz com que a chegada de Jendal soe mais como um recurso emergencial de encerramento do que como a culminância natural de um nó dramático amarrado com paciência. Na prática, parece que a novela está começando agora, faltando poucas semanas para seu desfecho.

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Méritos

Isso não apaga os méritos inegáveis da produção, que acertou em cheio na cenografia, na caracterização e na escalação de um elenco plural que entregou ótimas atuações. A riqueza da proposta cultural de A Nobreza do Amor é um feito que merece ser exaltado em uma televisão frequentemente acusada de falta de originalidade.

Porém, considerando a arquitetura do roteiro, a divisão entre Batanga e Barro Preto serviu como um freio de mão puxado para a evolução da trama. O que tinha potencial para ser um choque cultural e dramático contínuo acabou reduzido a um grande evento reservado apenas para as semanas derradeiras.

Resta saber se a sequência de capítulos que se abre com o desembarque de Jendal terá fôlego suficiente para compensar os meses de distanciamento. A promessa é de um final eletrizante, mas fica a lição de que boas ideias precisam se cruzar na tela bem antes de o letreiro de "Fim" se aproximar.

André Santana

27/09/2026

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