sábado, 11 de julho de 2020

"Diário de um Confinado": série diverte, mas bastidores são mais interessantes


Se é possível tirar alguma lição positiva deste momento terrível que estamos vivendo, é a percepção de como sempre podemos nos reinventar. Na TV, isso é evidenciado com inúmeros programas feitos em casa, ou com poucos recursos, e que vem funcionando muito bem sem a parafernália aos quais estamos acostumados diante de superproduções.

Mas, verdade seja dita, é mais fácil fazer programas de entrevistas com estas soluções caseiras. Atrações de variedades, baseadas em receber convidados, estão se virando muito bem com suas videoconferências. Na Globo, Conversa com Bial e Encontro com Fátima Bernardes são casos de sucesso neste sentido. Serginho Groisman, neste contexto, também passará a apresentar programas totalmente inéditos a partir deste sábado, 11, com gravações de seus Altas Horas em sua casa, e também baseados em entrevistas remotas (até sábado passado, o programa mesclava entradas na casa de Serginho com reprises).

Mas e a dramaturgia? Enquanto os programas de variedades se reinventam, a dramaturgia foi obrigada a se recolher, afinal, não há como fazer novela ou série sem envolver muita gente, ou sem cenas que exigem proximidade dos atores. Porém, até mesmo a dramaturgia parece querer renascer em meio à necessidade de distanciamento social. Diário de um Confinado, que estreou no último sábado, 04, na Globo, se mostrou uma experiência muito interessante neste sentido. Criada e gravada na casa de Bruno Mazzeo, a atração dribla bem as dificuldades deste período crítico.

Na série, a temática, claro, é a pandemia. Mas com o olhar terno e curioso do humor. Diário de um Confinado não tem a pretensão de fazer um tratado sobre a covid-19. Apenas explora as pequenas loucuras humanas em situações adversas. Na trama, Murilo (Bruno Mazzeo) é um homem confinado há semanas, tentando lidar com a situação de estar preso em casa da melhor maneira possível.

Momentos reconhecíveis por quem está confinado surgem a todo o momento. Contato com amigos e parentes por chamadas de vídeo, a dificuldade de manter a casa em ordem, o humor inconstante e as pequenas paranoias hipocondríacas ganham uma leitura bem-humorada nesta série.

Trata-se do bom humor da crônica, que é típica da obra de Bruno Mazzeo. Misturando depoimentos fictícios com pequenos esquetes, Diário de um Confinado não difere muito de outras séries do ator e roteirista, como Cilada e Junto e Misturado. Fazer graça de situações comuns é uma constante nestes programas, e em Diário de um Confinado não é diferente. E funciona. Diário de um Confinado não tem a pretensão de arrancar grandes gargalhadas do público, mas provoca sorrisos involuntários a cada situação reconhecível. Em suma, não traz nada de novo, mas diverte.

No entanto, o fascínio de Diário de um Confinado se dá em razão de seus bastidores. A série ganha uma nova dimensão quando se tem em mente que ela foi criada e gravada na casa do protagonista, dirigida por Joana Jabace, sua esposa. Saber que Débora Bloch é a única atriz que contracena fisicamente com Mazzeo porque ela é vizinha do artista é outra curiosidade saborosa.

E mais: participações especiais luxuosas feitas por videochamadas, com nomes como Renata Sorrah e Fernanda Torres, também gravadas de suas casas, dão a Diário de um Confinado um ar de experimentação muito curioso. Assim, a grande contribuição da série à televisão brasileira não é o seu resultado no ar, mas o que ela significou nos bastidores.

Diário de um Confinado mostra uma reinvenção da produção audiovisual muito interessante. Uma produção gravada em casa, com uma equipe de produção que trabalhou remotamente, e que, no ar, mostra um apuro técnico impecável é, sem dúvidas, um caso de sucesso de produção em tempos de dificuldade.

Claro que não é o ideal. E, óbvio, o contexto é trágico. Mas Diário de um Confinado mostra que é possível produzir com qualidade em situações adversas. É a vitória da criatividade.

André Santana

4 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Gostei bastante da estreia. Veremos o segundo episódio. Comentarei no meu blog. Jamais entendi aquelas reprises do Zorra... Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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  2. Humor de improviso e a cara da geração atual

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