quinta-feira, 30 de julho de 2020

Tentando ser "plural", CNN Brasil acaba sendo irresponsável

Na minha primeira análise sobre a CNN Brasil, apontei como qualidade o fato de a emissora buscar a isenção, abrindo espaços tanto para os críticos ao governo, quanto ao próprio governo e seus simpatizantes. Mesmo ressaltando que o quadro O Grande Debate é um desserviço, já que nivela debatedores desnivelados e reforça a polarização de maneira prejudicial, ainda pensava que a emissora tinha mais acertos que erros neste sentido.

Porém, fui alertado pelos comentaristas do blog (que sempre proporcionam debates inteligentes e saudáveis por aqui, obrigado!) de que esta pretensa pluralidade levava a distorções. Concordei, mas ainda confiei na boa vontade do canal de notícias. Só que fui obrigado a mudar de ideia e fazer coro aos meus comentaristas: esta pluralidade alardeada pelo canal, infelizmente, não existe na prática.

Isso ficou bem claro nesta semana, quando a emissora lançou o quadro Liberdade de Expressão. Nele, os jornalistas Sidney Rezende e Alexandre Garcia, separadamente, apresentam análises e pontos de vistas sobre vários assuntos. E eis que Garcia, um declarado pró-governo, tascou uma “pérola” logo em sua estreia, ao afirmar que o uso da cloroquina no tratamento à covid-19 do presidente era uma prova clara da eficácia do medicamento. Esta fala, obviamente, repercutiu bastante, por conta do absurdo da situação.

Não há problema em ser pró-governo. O problema é quando transformam desinformação em “opinião”. Ciência não é opinião. Ciência é ciência. Há trocentos estudos científicos falando da ineficácia da cloroquina no combate à covid-19. E não se pode refutar tais estudos com opiniões. Estudos são feitos com métodos. Opiniões, não. Não é preciso ser um cientista para entender que um efeito numa pessoa não é um método de estudo científico. Uma pessoa não é uma amostragem. Uma pessoa é uma pessoa. Que tomou cloroquina, mas também tomou água, refrigerante e comeu um chocolate. Então, se seguirmos a lógica do Alexandre Garcia, o presidente é a prova viva de que chocolate cura covid.

A repercussão foi tão negativa que, no dia seguinte, a CNN mudou o nome do quadro para Liberdade de Opinião. E apenas reforçou o óbvio: opinião NÃO É ciência. Opinião é alguém gostar de amarelo, enquanto outro alguém gostar de verde. Eficácia de medicamento não deve ser analisada com opinião, e sim com experimentos científicos. Se a grande maioria dos cientistas fala da ineficácia do medicamento, quem é Alexandre Garcia para discordar deles?

A situação é ainda mais triste quando vemos a notícia de que, na CNN americana, uma âncora interrompeu um defensor da cloroquina. Foi Brianna Keilar, que entrevistava Tim Murtaugh, assessor do presidente dos EUA. Assim que ele começou a defender o medicamento, Keilar o cortou, e afirmou: “você está prestando um desserviço real aos americanos”. A âncora citou estudos, Murtaugh quis rebater, e ela foi firme: “nossa conversa acabou. Acho que você está realmente confundindo a situação, o que não ajuda a saúde de ninguém. Obrigada”. Em seguida, a jornalista chamou um médico para falar sobre isso.

Ou seja, a CNN americana está tratando o assunto com a seriedade que ele merece. Já a CNN brasileira dá espaço para disseminação de informações desencontradas, alegando estar ouvindo “todos os lados”. Neste caso, só há dois lados: o lado da mentira e o lado da verdade. Se a CNN Brasil dá à mentira o mesmo peso que dá à verdade, então isso não é jornalismo. Que pena!

André Santana

12 comentários:

  1. Entendo totalmente seu ponto de vista. Você quis esperar pra ver se o canal poderia ser uma boa opção de notícia de forma um pouco mais imparcial (até porque 100% imparcial ninguém é). Mas infelizmente o viés pró-governo dos principais acionistas brasileiros se tornou uma linha editorial do canal.

    E quando falo pró-governo, entendo que seriam pró-qualquer governo. Basta lembrar que a Record, hoje tão a favor do atual mandatário, era favorável ao governo anterior, tanto que o Boris Casoy saiu de lá acusando essa parcialidade. Só abandonou quando o barco afundou no impeachment. Ou seja, o jornalismo no Brasil, de modo geral, é governista. (E nem quero citar os políticos, pois não quero descambar para uma discussão desse viés por aqui).

    O que espanta é o espaço para propagadores de mentiras e notícias falsas, coisa que a CNN vem fazendo. Deixo uma pergunta: o quanto você enxerga da influência do ex-diretor da Record (Tavolaro) no jeito CNN de ser? Até a imagem do canal lembra a Record, as vinhetas simples...Pra mim, pelo menos, lembra DEMAIS...

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    1. Faltou eu lembrar que o primeiro nome do quadro era uma cópia de um quadro que já existiu no Jornal da Rádio CBN, ou seja, podem ter mudado por isso também, além de pensarem em reforçar que as loucuras que alguns dizem ali são "apenas" opiniões; o duro é que muitas delas ecoam e causam estragos por aí.

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    2. Oi Alexandre! Sim, acho que a CNN tem um pouco de Record mesmo... mas penso que isso pode ser inspiração da "matriz", cujos grafismos não são lá essas coisas também, você não acha? Obrigado pela participação!

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    3. Em resumo: Penso que tem dedo da Record na CNN, rs...Não posso provar claro, mas me passa essa impressão o tempo todo.

      E também me passa a mesma impressão do Mister Ed; os âncoras parecem ser mais progressistas em sua maioria, mas têm de seguir a cartilha do canal (pelo menos a cartilha atual, vai que muda daqui a alguns anos...)

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  2. Fala André, a CNN muda muito a programação e os âncoras nas atrações, SS tá por trás disso, kkkkkk

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  3. Muitos meios de comunicação estão dando palco à desinformação. Isso é muito triste.
    Lucas - www.cascudeando.com

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  4. Ei, André! Tenho reparado que há uma divisão de pontos de vistas dentro da CNN. De um lado, a maioria dos âncoras demonstram uma postura crítica ao atual governo. Do outro, muitos comentaristas se mostram a favor. Claro que é apenas uma coincidência, mas não pude deixar de notar.

    Sobre o grafismo, acho que a TV norte-americana sofre desse mal de um modo geral. Repare nas aberturas dos programas, a maioria é simples.

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    1. Mister Ed, de maneira geral, a pluralidade é positiva. Não acho ruim ter comentaristas alinhados ao governo. O que eu acho ruim é desinformação ser disseminada como se fosse opinião. Não é.

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  5. Essa cnn tão crítica na entrevista com Regina Duarte e irresponsável em informações sobre saúde ...ta igual a Record que so fala das boas iniciativas que o governo tem .crítica zero

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