sábado, 25 de julho de 2020

"Fina Estampa": a novela dos absurdos


Como se vê na edição especial de Fina Estampa, que a Globo vem exibindo na faixa das nove, a trama de Aguinaldo Silva vai se desenrolando e abraçando cada vez mais o absurdo. Com a trama principal já esgotada, o autor passa a apostar em situações episódicas e toscas, que não fazem o menor sentido. Como a reprise alcançou seu momento mais non sense, com Tereza Cristina (Christiane Torloni) gritando que morreu, dentro de um cemitério, logo após dar de cara com Marcela (Suzana Pires), é hora de o TELE-VISÃO resgatar este texto, publicado originalmente em 28 de janeiro de 2012, justamente neste momento da exibição original. Acompanhe:

Na última semana, a malvada Tereza Cristina deu de cara com uma morta: a jornalista falecida Marcela surgiu vivinha da silva, disposta a desmascarar a terrível vilã de Fina Estampa. Mas espere: não é jornalista, e sim sua irmã gêmea justiceira, da qual ninguém sabia da existência. Ou seria a própria Marcela, que deu uma de Bia Falcão (Fernanda Montenegro), forjou a própria morte e agora voltou com essa balela de irmã? Mais um mistério para a reta final de Fina Estampa. E mais uma prova de que a trama de Aguinaldo Silva foi feita para não se levar a sério.

O enredo está cada vez mais absurdo. Além da volta de Marcela (ou não), Fina Estampa nos brinda com as toscas tentativas de atentados contra os filhos de Griselda (Lília Cabral), orquestradas, claro, pela terrível Tereza. Entre uma tentativa de assassinato e outra, a megera rola pelos lençóis de seda que encobrem a cama de sua suíte máster com Pereirinha (José Mayer), um tipo ogro que parece mais uma tiração de sarro dos personagens pegadores que Mayer acumulou durante sua carreira.

Tereza Cristina faz inúmeras referências à Nazaré Tedesco (Renata Sorrah, em Senhora do Destino), fazendo vítimas e mais vítimas rolarem pelas escadas de sua casa (é tão fácil assim morrer escada abaixo, gente?). Enquanto isso, Pereirinha diz que, se fosse galã de novela, pegaria todo mundo. Isso sem falar na tia Íris (Eva Wilma), que nada mais é que Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque, de A Indomada, ressurgida das cinzas (bem que ela disse que voltaria, né?). E assim Fina Estampa vai se construindo, absurdo após absurdo, e a cada novo absurdo, crescem os índices de audiência.

Aguinaldo Silva, o autor, parece mesmo disposto a massagear o próprio ego em Fina Estampa. Além das inúmeras referências a si mesmo e à sua obra, o autor parece se deliciar criando uma novela xarope, porém a prova de erros. Pra que coerência se a audiência está nas alturas, não é mesmo? Assim, o autor se diverte ao apresentar uma obra que parece ser escrita no piloto automático, onde tudo parece uma grande gozação.

Além disso, as referências a outras novelas de Aguinaldo parecem passar atestado de que Fina Estampa é uma colcha de retalhos mal costurada, aquém das obras as quais reverencia. Tereza Cristina, ao invocar Nazaré o tempo todo, perde sua força, expondo ao público o quanto ela está anos-luz atrás da megera de Senhora do Destino. Afinal, a rival de Maria do Carmo (Suzana Vieira) era igualmente terrível e irônica, mas esta tinha um motivo claro que a movia. Fora que mostrava uma ponta de humanidade ao adorar a “filha”, além de ter um carisma só dela. Já Tereza é apenas uma chata entediada, protegendo um segredo que, aparentemente, e tão tolo quanto sua própria trajetória.

Enquanto isso, a verdadeira Nazaré, que agora atende pelo nome de Danielle Fraser (Renata Sorrah), está numa trama paralela que, por ser bastante distante da trama principal, acaba aparecendo como secundária. Uma pena, pois é a única trama verdadeiramente interessante de Fina Estampa. Danielle, lá no seu cantinho, agiu feito o doutor Albieri (Juca de Oliveira), de O Clone, ao gerar o sobrinho numa barriga de aluguel sem o consentimento da própria, Esther (Julia Lemmertz). Esther, assim como a Deusa (Adriana Lessa), foi envolvida inocentemente nas artimanhas da cientista maluca e, agora, vai enfrentar uma briga para poder ficar com a filha, já que a mãe biológica Beatriz (Monique Alfradique), outra vítima da médica antiética, descobriu a verdade e ficou mexida ao saber que existe uma filha sua, cujo pai biológico é o falecido grande amor de sua vida.

Trata-se de uma clara mistura de Barriga de Aluguel e O Clone, mas não se contesta a força dramática deste enredo. Por isso mesmo, este núcleo devia ter mais visibilidade, até porque conta com intérpretes inspirados e foge do tom boboca da trama principal. Pena que nem tudo é perfeito: Aguinaldo tratou de juntar Danielle com Enzo (Julio Rocha), formando um casal constrangedor. Julio Rocha, definitivamente, não é um bom ator, e Renata Sorrah precisa cortar um dobrado para convencer neste romance sem pé nem cabeça. É uma dobradinha com cara de monólogo.

Aguinaldo Silva, novelista de respeito, assinou algumas das principais novelas da história da TV. Roque Santeiro, Vale Tudo, Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida, A Indomada e Senhora do Destino enriquecem o currículo deste grande autor. No entanto, depois de escrever a interessantíssima, porém não tão boa de Ibope Duas Caras, o autor parece ter decidido não mais se arriscar e apenas se divertir. Fina Estampa tem o mérito de elevar a audiência do horário nobre, mas deverá ficar na história como a novela que homenageou o absurdo. 

André Santana

11 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Vamos contextualizar Fina Estampa...A trama de Aguinaldo sucedeu duas novelas com andamento travado e pesado: Passione e Insensato Coração. Naquela época, uma novela leve e descontraída surgiu como boa opção. Tanto é que elevou os índices de audiência. Gostei, no geral, de Fina Estampa. É novela!!! Não documentário!!! Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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    1. Esse novela e muito non sense..um seguidor desse estilo vamos voar e walcir carrasco

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    2. Oi Fabio, tudo bem? Tenho total compreensão que novela não é documentário. Quando eu falo de absurdos, não estou cobrando realidade. Estou cobrando trama. Fina Estampa não tem trama. O começo é até bom, mas a novela se perde bonito, sem história nenhuma pra contar. Griselda perde força depois que ganha na loteria. Até a rivalidade dela com a Tereza Cristina arrefece. Enquanto isso, Tereza Cristina fica protegendo um segredo que não faz sentido, enquanto tenta matar todo mundo, sem conseguir matar ninguém. Isso é história? Pra mim não é. É só uma sequência de situações sem sentido. Mas enfim, respeito sua opinião, mas só ressaltando que eu não quero que novela vire documentário. Quero que ela conte uma história. Abraço!

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  2. E agora também entra na história como a novela que entrou no lugar de "Amor de mãe" quando veio a pandemia...
    Lucas - www.cascudeando.com

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    1. Realmente pobre Amor de Mãe. Estavam excelente, Regina Casé, Thaís Araújo e Adriana Esteves xkmk 3 mães que amam seus filhos cada qual de sua forma, 3 grandes histórias que se encontram numa só. Aí colocaram essa novela No Sense no lugar durante essa pandemia. Eu se fosse executivo da Globo colocaria mais uma novela como Império, que foi um sucesso e também contava com boa parte desses atores de Fina Estampa.

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  3. Essa novela realmente é bizarra, vejo quase nada e já mudo de canal... Mas o pior estava por vir: O Sétimo Guardião, hahaha
    E no meio dela, o autor escreveu Império, muito boa, uma reprise caberia bem melhor!

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    1. Inclusive tem a imagem mais moderna

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    2. Eu gosto de Império, bem melhor que Fina Estampa e O Sétimo Guardião. O problema de Império é que o final ficou meio improvisado, com aquela história de Fabrício Melgaço. Mas, no geral, é uma boa novela sim.

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  4. Vocês deviam colocar o Disqus aqui. Concerteza bombaria!!!

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