quinta-feira, 30 de julho de 2020

Tentando ser "plural", CNN Brasil acaba sendo irresponsável

Na minha primeira análise sobre a CNN Brasil, apontei como qualidade o fato de a emissora buscar a isenção, abrindo espaços tanto para os críticos ao governo, quanto ao próprio governo e seus simpatizantes. Mesmo ressaltando que o quadro O Grande Debate é um desserviço, já que nivela debatedores desnivelados e reforça a polarização de maneira prejudicial, ainda pensava que a emissora tinha mais acertos que erros neste sentido.

Porém, fui alertado pelos comentaristas do blog (que sempre proporcionam debates inteligentes e saudáveis por aqui, obrigado!) de que esta pretensa pluralidade levava a distorções. Concordei, mas ainda confiei na boa vontade do canal de notícias. Só que fui obrigado a mudar de ideia e fazer coro aos meus comentaristas: esta pluralidade alardeada pelo canal, infelizmente, não existe na prática.

Isso ficou bem claro nesta semana, quando a emissora lançou o quadro Liberdade de Expressão. Nele, os jornalistas Sidney Rezende e Alexandre Garcia, separadamente, apresentam análises e pontos de vistas sobre vários assuntos. E eis que Garcia, um declarado pró-governo, tascou uma “pérola” logo em sua estreia, ao afirmar que o uso da cloroquina no tratamento à covid-19 do presidente era uma prova clara da eficácia do medicamento. Esta fala, obviamente, repercutiu bastante, por conta do absurdo da situação.

Não há problema em ser pró-governo. O problema é quando transformam desinformação em “opinião”. Ciência não é opinião. Ciência é ciência. Há trocentos estudos científicos falando da ineficácia da cloroquina no combate à covid-19. E não se pode refutar tais estudos com opiniões. Estudos são feitos com métodos. Opiniões, não. Não é preciso ser um cientista para entender que um efeito numa pessoa não é um método de estudo científico. Uma pessoa não é uma amostragem. Uma pessoa é uma pessoa. Que tomou cloroquina, mas também tomou água, refrigerante e comeu um chocolate. Então, se seguirmos a lógica do Alexandre Garcia, o presidente é a prova viva de que chocolate cura covid.

A repercussão foi tão negativa que, no dia seguinte, a CNN mudou o nome do quadro para Liberdade de Opinião. E apenas reforçou o óbvio: opinião NÃO É ciência. Opinião é alguém gostar de amarelo, enquanto outro alguém gostar de verde. Eficácia de medicamento não deve ser analisada com opinião, e sim com experimentos científicos. Se a grande maioria dos cientistas fala da ineficácia do medicamento, quem é Alexandre Garcia para discordar deles?

A situação é ainda mais triste quando vemos a notícia de que, na CNN americana, uma âncora interrompeu um defensor da cloroquina. Foi Brianna Keilar, que entrevistava Tim Murtaugh, assessor do presidente dos EUA. Assim que ele começou a defender o medicamento, Keilar o cortou, e afirmou: “você está prestando um desserviço real aos americanos”. A âncora citou estudos, Murtaugh quis rebater, e ela foi firme: “nossa conversa acabou. Acho que você está realmente confundindo a situação, o que não ajuda a saúde de ninguém. Obrigada”. Em seguida, a jornalista chamou um médico para falar sobre isso.

Ou seja, a CNN americana está tratando o assunto com a seriedade que ele merece. Já a CNN brasileira dá espaço para disseminação de informações desencontradas, alegando estar ouvindo “todos os lados”. Neste caso, só há dois lados: o lado da mentira e o lado da verdade. Se a CNN Brasil dá à mentira o mesmo peso que dá à verdade, então isso não é jornalismo. Que pena!

André Santana

terça-feira, 28 de julho de 2020

Depois de se aventurar no domingo, Sabrina Sato ganha programa de namoro

Lembra quando Sabrina Sato perdeu o seu Programa da Sabrina, e correu solta a notícia de que a Record estudava um formato de namoro para ela apresentar? Pois bem. De lá para cá, a “japa” herdou o Domingo Show, ficou uns três dias ali, viu o quadro Made In Japão se tornar programa de sábado à noite (e que passou em brancas nuvens), e voltou à geladeira novamente. Mas agora, o tal programa de namoro vai finalmente sair do papel.

É interessante esta história toda. Quando saiu a primeira notícia de que Sabrina teria um programa de namoros, imaginei que a Record já tinha este formato, e encaixou Sabrina nele porque a apresentadora estava sem projeto. No entanto, não foi bem assim, agora ficou claro. Na verdade, alguém na emissora cismou que ela deveria comandar um programa de namoros e, desde então, estão em busca de um formato assim. Estranho, né? Sabrina tem cara de programa de namoro?

Mas enfim. A Record finalmente encontrou este formato. A nova atração, que vem sendo chamada de Game dos Clones, será uma parceria entre a emissora e a Prime Video. No programa, um participante descreve como sua “alma gêmea” deve parecer. A produção, então, seleciona oito concorrentes com as características pedidas,os veste exatamente iguais, e eles disputam o participante do dia. Game dos Clones deve estrear ainda este ano, nas noites de sábado.

Ou seja, o destino de Sabrina é mesmo permanecer no difícil horário da noite de sábado. Foi ali que seu Programa da Sabrina ficou no ar por alguns anos, e foi ali que o Made In Japão teve uma passagem pouco marcante. Vamos ver se o tal Game dos Clones terá força para fazer o sábado da Record renascer, afinal, a única coisa que funcionou ali foram justamente as reprises do Show do Tom, atualmente no ar.

Falando em Sabrina Sato, o Notícias da TV anunciou hoje, 28, que a apresentadora também deve ficar com o Dancing Brasil. Segundo o site, Xuxa Meneghel não tem mais interesse em permanecer na emissora, enquanto a direção da Record também não deve fazer questão de segurá-la. Assim, o Dancing, que não será produzido este ano por causa da pandemia, deve voltar em 2021 com nova apresentadora.

Quanto à Xuxa, fica a dúvida sobre seu destino. Se ela realmente não renovar com a Record, o mais provável é que ela se dedique às parcerias que anunciou, em sua recente participação no Otalab, de Otaviano Costa, no UOL. Xuxa falou de seus atuais projetos: “Deixa eu te dizer uma coisa: a gente tem uma série para fazer no HBO Plus, a gente tem um filme que vai sair pela Netflix, um seriado que vai sair pela Disney e os livros”, revelou ela. Vale lembrar que os livros que ela anunciou devem sair pela Globo Livros, o que já levanta a suspeita de um possível retorno da loira ao canal. 

Ainda acho que ela só volta à Globo se pintar um grande projeto, já que a emissora não tem segurado ninguém. Mas, se não voltar, Xuxa está bem servida, afinal, grifes como HBO, Disney e Netflix não são qualquer coisa, não é mesmo?

André Santana

sábado, 25 de julho de 2020

"Fina Estampa": a novela dos absurdos


Como se vê na edição especial de Fina Estampa, que a Globo vem exibindo na faixa das nove, a trama de Aguinaldo Silva vai se desenrolando e abraçando cada vez mais o absurdo. Com a trama principal já esgotada, o autor passa a apostar em situações episódicas e toscas, que não fazem o menor sentido. Como a reprise alcançou seu momento mais non sense, com Tereza Cristina (Christiane Torloni) gritando que morreu, dentro de um cemitério, logo após dar de cara com Marcela (Suzana Pires), é hora de o TELE-VISÃO resgatar este texto, publicado originalmente em 28 de janeiro de 2012, justamente neste momento da exibição original. Acompanhe:

Na última semana, a malvada Tereza Cristina deu de cara com uma morta: a jornalista falecida Marcela surgiu vivinha da silva, disposta a desmascarar a terrível vilã de Fina Estampa. Mas espere: não é jornalista, e sim sua irmã gêmea justiceira, da qual ninguém sabia da existência. Ou seria a própria Marcela, que deu uma de Bia Falcão (Fernanda Montenegro), forjou a própria morte e agora voltou com essa balela de irmã? Mais um mistério para a reta final de Fina Estampa. E mais uma prova de que a trama de Aguinaldo Silva foi feita para não se levar a sério.

O enredo está cada vez mais absurdo. Além da volta de Marcela (ou não), Fina Estampa nos brinda com as toscas tentativas de atentados contra os filhos de Griselda (Lília Cabral), orquestradas, claro, pela terrível Tereza. Entre uma tentativa de assassinato e outra, a megera rola pelos lençóis de seda que encobrem a cama de sua suíte máster com Pereirinha (José Mayer), um tipo ogro que parece mais uma tiração de sarro dos personagens pegadores que Mayer acumulou durante sua carreira.

Tereza Cristina faz inúmeras referências à Nazaré Tedesco (Renata Sorrah, em Senhora do Destino), fazendo vítimas e mais vítimas rolarem pelas escadas de sua casa (é tão fácil assim morrer escada abaixo, gente?). Enquanto isso, Pereirinha diz que, se fosse galã de novela, pegaria todo mundo. Isso sem falar na tia Íris (Eva Wilma), que nada mais é que Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque, de A Indomada, ressurgida das cinzas (bem que ela disse que voltaria, né?). E assim Fina Estampa vai se construindo, absurdo após absurdo, e a cada novo absurdo, crescem os índices de audiência.

Aguinaldo Silva, o autor, parece mesmo disposto a massagear o próprio ego em Fina Estampa. Além das inúmeras referências a si mesmo e à sua obra, o autor parece se deliciar criando uma novela xarope, porém a prova de erros. Pra que coerência se a audiência está nas alturas, não é mesmo? Assim, o autor se diverte ao apresentar uma obra que parece ser escrita no piloto automático, onde tudo parece uma grande gozação.

Além disso, as referências a outras novelas de Aguinaldo parecem passar atestado de que Fina Estampa é uma colcha de retalhos mal costurada, aquém das obras as quais reverencia. Tereza Cristina, ao invocar Nazaré o tempo todo, perde sua força, expondo ao público o quanto ela está anos-luz atrás da megera de Senhora do Destino. Afinal, a rival de Maria do Carmo (Suzana Vieira) era igualmente terrível e irônica, mas esta tinha um motivo claro que a movia. Fora que mostrava uma ponta de humanidade ao adorar a “filha”, além de ter um carisma só dela. Já Tereza é apenas uma chata entediada, protegendo um segredo que, aparentemente, e tão tolo quanto sua própria trajetória.

Enquanto isso, a verdadeira Nazaré, que agora atende pelo nome de Danielle Fraser (Renata Sorrah), está numa trama paralela que, por ser bastante distante da trama principal, acaba aparecendo como secundária. Uma pena, pois é a única trama verdadeiramente interessante de Fina Estampa. Danielle, lá no seu cantinho, agiu feito o doutor Albieri (Juca de Oliveira), de O Clone, ao gerar o sobrinho numa barriga de aluguel sem o consentimento da própria, Esther (Julia Lemmertz). Esther, assim como a Deusa (Adriana Lessa), foi envolvida inocentemente nas artimanhas da cientista maluca e, agora, vai enfrentar uma briga para poder ficar com a filha, já que a mãe biológica Beatriz (Monique Alfradique), outra vítima da médica antiética, descobriu a verdade e ficou mexida ao saber que existe uma filha sua, cujo pai biológico é o falecido grande amor de sua vida.

Trata-se de uma clara mistura de Barriga de Aluguel e O Clone, mas não se contesta a força dramática deste enredo. Por isso mesmo, este núcleo devia ter mais visibilidade, até porque conta com intérpretes inspirados e foge do tom boboca da trama principal. Pena que nem tudo é perfeito: Aguinaldo tratou de juntar Danielle com Enzo (Julio Rocha), formando um casal constrangedor. Julio Rocha, definitivamente, não é um bom ator, e Renata Sorrah precisa cortar um dobrado para convencer neste romance sem pé nem cabeça. É uma dobradinha com cara de monólogo.

Aguinaldo Silva, novelista de respeito, assinou algumas das principais novelas da história da TV. Roque Santeiro, Vale Tudo, Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida, A Indomada e Senhora do Destino enriquecem o currículo deste grande autor. No entanto, depois de escrever a interessantíssima, porém não tão boa de Ibope Duas Caras, o autor parece ter decidido não mais se arriscar e apenas se divertir. Fina Estampa tem o mérito de elevar a audiência do horário nobre, mas deverá ficar na história como a novela que homenageou o absurdo. 

André Santana

sexta-feira, 24 de julho de 2020

SBT e as novas aventuras de Silvio Santos

Mais uma semana movimentadíssima no SBT. Apesar de o canal não ter nada de novo, afinal, boa parte das produções segue paralisada por causa da pandemia e o jornalismo da emissora é uma piada, o SBT está longe de viver no tédio. Isso porque os lendários e constantes rompantes de Silvio Santos no “mexe-mexe” da grade de programação de sua TV estão mais fortes do que nunca. 

O curioso é que Silvio Santos gosta mesmo de mexer em suas apostas pessoais. Veja só! No começo da semana, ele “ressuscitou” o Alarma TV, que a gente já estava quase se esquecendo. O “patrão”, agora, exibe a grotesca atração nas madrugadas do SBT, aproveitando o horário avançado para exibi-lo sem cortes. Já na estreia, rolou uma imagem de decapitação. Olha o nível!

Como se não bastasse, o Triturando voltou à pauta dos telefonemas de Silvio. Na última quarta-feira, 22, ele tratou de avisar a produção que o programa agora se chamaria Notícias Impressionantes, e que teria apenas Chris Flores na apresentação, afastando Flor e Ana Paula Renault do vídeo (Gabriel Cartolano assumiu a narração dos VT's). O que se viu no ar foi uma espécie de Alarma TV “light”, com imagens sem contexto e notícias velhas, chamadas por uma Chris Flores que consegue manter a classe e a credibilidade mesmo diante de um festival de impropérios (Chris é mesmo uma profissional e tanto!). Obviamente, não deu certo, e Triturando voltou. Notícias Impressionantes se junta ao Telefone & Ganhe e Você é o Jurado com Supla no seleto grupo de programas do SBT que duraram 1 mísero dia.

Agora, a mira do “patrão” voltou ao Primeiro Impacto. A previsão (digo “previsão”, porque até a publicação deste texto, Silvio pode mudar de ideia de novo) é que o matinal volte a ter um compilado de “melhores momentos” na faixa da tarde, entre 11h30 e 14 horas. Com isso, não apenas o Primeiro Impacto ganha uma segunda edição, como o Bom Dia & Cia também será fatiado em dois. Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que não vai dar certo, e que tudo volta a ser como era na segunda-feira.

Mas ainda não acabou! Do mesmo baú em que Silvio tirou o pó do Alarma TV foi sacado o Milagres de Nossa Senhora, série mexicana que conta histórias de fé. O programa, tosco e desinteressante, já foi testado em tudo que é horário no SBT e não vingou em nenhum deles. Agora, será colocado nas noites de sábado, antes do SBT Brasil, faixa horária que vinha sendo ocupada por reprises do Sabadão com Celso Portiolli. Façam suas apostas: quanto tempo vai demorar para a série ser substituída por WWE Raw?

Por conta da pandemia, a previsão é que Silvio Santos não volte às gravações de seu programa este ano. Atitude correta e mais do que recomendada. Mas o dono do SBT não vai ficar parado. Pode ter certeza que tem muito mais mudança saindo de onde vieram estas. Ficamos na torcida para que a emissora sobreviva aos desmandos estapafúrdios do patrão. 

André Santana

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Globo programa novas reprises de novelas

Há poucos dias, falamos aqui sobre a ideia da Globo de retomar as gravações de Amor de Mãe e Salve-se Quem Puder, cheia de protocolos de segurança e muitas restrições, por conta da pandemia. Comentei da minha preocupação em voltar sem as condições adequadas, o que poderia derrubar a qualidade das produções. Sobretudo Amor de Mãe, que tem um realismo marcante, voltar de qualquer jeito seria um final melancólico para uma novela com tantas qualidades.

Ao que tudo indica, a própria emissora fez avaliação semelhante e decidiu que as novelas inéditas só retornam à grade em 2021. Assim, novas reprises serão escaladas para as faixas das seis, sete e nove. A Força do Querer, de Gloria Perez, sucesso de 2017, foi a escolhida para a vaga de Fina Estampa, que deve sair do ar no final de agosto.

Muitos reclamaram que se trata de uma novela recente. E realmente é. Mas não vejo isso como um problema. Totalmente Demais também é recente, e se mostrou o principal acerto desta safra de reprises, com uma audiência até superior à da primeira exibição. O critério da Globo parece ser, simplesmente, audiência. Se considerarmos os principais sucessos da década da faixa das nove, os maiores títulos são Fina Estampa, Avenida Brasil, Amor à Vida e A Força do Querer (além de ImpérioO Outro Lado do Paraíso e A Dona do Pedaço). Fina Estampa já foi, e Avenida Brasil esteve no ar há pouco tempo. Das restantes, A Força do Querer parece mesmo a melhor opção.

Enquanto isso, ficam as apostas sobre o que virá no horário das seis e das sete. Às seis, ao que tudo indica, a escolhida será Flor do Caribe, de 2013. Novelinha arroz-com-feijão simpática, mas longe de ser unanimidade. Minha torcida particular era por A Vida da Gente, ou Além do Tempo, novelas de maior expressão do horário. Já às sete, a mais cotada, segundo a imprensa, é Rock Story. Ótima escolha, sem dúvidas, mas eu sonhava mesmo era com o remake de Ti Ti Ti. Vamos ver como será.

Além das novelas do horário nobre, a Globo segue reprisando novelas no Vale a Pena Ver de Novo, claro. E Laços de Família foi a escolhida para a vaga de Eta Mundo Bom!. Uma escolha mais do que celebrada por este blog, afinal, Laços é uma das novelas preferidas deste pequeno e cabeçudo blogueiro. Num momento em que há reprises de novelas mais recentes no horário nobre, nada mais adequado que o Vale a Pena resgate tramas um tanto mais “antiguinhas”. Trama deliciosa, Laços de Família tem condições  de repetir o sucesso de Por Amor. 

Atualização (24/07, às 11h16) - A Globo confirmou ontem, 23, que Haja Coração foi definida como a substituta de Totalmente Demais, contrariando a especulação de que Rock Story era a mais cotada. Assim, ao menos, eles poderão manter a participação de Fedora (Tatá Werneck) no último capítulo de Totalmente Demais.

Resta saber como fica a reprise de Sassaricando no Viva, já confirmada como substituta de Brega & Chique. Como se sabe, Haja Coração é uma releitura da trama de Silvio de Abreu, assinada por Daniel Ortiz. Será, no mínimo, estranho, a original e o remake serem exibidos simultaneamente. Viva e Globo, normalmente, evitam este tipo de coincidência. Ou seja, não estranhem se o Viva adiar Sassaricando e escalar outra novela para o horário. Afinal, não seria a primeira vez que o canal suspenderia uma atração já anunciada. Vamos ver.

André Santana 

sábado, 18 de julho de 2020

Mais cozinha: "MasterChef" e "Top Chef" tentam driblar pandemia


Além da dramaturgia, a televisão brasileira também viu o segmento dos reality/talent shows sendo prejudicado pela pandemia do novo coronavírus. Por conta disso, tornou-se um desafio manter no ar tais programas. Mas eles são necessários, sobretudo em razão do imenso potencial comercial de atrações como as competições de culinária. Assim, Band e Record lançaram, nesta semana, as novas temporadas de MasterChef e Top Chef, tentando minimizar o impacto da pandemia.

Para “salvar” a temporada 2020 do MasterChef, a Band tratou de transformá-lo num game show. Baseada em experiências de outras versões do MasterChef no mundo, a emissora apostou num formato baseado em competições semanais. Assim, não corre o risco de ver uma competição que costuma durar meses ser interrompida totalmente por conta de um participante que, eventualmente, contraia covid-19.

A solução foi, basicamente, simplificar o formato. Ao invés de explorar uma narrativa que avança a cada episódio, o novo MasterChef propõe uma dinâmica que começa a termina no mesmo capítulo. Assim, cada episódio mostra uma disputa entre oito chefs, e um deles se sagra o vencedor. No episódio seguinte, novos competidores e um novo vencedor.

Ou seja, com a mudança, o MasterChef perde a principal característica de um reality/talent show: a exploração dos conflitos causados pela convivência. Sem maiores desdobramentos, MasterChef ganha contornos de um game show tradicional, no qual os participantes não vão em busca de uma exposição maior, e sim de “apenas” um prêmio.

Com esta mudança drástica, MasterChef perde um pouco do charme. Afinal, a grande graça do programa é conhecer os participantes e se deixar envolver por eles. O espectador se identifica com um deles e torce por ele. Ao mesmo tempo, cultiva pequenos ódios por outros, torcendo contra. Elege mocinhos e vilões. E embarca na emoção. Agora não. Há ainda o desafio na cozinha, os comentários cortantes de Paola Carosella, Erick Jacquin e Henrique Fogaça, e há a contagem aflitiva de Ana Paula Padrão. Mas não há mais a mobilização das torcidas e da agitação do formato original. Neste contexto, o programa perdeu muito com a mudança.

Porém, como boa parte do trunfo do MasterChef é seu elenco carismático, a atração deve se manter escorado neles. Com isso, apesar de perder em emoção, não deve perder em diversão. Só é preciso mais cuidado com os protocolos de higiene, já que os competidores surgem sem máscara e se aglomerando no mercado. É preciso atenção.

Já o Top Chef Brasil tem problemas maiores. O programa da Record estreou mostrando os mesmos pontos fracos que o fizeram passar em brancas nuvens no ano passado: seu elenco insosso. Felipe Bronze é simpático, mas segue sem firmeza na apresentação. Falta mais pulso firme ao chef. Além disso, os jurados Ailin Aleixo e Emmanuel Bassoleil não são lá muito carismáticos. A falta de um personagem que imprima alguma identidade ao programa é grave. Tudo é muito asséptico e sem ritmo. Ou seja, para que a segunda temporada da atração consiga uma repercussão minimamente superior à do ano passado, é preciso esperar que um participante se destaque e dite os rumos da narrativa. O que, até agora, parece pouco provável que aconteça.

Ao contrário do MasterChef, o Top Chef começou a ser gravado antes da pandemia. Teve apenas cinco episódios gravados, e depois foi interrompido. Voltará a ser gravado agora. Com isso, a emissora assume um risco, já que esta pausa e a volta neste contexto submetem o programa a imprevistos que podem prejudicar seu andamento. Já pensou se um participante confinado fica doente, por exemplo?

Em suma, são muitos os desafios da nova temporada de Top Chef Brasil. Mas o principal deles será convencer o público a dar uma nova chance à atração, dada a temporada sem apelo do ano passado. Complicado.

André Santana

sexta-feira, 17 de julho de 2020

"Otalab" é mais uma interessante experiência de TV na internet

Com a popularização (e profissionalização) dos vídeos da internet, a TV, muitas vezes, tentou emular o formato. O contrário também já aconteceu: há experiências na internet que se inspiram em formatos televisivos. Neste contexto, a chegada do streaming (e até da pandemia) fez tais experiências ganharem mais força. Já falamos aqui que o Globoplay tem feito boas experiências de programas remotos para a plataforma. E, agora, o UOL entrou na onda.

Não é de hoje que o portal UOL tenta aumentar a oferta de produção audiovisual. E agora, com este novo cenário criado pela pandemia, incluindo aí a popularização das lives, começam a surgir formatos híbridos e criados para serem veiculados nesta plataforma. Otalab, estreia de ontem, 16, do portal, surge nesta esteira. É Otaviano Costa mostrando a tal inquietação que ele sempre se referiu na ocasião em que deixou a Globo, onde comandava o game Tá Brincando

Otalab parece mesmo um programa de TV feito para a internet. Uma atração de variedades, no qual cabem todos os assuntos. O apresentador surge simpático num estúdio intimista, no qual divide a cena apenas com uma banda. Como em todos os programas de TV da atualidade, no Otalab os convidados surgem por videochamadas. Na estreia, o apresentador comandou boas entrevistas com Xuxa Meneghel, Paulo Ricardo, e outros convidados.

O diferencial é que o Otalab conta com o “material humano” do UOL. A promessa é que o apresentador receba colunistas do portal para debater assuntos do dia. Reinaldo Azevedo e Chico Barney participaram da estreia. Assim, o Otalab se mostrou como uma “salada”, misturando informação e entretenimento. É praticamente um programa de auditório de fim de semana da TV aberta, mas sem auditório presencial. Cabe de tudo.

Foi uma boa estreia. A atração leva a produção audiovisual do UOL para um novo lugar, neste momento em que o portal tem investido em nomes populares da TV (além de Otaviano, Zeca Camargo lançou um programa na plataforma recentemente). E ficou a cara de Otaviano Costa. Otalab deixou claro qual era a tal “inquietação” de Otaviano: ele queria um programa mais autoral. Um espaço dele, onde ele pudesse fazer o que quiser.

E a TV convencional, como já dissemos aqui em posts anteriores, tem cada vez menos espaço para isso. Programas autorais têm perdido a vez para formatos de temporada, e os comunicadores estão se tornando meros mestres de cerimônias. Otaviano nunca escondeu que queria um programa dele. Como não conseguiu na TV, resolveu explorar um novo terreno. O resultado não apenas convence, como abre um precedente interessante. Mostra que trocar a visibilidade de uma TV aberta para um espaço autoral na internet pode não significar um “rebaixamento”, pelo contrário: pode ser uma reinvenção possível. E muito agradável. 

Otalab é exibido toda quinta-feira, às 15 horas, ao vivo, nas plataformas do UOL. Para quem não viu, o primeiro programa pode ser assistido abaixo:


André Santana

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Com "Tempero de Família", "É de Casa" reforça sua vocação de "quintal da Globo"

O Notícias da TV divulgou nesta quarta-feira, 15, que o programa Tempero de Família, exibido pelo GNT, vai se transformar num quadro do É de Casa. Na já tradicional atração do canal Globosat, o ator Rodrigo Hilbert ensina diversas receitas e modos de fazer. Na estreia, por exemplo, ele ensina o preparo de uma costela, mas também ensina a fazer o forno (!).

O programa das manhãs de sábado da Globo, então, passa a mostrar os melhores momentos do programa do GNT. Com isso, a emissora reforça a impressão de que o reaproveitamento de conteúdo de seus canais pagos na TV aberta é mesmo um caminho sem volta. E mostra que o É de Casa é mesmo o “quintal da Globo”, ou seja, é ali onde são “despejados” conteúdos e profissionais diversos.

Vale lembrar que, desde a estreia, É de Casa se coloca como um programa de “reaproveitamento”. Afinal, ele estreou sob o comando de Patrícia Poeta, Ana Furtado, Cissa Guimarães, André Marques, Tiago Leifert e Zeca Camargo. Em comum, todos eles (com exceção de Leifert) estavam sem programa na emissora. Ou seja, É de Casa virou meio que um “prêmio de consolação” para profissionais queridos do canal, mas que estavam sendo pouco aproveitados.

E, agora, desde que a atração passou a ocupar quase seis horas na grade dos sábados da Globo, esta impressão aumentou. O exemplo mais recente é Fernanda Gentil, que, com o Se Joga fora do ar, passou a responder por um quadro do É de Casa, o Mundo Gentil. Além disso, o programa também aposta em quadros com vários colaboradores “exclusivos”, como o chef Ravioli e a campeã do BBB Thelma Assis, além da repórter Maria Cândida.

O “flerte” com o conteúdo do GNT começou em maio. Na ocasião em que o canal pago anunciou a exibição do especial Cartas Para Eva, apresentado por Angélica, o É de Casa exibiu uma versão compacta da atração, como se fosse um quadro. O fato de Ana Furtado se emocionar no ar com a “pílula” do projeto de Angélica chegou a ser notícia em vários sites. Agora, é um programa regular da grade, o Tempero de Família, que ganha um espaço na TV aberta.

É interessante quando todo o Grupo Globo se esforça para otimizar sua produção. Transformar programas de canal pago em quadros de programa de TV aberta pode ser uma saída bastante interessante para que um conteúdo seja mais bem aproveitado. Tempero de Família tem tudo a ver com o É de Casa e, com certeza, vai agregar mais ao matinal. Aliás, outros programas do GNT têm a mesma vocação. Ou seja, não estranhem se surgir um quadro baseado no Decora, ou no Extreme Makeover.

Com isso, reforça-se também a impressão de que o É de Casa vai se tornando praticamente um Fantástico matinal. Com mais horas no ar, o matinal ganhou um conteúdo bastante diversificado, com uma boa atuação do jornalismo e quadros variados. Tornou-se, de fato, uma grande revista eletrônica. Vive um bom momento. 

André Santana

sábado, 11 de julho de 2020

"Diário de um Confinado": série diverte, mas bastidores são mais interessantes


Se é possível tirar alguma lição positiva deste momento terrível que estamos vivendo, é a percepção de como sempre podemos nos reinventar. Na TV, isso é evidenciado com inúmeros programas feitos em casa, ou com poucos recursos, e que vem funcionando muito bem sem a parafernália aos quais estamos acostumados diante de superproduções.

Mas, verdade seja dita, é mais fácil fazer programas de entrevistas com estas soluções caseiras. Atrações de variedades, baseadas em receber convidados, estão se virando muito bem com suas videoconferências. Na Globo, Conversa com Bial e Encontro com Fátima Bernardes são casos de sucesso neste sentido. Serginho Groisman, neste contexto, também passará a apresentar programas totalmente inéditos a partir deste sábado, 11, com gravações de seus Altas Horas em sua casa, e também baseados em entrevistas remotas (até sábado passado, o programa mesclava entradas na casa de Serginho com reprises).

Mas e a dramaturgia? Enquanto os programas de variedades se reinventam, a dramaturgia foi obrigada a se recolher, afinal, não há como fazer novela ou série sem envolver muita gente, ou sem cenas que exigem proximidade dos atores. Porém, até mesmo a dramaturgia parece querer renascer em meio à necessidade de distanciamento social. Diário de um Confinado, que estreou no último sábado, 04, na Globo, se mostrou uma experiência muito interessante neste sentido. Criada e gravada na casa de Bruno Mazzeo, a atração dribla bem as dificuldades deste período crítico.

Na série, a temática, claro, é a pandemia. Mas com o olhar terno e curioso do humor. Diário de um Confinado não tem a pretensão de fazer um tratado sobre a covid-19. Apenas explora as pequenas loucuras humanas em situações adversas. Na trama, Murilo (Bruno Mazzeo) é um homem confinado há semanas, tentando lidar com a situação de estar preso em casa da melhor maneira possível.

Momentos reconhecíveis por quem está confinado surgem a todo o momento. Contato com amigos e parentes por chamadas de vídeo, a dificuldade de manter a casa em ordem, o humor inconstante e as pequenas paranoias hipocondríacas ganham uma leitura bem-humorada nesta série.

Trata-se do bom humor da crônica, que é típica da obra de Bruno Mazzeo. Misturando depoimentos fictícios com pequenos esquetes, Diário de um Confinado não difere muito de outras séries do ator e roteirista, como Cilada e Junto e Misturado. Fazer graça de situações comuns é uma constante nestes programas, e em Diário de um Confinado não é diferente. E funciona. Diário de um Confinado não tem a pretensão de arrancar grandes gargalhadas do público, mas provoca sorrisos involuntários a cada situação reconhecível. Em suma, não traz nada de novo, mas diverte.

No entanto, o fascínio de Diário de um Confinado se dá em razão de seus bastidores. A série ganha uma nova dimensão quando se tem em mente que ela foi criada e gravada na casa do protagonista, dirigida por Joana Jabace, sua esposa. Saber que Débora Bloch é a única atriz que contracena fisicamente com Mazzeo porque ela é vizinha do artista é outra curiosidade saborosa.

E mais: participações especiais luxuosas feitas por videochamadas, com nomes como Renata Sorrah e Fernanda Torres, também gravadas de suas casas, dão a Diário de um Confinado um ar de experimentação muito curioso. Assim, a grande contribuição da série à televisão brasileira não é o seu resultado no ar, mas o que ela significou nos bastidores.

Diário de um Confinado mostra uma reinvenção da produção audiovisual muito interessante. Uma produção gravada em casa, com uma equipe de produção que trabalhou remotamente, e que, no ar, mostra um apuro técnico impecável é, sem dúvidas, um caso de sucesso de produção em tempos de dificuldade.

Claro que não é o ideal. E, óbvio, o contexto é trágico. Mas Diário de um Confinado mostra que é possível produzir com qualidade em situações adversas. É a vitória da criatividade.

André Santana

quinta-feira, 9 de julho de 2020

História da TV: Os 18 anos de "Ilha Rá-Tim-Bum" - parte 2


Anteriormente, no TELE-VISÃO: semana passada, relembramos aqui que o infantil Ilha Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, completou 18 anos no último dia 01 de julho. A atração, inicialmente concebida como um spin-off do Castelo Rá-Tim-Bum, que seria chamado de Fazenda Rá-Tim-Bum, passou por diversas mudanças e dificuldades, estreando apenas cinco anos depois do previsto, já com novo nome e novo conceito.

Ilha Rá-Tim-Bum estreou no dia 01 de julho de 2002. Para a exibição, a Cultura adotou uma estratégia semelhante à do Castelo, promovendo três exibições diárias para atingir diversas faixas de público: às 12h30, 15h30 e 19h30. Ao contrário de Rá-Tim-Bum e Castelo Rá-Tim-Bum, que eram formados por quadros educativos e didáticos, Ilha Rá-Tim-Bum tinha o formato de série de aventura, sem quadros fixos. Seu lado educativo era a mensagem ecológica. Por meio das aventuras, a série discutia assuntos como História, ciências, preservação ambiental e sustentabilidade.

A história da série criada por Flavio de Souza começava quando cinco jovens num barco naufragam e vão parar numa ilha misteriosa. São eles: Gigante (Paulo Nigro), Rouxinol (Greta Eleftheriou), Majestade (Thuanny Costa), Micróbio (Rafael Chagas) e Raio (Abayomi de Oliveira). Sem terem como voltar pra casa, os jovens se unem para sobreviverem na ilha, ao mesmo tempo em que conhecem os habitantes do local.

Logo, eles se tornam amigos de Hipácia (Graziella Moretto), uma misteriosa mulher que já viveu muitos anos e testemunhou muitos momentos da História. Meio bruxa, meio alquimista, Hipácia esconde muitos segredos que vão se revelando aos poucos na série. Ela se torna meio “mãezona” do grupo de jovens, protegendo-os dos ataques do monstro Nefasto (Ernani Moraes), uma figura vil que tem um plano maléfico de dominação mundial. O vilão conta com a ajuda de seus capangas Zabumba (Luciano Gatti), um zangão, e Polca (Liliana Castro), uma libélula, e passa a vigiar os jovens, estudando-os para tentar compreender como a humanidade funciona e dominá-la.

Os cinco amigos também conhecem outras criaturas fantásticas da ilha, como Solek (Luiz de Abreu), que é meio homem e meio lagarto, e Nhã-Nhã-Nhã (Angela Dipp), que é meio mulher e meio aranha. Quem se junta a eles também é Suzana (Magda Crudelli), uma espécie de cobra peluda que se torna amiga inseparável de Rouxinol. E vivem por ali os Coisos, uma estranha família de monstros formada por Coiso (Henrique Stroeter), Coisa (Keila Bueno) e Coisinho (Hugo Picchi Neto). Eles têm medo dos humanos e quase não se aproximam, mas são criaturas curiosas que passam o dia tentando adivinhar pra que servem os estranhos objetos que encontram nas mochilas das crianças. Havia ainda o tatu Rá (Pedro Mariano), o pássaro Tim (Fernanda Takai) e o bicho-preguiça Bum (Bukassa Kabengele), três bonecos que narravam a história.

O interessante de Ilha Rá-Tim-Bum era que ele se desenrolava como uma série de aventura própria para crianças mais velhas, com tramas mais obscuras e até momentos com alguma dose de violência. O texto de Flavio de Souza buscava fazer uma espécie de recriação da história da humanidade, mostrando a evolução dos protagonistas e como eles iam se desenvolvendo e modernizando ao viver na ilha. Paralelamente, a trama tinha vários mistérios que iam sendo desvendados aos poucos, descortinando a origem da ilha e de seus habitantes. Assim, cada episódio trazia uma trama fechada, mas ia desenrolando uma trama maior que permeia toda a temporada. Na reta final, Ilha Rá-Tim-Bum se torna quase uma novelinha, com ganchos que vão denunciando o desfecho da história.

Durante a trama, os cinco jovens conhecem a história de Arielibã (Ernani Moraes), um sábio alquimista que vivia com Hipácia e fazia experimentos para buscar proteger a natureza. Éle aparece como um espírito, que guia os jovens e Hipácia. Apenas na reta final, é revelado que  Arielibã foi vítima de uma de suas experiências, fundindo-se a um micróbio e se tornando Nefasto. Assim, quando as crianças descobrem que Nefasto é um “homem micróbio”, traçam um plano para derrotá-lo em definitivo. 

Além deste principal mistério, Ilha Rá-Tim-Bum também guardou outros “plot twists”, como o fato de Suzana ser, na verdade, uma espiã de Nefasto; e também a regeneração de Polca que, aos poucos, se volta contra o vilão. No final da história, as crianças derrotam Nefasto e conseguem deixar a ilha, tornando-se grandes amigos.

Ilha Rá-Tim-Bum foi exibida entre julho e setembro de 2002. Depois, foi reprisada constantemente entre 2003 e 2005. Mas nunca teve grande audiência, e acabou deixando a grade da emissora, retornando apenas na programação da TV Rá-Tim-Bum. Mesmo assim, rendeu um longa-metragem para o cinema, Ilha Rá-Tim-Bum: O Martelo de Vulcano (2003), que também passou em brancas nuvens. O longa, na verdade, é bem fraquinho, já que é todo rodado nos mesmos cenários da série, extremamente artificiais, que não funcionaram no cinema. Para o filme, Liliana Castro não retornou ao papel de Polca, sendo substituída por Bárbara Paz (que chegou a ser testada para a série anos antes). Já Henrique Stroeter, que vive Coiso na série, assume o papel de Solek no filme, substituindo Luiz de Abreu.

Vale ressaltar que Angela Dipp, a Nhã-Nhã-Nhã, é a única atriz a participar de todos os programas da grife Rá-Tim-Bum. Ela aparece em Rá-Tim-Bum como membro da Família Teodoro, aquela que ensinava ao público brincadeiras com cordas, bambolês e outros objetos (“e com vocês, a família Teodoro!”, lembra?). Já em Castelo Rá-Tim-Bum, Angela se imortalizou como a jornalista Penélope. Em Ilha Rá-Tim-Bum, ela é a rabugenta Nhã-Nhã-Nhã, a aranha que conta histórias às crianças. Já Henrique Stroeter, o Coiso, esteve também no Castelo Rá-Tim-Bum como Perônio, o cientista irmão gêmeo de Tíbio, vivido por Flavio de Souza, o criador de Ilha Rá-Tim-Bum (ufa!).

Vale destacar também a luxuosa trilha sonora. Os episódios eram encerrados com clipes de canções dos personagens, interpretados por grandes nomes da música brasileira, como Gilberto Gil (que cantava "Pessoa Nefasta", tema de Nefasto). Já a deliciosa canção de abertura era interpretada por Pedro Mariano, Fernanda Takai e Bukassa Kabengele, que também davam voz aos bonecos Rá, Tim e Bum, os narradores. 

Por conta do pouco sucesso, Ilha Rá-Tim-Bum é pouco marcante e muito pouco lembrada. Mas é uma série divertida, muito bem-feita, e que merecia ser revisitada. Uma nova reprise na TV Cultura não seria uma ideia ruim.

André Santana

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A volta do "Show do Tom" e outras novidades da TV

Mesmo em tempo de pandemia e produções paralisadas, o noticiário televisivo tem rendido uma série de assuntos. Entre eles, o fato de ser uma temporada de reprises ter rendido o inusitado retorno do Show do Tom. Sim, o humorístico de Tom Cavalcante, exibido entre 2004 e 2011 na Record, voltou ao ar no último sábado. E, mesmo com a imagem borrada, disse a que veio.

Segundo o Notícias da TV, Show do Tom deu mais audiência que seu antecessor no horário, o reality show Made in Japão, de Sabrina Sato, e o Live Legendários, um programa improvisado que Marcos Mion comandou anteriormente. O que mostra a força de Tom Cavalcante, que segue agradando o público da emissora mesmo com reprises. Isso expõe a carência do humor na grade do canal. É um formato que a Record devia considerar retomar. 

Enquanto isso, na Band, contratações aconteceram. Zeca Camargo foi confirmado como novo funcionário da casa. Mas não como parceiro de Mariana Godoy no novo matinal da emissora, que deve substituir o Aqui na Band, como previsto. E sim como diretor executivo, propondo novos programas e ideias para o canal. E quer saber? Achei a novidade bem interessante. Zeca é um cara de repertório, um profissional da área, que pode contribuir com uma renovação da programação da emissora. Acho que pode funcionar. Aguardemos.

Por fim, na Globo, a retomada das novelas ganha um novo cenário a cada dia. Com as incertezas dos rumos da pandemia, não se sabe exatamente quando a emissora voltará a gravar Amor de Mãe e Salve-se Quem Puder, que foram interrompidas. Com isso, começa a ganhar força a informação de que outra reprise pode ocupar o horário nobre da Globo. E que A Força do Querer é a mais cotada para a vaga. 

Sou um espectador saudoso de Amor de Mãe. Não vejo a hora de a novela de Manuela Dias voltar. Mas reconheço que é um momento de cautela. Uma retomada precoce e cheia de impedimentos, dado os inúmeros protocolos de segurança que deverão ser adotados, pode prejudicar a obra. Seria uma pena uma novela que começou tão bem e parou no auge retornar de maneira apressada, e sem entregar ao público a mesma qualidade inicial. Se os rumos da pandemia são obscuros, talvez a melhor solução seja mesmo esperar mais um pouco. E vamos combinar? Rever A Força do Querer não seria nada mal.

E falando em novelas da Globo, nesta semana circulou a notícia de que Silvio de Abreu estaria preparando sua aposentadoria. O Diretor de Dramaturgia da Globo ficaria mais poucos anos na função, passando o bastão para Ricardo Waddington. O próprio Silvio veio a público desmentir tal informação. E se trata de uma boa notícia. Silvio de Abreu é muito criticado, mas não se pode negar que ele tem mais acertos que erros à frente da dramaturgia da Globo. Ele lançou vários novos autores, organizou a fila de produções e tem sabido dosar a dramaturgia básica com boas experiências. 

Esta gestão vem sendo marcada pelo revezamento entre obras de fácil digestão e garantia de audiência, tipo Walcyr Carrasco, com experiências mais ousadas e/ou sofisticadas, como Manuela Dias, Paulo Halm e Rosane Svartman. E isso é muito positivo.

André Santana

sábado, 4 de julho de 2020

"Fábrica de Casamentos" não consegue evitar repetição em nova temporada


Na semana passada, o SBT estreou a quarta temporada de Fábrica de Casamentos. Estreando com atraso, e com menos episódios, a atração de Chris Flores e Carlos Bertolazzi tem como grande desafio driblar a repetição. E, a julgar pelo episódio de estreia do último sábado, 27 de junho, não será uma tarefa fácil.

Em seus primeiros anos, Fábrica de Casamentos explorava os percalços que a equipe da atração tinha que enfrentar para entregar uma festa de casamento em tempo recorde. É vestido que não fica pronto, é decoração que cai, é bolo que tem a estrutura comprometida… Tudo isso costurado com reclamações da confeiteira, da decoradora e dos demais membros da equipe.

Tudo soava bastante fake, já que algumas situações eram claramente aumentadas para que o conflito ficasse mais evidente. No entanto, não chegava a comprometer. O fato de a atração revelar os bastidores da produção de um evento cheio de detalhes como um casamento, e num tempo tão restrito, garantia a diversão. Mas, passadas duas temporadas, a fórmula se mostrou cansativa. Os problemas começaram a se repetir, e a equipe começava a ficar over com suas reclamações.

Assim, a terceira temporada de Fábrica de Casamentos diminuiu consideravelmente o tempo em que se mostrava o processo de montagem da festa. O programa passou a dar mais enfoque ao casal participante e sua história. Foi uma mudança de foco que deu fôlego ao formato.

No entanto, na estreia da quarta temporada, Fábrica de Casamentos parece querer voltar às origens. O episódio de estreia não deu muito espaço à história dos noivos, preferindo voltar a apostar nos bastidores da festa.

Boa parte do programa mostrou a noiva fazendo suas exigências, enquanto Lucas Anderi reclamava da falta de tempo, e Beca Milano bolava um plano engenhoso para um bolo apoteótico em formato de carro. O maior desafio da equipe foi a falta de simpatia da noiva com flores, que deixou a decoradora desesperada.

Trata-se de uma volta às origens questionável. Fábrica de Casamentos empolgava mais quando dava o protagonismo aos participantes. Como eles mudam a cada episódio, o programa sempre mostrava algo novo.  Voltando a apostar nos bastidores atribulados, a atração tende a se repetir, e os noivos passam a ser coadjuvantes. Vira uma novelinha.

O ideal seria que o programa dosasse estas duas bases. É divertido ver como a equipe corre contra o tempo para montar uma festa. Mas mais divertido e emocionante é conhecer as histórias de vida dos noivos. É a emoção que garante a atenção do público.

André Santana

sexta-feira, 3 de julho de 2020

História da TV: os 18 anos de "Ilha Rá-Tim-Bum"



Em julho de 2002, a TV Cultura lançou Ilha Rá-Tim-Bum, o terceiro infantil da grife Rá-Tim-Bum. Depois de encantar as crianças com Rá-Tim-Bum e Castelo Rá-Tim-Bum, dois programas de forte cunho didático, a emissora tratou de apostar num projeto mais voltado a crianças mais velhas, deixando de lado o didatismo e apostando numa mensagem ecológica. O resultado foi o mais inexpressivo programa da linha, com baixa audiência e pouca repercussão. O que não quer dizer que o programa não tinha qualidades.

Ilha Rá-Tim-Bum foi um programa que demorou a sair. Inicialmente, a TV Cultura planejava fazer um spin-off do Castelo, aproveitando personagens e cenários do famoso infantil. A diferença é que o novo programa teria sua narrativa deslocada para uma fazenda. Por isso, foi chamado de Fazenda Rá-Tim-Bum. Em dezembro de 1997, a Folha de S. Paulo noticiou que Jorge da Cunha Lima, presidente da Fundação Padre Anchieta, convidou Cao Hamburger, Anna Muylaert e Flávio de Souza para comandar a equipe que produziria o programa.

Ainda segundo o jornal, a emissora havia firmado um acordo com o Sesi a produção de 90 episódios do novo programa, orçado em cerca de R$ 5,6 milhões. Personagens como Nino e Dr. Victor, do Castelo, seriam mantidos na Fazenda e conduziriam as histórias. Além deles, surgiram dois personagens: El Niño, criado para apresentar os fenômenos da natureza às crianças; e um pequeno cientista, que faria experiências em um laboratório de engenharia genética."Nós queremos ensinar as crianças a viver bem no planeta Terra, respeitando a natureza", disse Jorge da Cunha Lima, na época.

Mas, conforme foi passando o tempo, o projeto foi mudando. Manteve-se o mote ecológico, mas novos personagens foram criados e a ação foi transposta para uma ilha, e não mais uma fazenda. Anna Muylaert tocou o novo projeto, mas reviravoltas de produção fizeram a ideia estacionar. De repente, Ilha Rá-Tim-Bum se tornou uma espécie de “lenda urbana”, que ninguém mais sabia exatamante em que pé estava.

O projeto voltou a ganhar a imprensa cerca de três anos depois, em 2000, quando Flavio de Souza assumiu os roteiros. A produção seria mais modesta, e a ideia era uma temporada inicial de 26 episódios. Em junho de 2000, a Folha publicou uma nova matéria sobre a atração. O jornal revelou que, caso o Ilha obtivesse o sucesso esperado, seriam escritos e produzidos episódios para mais três temporadas. O jornal disse ainda: “Souza assumiu o texto em substituição a Anna Muylaert, que já havia escrito 20 episódios. 'Preferi começar do zero e imprimir meu estilo. Coloquei muito humor, não sei trabalhar de outro jeito', diz”.

Foi assim que Ilha Rá-Tim-Bum foi ganhando o formato com o qual foi produzido. Uma parceria entre a Cultura e a Fundação Bradesco injetou mais dinheiro no projeto, e a temporada foi ampliada de 26 para 54 episódios. Com isso, a ideia finalmente deslanchou. Mas ainda sofreu com atrasos. Prevista para 2001, Ilha Rá-Tim-Bum estreou apenas em julho de 2002.

Semana que vem, o TELE-VISÃO relembra a trama, os personagens e a repercussão de Ilha Rá-Tim-Bum. Até lá!

André Santana

Globo ainda vai dispensar mais gente


Já faz alguns anos que a Globo adotou a postura de não segurar mais artistas que estejam produzindo pouco. Assim que sua direção avalia que alguns medalhões não rendiam mais tanto quanto antes, ela trata de liberá-lo para o mercado. Claro, isso se intensificou mais nos últimos anos, com o tal projeto Uma Só Globo. Mas, anos atrás, quando nomes como Xuxa e Jô Soares se despediram, já havia um indício de uma nova direção.

Com a intensa movimentação do mercado e as novas estratégias de investimento, a coisa foi ficando cada vez mais evidente. Até chegar aos dias de hoje, quando vemos nomes como Miguel Falabella, Vera Fischer e, mais recentemente, Renato Aragão, deixando a casa. Percebemos que se trata de um caminho sem volta. Mas isso não significa que a Globo não quer mais estes artistas. A emissora ainda os deseja, mas só pagará por eles quando eles estiverem produzindo.

Isso ficou ainda mais claro com o anúncio da renovação de contrato de Thiago Fragoso. Ou seja, contratos longos ainda existem na emissora. E Thiago é um exemplo claro do critério adotado. Trata-se de um ator talentoso, muito bem aceito pelos espectadores e um profissional com o qual se pode contar. Ele não recusa papéis, e circula bem por todos os horários de dramaturgia da emissora. Aceita ser o mocinho, o coadjuvante e vilão de Malhação. Ou seja, é um bom negócio para a emissora mantê-lo, já que ele é um curinga. O canal sabe que pode sempre contar com ele.

Quanto aos que não tiveram o contrato renovado, a emissora faz questão de ressaltar de manter as portas abertas. Talvez o caso mais emblemático seja de Otaviano Costa, que deixou a emissora, mas foi convidado pelo GNT e acertou sua participação na Escolinha do Professor Raimundo. Outro caso que é pouco dito, mas que reflete bem este momento, é o de Angélica, contratada apenas para desenvolver seu novo projeto, Simples Assim. Em suma, atores e apresentadores que atuam por temporadas serão contratados por temporadas. Neste meio-tempo, eles ficam soltos no mercado, e podem voltar. Ou não. Não há mais uma rigidez, com contratos bem amarrados para se manter a exclusividade. Isso passou.

Sendo assim, este estranhamento todo percebido a cada anúncio de fim de contrato parece meio descabido. Não é de hoje que a emissora tem agido assim. Tudo bem que é esquisito ver a Globo abrindo mão da exclusividade de nomes que fizeram a sua história. Mas entende-se que se trata de uma movimentação natural do mercado. E que faz todo o sentido nos dias de hoje.

E pode ser ruim para o artista acostumado à segurança de um contrato. Mas, por outro lado, esta nova etapa resulta numa movimentação muito interessante. Renato Aragão, por exemplo, se mostrou animado com a possibilidade de explorar outros mercados. Miguel Falabella também acenou com o ânimo de poder mostrar seus projetos a outros canais ou plataformas, e não apenas à Globo. Num momento em que o streaming parece ganhar força, ter talentos deste tamanho disponíveis para novos projetos parece bom para o futuro do audiovisual brasileiro.

André Santana