sábado, 30 de novembro de 2019

Realista, "Amor de Mãe" tem primeira semana impressionante

"Sua mãe tá aqui!"

Amor de Mãe, nova novela das nove da Globo, é uma aposta ousada da emissora. Embora não deixe de lado elementos de folhetim, no sentido de respeitar as características do gênero que representa, a trama de Manuela Dias imprime uma dose de realidade pouco vista em novelas. Evitando personagens maniqueístas e apostando num entrelaçamento inteligente das tramas que conta, a autora fez sua estreia no horário nobre mostrando maturidade, sangue novo e boa mão para dramas humanos.

A palavra “drama” cabe bem aqui, já que Amor de Mãe é, acima de tudo, um dramalhão bem carregado. A primeira semana da novela foi marcada por mortes, doenças e tragédias dos mais variados tipos. A história narra a saga de três mães, separadas por classes sociais distintas, mas que se cruzam por um acaso. E é esta a principal beleza da engenharia da novela: os personagens se esbarram e se conhecem, sem grandes arroubos ou pirotecnias. E o primeiro capítulo foi bem esperto neste sentido. Conhecemos Lurdes (Regina Casé) quando ela participava de uma entrevista de emprego com Vitória (Taís Araújo). Em seguida, conhecemos a própria Vitória. E, logo depois, Lurdes salva Thelma (Adriana Esteves), que passa mal na rua, nascendo aí uma amizade.

Estas três mulheres são mães, ou estão às voltas com problemas maternos. Lurdes tem quatro filhos, e busca um quinto, que foi vendido pelo pai quando era criança. Já Thelma salvou o filho de um incêndio que vitimou o marido, o que a fez se tornar superprotetora. Agora que ela descobriu que pode morrer a qualquer momento, faz de tudo para amparar a cria, ao mesmo tempo em que esconde do filho sua condição. Por fim, Vitória viveu o drama de perder o filho aos seis meses de gestação. Agora, tenta engravidar, ao mesmo tempo em que está na fila de adoção.

A partir destas três histórias principais, Amor de Mãe vai abrindo um leque de possibilidades. Assim como em Justiça, obra anterior de Manuela Dias, as relações entre as tramas e personagens vão se estabelecendo a partir de encontros casuais, amarrando todas as histórias. Assim, foi possível encontrar personagens de núcleos distintos atuando como figurantes, em cenas de outros personagens, passando praticamente despercebidos. Fazer o espectador notar estes encontros se tornou um dos atrativos da trama nesta primeira semana.

Outra característica interessante é a atitude controversa das protagonistas. Lurdes, sem querer, matou o marido na juventude. Agora, vê este drama se repetir com seu filho Magno (Juliano Cazarré), que acredita ter matado um estuprador. Já Vitória leva o casamento falido de maneira prática, não escondendo de ninguém que seu único intuito é engravidar. Além disso, até hesita, mas não deixa de aceitar dinheiro do caixa dois de seu cliente Álvaro (Irandhir Santos). Enquanto isso, Thelma sufoca o filho, não permitindo que ele faça suas próprias escolhas.

Assim, nesta primeira semana, é possível observar que Manuela Dias veio ocupar uma importante lacuna no horário nobre da Globo. Com um texto sofisticado e absurdamente realista, com dramas palatáveis e ausência de vilões, a autora destoa dos atuais titulares da faixa. Os novelistas que integram o time de autores das 21 horas são adeptos do folhetim rasgado, com heróis idealizados e vilões marcantes. Já Manuela vai na contramão, apostando num drama mais próximo da vida real. Tanto que a autora até dispensou o tradicional núcleo cômico, preferindo imprimir humor em situações aleatórias, ao invés de acionar um grupo de personagens para isso (aliás, melhor escolha! Os autores mais têm errado que acertado em núcleos cômicos. Se for apenas pra cumprir tabela, é melhor não ter mesmo).

Se é possível compará-la com alguém, Manuela Dias remete a Manoel Carlos, no sentido de imprimir veracidade em cenas, situações e diálogos. Porém, Manuela foge da crônica carioca tão característica de Maneco, apostando numa narrativa urbana e contemporânea. A direção arrojada de José Luiz Villamarim casa perfeitamente com a proposta, dando a Amor de Mãe um tom documental que impressiona. Além do texto acima da média, Amor de Mãe conta com um elenco de primeira, que imprime ainda mais emoção às cenas. Adriana Esteves e Taís Araújo estão irretocáveis como heroínas imperfeitas. Mas o grande destaque é Regina Casé, que volta às novelas em grande estilo. Sua Lurdes é de carne e osso, bastante reconhecível.

Assim, Amor de Mãe causou a melhor das impressões em sua primeira semana. É uma trama tensa, adulta e cheia de possibilidades. Seu grande desafio será manter esta proposta ao longo de mais de 150 capítulos, sem perder o fôlego. Afinal, ao optar pela narrativa realista, Manuela Dias abre mão de recursos e clichês que costumam segurar uma obra tão longa quanto uma novela. Mas não é impossível. Torçamos para que consiga e que Amor de Mãe possa provar que novela é um gênero que pode sair do lugar-comum.

André Santana

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Globo enfraquece seu sábado ao insistir no "SóTocaTop"

"A gente grita
pra acordar você!"
Quando optou por extinguir o Estrelas, a direção da Globo sinalizou que faria nas tardes de sábado o mesmo que faz nas tardes de domingo, reservando uma faixa da programação para atrações de temporada. Ou seja, assim como o The Voice Kids, Tamanho Família, Escolinha do Professor Raimundo e PopStar se revezam nas tardes de domingo, novos programas ocupariam o espaço deixado por Angélica aos sábados.

Assim, Estrelas saiu do ar e foi substituído pela série As Matrioskas, que funcionou como uma espécie de “esquenta” à Copa do Mundo. Aí estreou o SóTocaTop, programa que resgatou os musicais na TV aberta. Previsto para durar de três a quatro meses, a atração, que inicialmente era apresentada por Luan Santana e Fernanda Souza, acabou atravessando o segundo semestre de 2018. Saiu do ar e abriu espaço para o Tá Brincando!, esperado voo solo de Otaviano Costa. Em março de 2019, a primeira temporada do game show foi encerrada e SóTocaTop retornou, agora promovendo um rodízio de apresentadores.

Desde então, não se falou mais em projetos para o horário. Ou até falou, mas nada muito concreto. Por exemplo: quando noticiou que Angélica gravava o piloto de seu novo projeto, a colunista Fabia Oliveira disse que a atração poderia ocupar a tarde de sábado a partir de abril. Mas, sabe-se, o tal projeto está estacionado. Mesmo assim, outros colunistas afirmavam que o programa poderia ser noturno. Ou seja, não há nada certo quanto a um novo programa que pudesse vir a ocupar a lacuna do musical.

O que se sabe é que o SóTocaTop não vai sair do ar tão cedo. Para janeiro, estão previstas edições de verão do musical, que serão apresentados por Mumuzinho e Ludmilla e terão um formato diferente do atual. E é aí que a coisa pega. SóTocaTop, de repente, é comercialmente interessante, mas nunca foi um estouro de audiência. Pelo contrário. O Estrelas, em seus piores dias, pontuava melhor que a atração atual.

Além disso, ninguém tem muita paciência pra ficar vendo um programa baseado em música atrás de música. Hoje, quem quer ouvir música tem um monte de opções na internet, ou aplicativos, ou o que seja. Neste contexto, o SóTocaTop não é apenas desnecessário, como é cansativo. Os artistas se repetem semana a semana, e não há como fugir disso. Por isso mesmo, o ideal seria voltar ao plano inicial, com temporadas mais curtas. Se durasse apenas três meses, SóTocaTop não aborreceria tanto. Hoje, assisti-lo é um teste de paciência. Uma pena.

André Santana

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Sem Gugu, Record terá que repensar linha de shows

É consenso entre o público que Gugu Liberato não vinha ocupando o espaço que merecia na TV. Há dois anos, o saudoso animador havia trocado o programa de variedades que levava seu nome pelo comando de reality shows. Entretanto, por mais que Power Couple Brasil e Canta Comigo não sejam exatamente o Programa do Gugu, é fato que eles ocupavam importantes espaços no horário nobre da Record. E, sem Gugu, que nos deixou na semana passada, o cenário muda.

Antes do falecimento de Gugu, as informações sobre a grade de 2020 da Record estavam desencontradas. Inicialmente, falou-se que os programas de Gugu seriam renovados e teriam novas temporadas. Mas, pouco antes da tragédia que vitimou o apresentador, vinha ganhando força a informação de que o canal buscava novos formatos para Gugu apresentar. 

Sendo assim, poderia ser esse o momento para que a Record repensasse a linha de shows. Afinal, o Power Couple Brasil teve uma temporada bem menos empolgante em 2019. Além disso, a emissora já exibe A Fazenda, e os dois realities, apesar das diferenças, exploram demais a questão do confinamento e suas dificuldades. Ou seja, por mais que sejam distintos, eles têm semelhanças que davam a sensação de “mais do mesmo”. Por isso, seria mais interessante para a Record ficar apenas com um deles.

Já o Canta Comigo é uma competição musical interessante e muito bem-feita. Mas acontece com o programa o mesmo que com o Power Couple: a repetição de formatos na grade. A Record lançou neste ano o The Four, com Xuxa Meneghel, que também aposta numa competição musical. O The Four já está com a nova temporada garantida. Assim, ele poderia ser a única competição musical da programação da emissora. Seria melhor no sentido de diminuir a sensação de repetição.

Nesta noite, 27, a Record exibe a semifinal do Canta Comigo, como uma forma de homenagear Gugu. Na quarta que vem, 04, irá ao ar a final. O apresentador deixou gravado os episódios finais da atração. Será a despedida de Gugu. Resta saber, então, como a Record montará sua grade do ano que vem, já sem este importante nome em seus quadros. 

André Santana

sábado, 23 de novembro de 2019

"A Dona do Pedaço" termina como começou: capenga

"Alguém ainda aguenta
o bolo mágico?"

O autor Walcyr Carrasco já declarou que não gosta de críticos, e que nem lê as críticas sobre suas obras. Segundo ele, a crítica esperneia, enquanto o povão vibra com suas histórias. Mas eu tenho lá minhas dúvidas se Walcyr passa incólume por uma crítica que seja às suas novelas. Tenho a impressão que ele as lê, sim, e se diverte com o “esperneio”. E, com certeza, ele escreveu a cena final de A Dona do Pedaço já se divertindo com a repercussão do desfecho de seu mais recente sucesso. Só isso explica a cena final, tosca, da vilã Josiane (Agatha Moreira) olhando para o espectador com olhar macabro, sugerindo possessão, no melhor estilo “terror trash”.

Uma das principais entre as muitas críticas que A Dona do Pedaço recebeu foi justamente a falta de um motivo concreto para o ódio que Josiane tinha da mãe, Maria da Paz (Juliana Paes). O fato de ela ter sofrido bullying na infância por ser filha da “boleira”, ou o fato de a mãe não apoiá-la como ela desejava no sonho de ser digital influencer nunca justificou Josiane ter se tornado uma golpista, ou uma assassina fria. E a crítica bateu tanto nessa tecla, que o autor resolveu se divertir com a situação. Colocou a irrelevante personagem de Rosamaria Murtinho para dar o diagnóstico de que Josiane era uma psicopata. A professora, que revelou ser pós-graduada em psicologia, nunca nem viu a cara da filha de Maria da Paz. Mas deu seu veredicto.

Depois, Amadeu (Marcos Palmeira) também deu o seu diagnóstico. Para o advogado, a filha era uma bandida por causa do sangue ruim de sua família, de matadores. Mas Maria da Paz e ele mesmo também são descendentes destas famílias, e se tornaram pessoas boas. Ou seja, algo errado não está certo. Assim, Carrasco tratou de colocar mais um motivo em cena: Josiane tinha mesmo era o capeta no corpo! Agora tudo faz sentido...

Brincadeiras à parte, o fato é que A Dona do Pedaço teve um desfecho tão capenga quanto toda a sua trajetória. O Romeu e Julieta entre matadores até que começou bem, mas logo descambou para o característico pastiche de Carrasco. Situações frágeis, personagens de personalidade mutante, furos e reviravoltas sem sentido. Isso já é uma marca da obra de Carrasco, sobretudo em suas novelas na faixa das 21 horas.  E é uma fórmula infalível, sem dúvidas, já que os bons resultados da história falam por si.

Por isso mesmo, A Dona do Pedaço teve seus méritos. Se a trama não fazia sentido, os pontos de virada faziam o público ficar ligado na novela. Trata-se de um estilo que não agrada quem gosta de uma história minimamente coerente. Mas foi a fórmula que Walcyr Carrasco criou, e que funciona. Há um público para isso. Sendo assim, o problema maior não é a falta de sutileza do autor, mas sim a sua presença cada vez mais constante. A Dona do Pedaço estreou cerca de um ano depois de O Outro Lado do Paraíso, outra novela no qual o autor abusou de tal estilo. A coisa vai ficando repetitiva, pasteurizada mesmo. Isso não é bom.

Neste festival de diálogos toscos, situações inverossímeis, incoerência e personalidades mutantes, alguns se salvaram com alguma dignidade. Juliana Paes demorou a encontrar o tom da heroína, trocando o sotaque a cada cena. Mas, na reta final, ela finalmente achou o ponto de Maria da Paz, uma personagem tão ingênua (pra não dizer outra coisa), que só o fato de ela ter conseguido fazer dignamente já a valoriza. Nathalia Dill também conseguiu imprimir ironia e humor à sua freira do mal Fabiana, dando alguma graça à vilã. Monica Iozzi (Kim) e Suely Franco (Marlene) também foram bem.

Paolla Oliveira começou bem com sua saltitante Vivi Guedes, mas a personagem foi ficando over com o tempo. Começou com pequenos pulinhos, terminou praticamente no salto com vara. Mas nada foi pior do que o núcleo de humor formado pela família do Bixiga. E o núcleo até começou bem, com um humor non sense que tinha sua graça. Mas, aos poucos, a família foi perdendo espaço e se colocando em situações cada vez mais constrangedoras. Momento triste para medalhões do naipe de Marco Nanini (Eusébio), Rosi Campos (Doroteia), Betty Faria (Cornélia) e Tonico Pereira (Chico), entre outros. A sequência da mão com vida própria de Eusébio foi uma das coisas mais toscas já vistas nos últimos tempos.

Em suma, A Dona do Pedaço cumpriu sua missão de reerguer os números do horário nobre, após o fiasco de O Sétimo Guardião. Mas também deixou claro que Walcyr Carrasco precisa de umas férias maiores na faixa. Sua verve de “reciclador de histórias” pode até dar audiência, mas acrescenta nada ao gênero. Pelo contrário.

André Santana

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Valeu, Gugu!


Quem é fã de televisão com certeza há de ter uma história com Gugu. Eu tenho, e várias. Aliás, das primeiras lembranças que eu tenho de mim mesmo diante de um aparelho de TV, era Gugu quem estava na tela. Me vem cenas na cabeça da minha família reunida: meu pai, minha mãe, minha irmã e eu, deitados todos juntos, na cama dos pais, diante do pequeno CCE com controle remoto (que me deixava fascinado), assistindo ao Viva a Noite. Lembro das provas malucas, das celebridades adivinhando os desenhos, fazendo mímicas e criando declarações de amor tendo que encaixar nas frases os objetos que Gugu mostrava durante o discurso.

Havia um quadro em específico que me marcou muito. O Parece Mentira, Mas Não É, apresentava notícias bizarras que o narrador jurava que eram reais. Havia uma mulher grávida no pé (!), ou um bebê que nasceu com chifres e rabo... Coisa mais esquisita! Lembro que tive pesadelos com estas duas notícias...

Mais tarde, outros programas do Gugu marcaram minha infância. Assistia todo santo domingo games como Passa ou Repassa e TV Animal, dois formatos divertidos e que me fizeram prestar atenção em Gugu. Outros programas que minha memória teima em lembrar foram os “esquecidos” Programa de Vídeos, com uma seleção de gags a la “videocassetadas”, e o PlayGame, que tinha o feito de transportar crianças para dentro do videogame! Meu sonho!

Aí veio o Domingo Legal. Que eu via religiosamente, todo domingo, na primeira fase, quando era uma versão vespertina do Viva a Noite. A batalha entre o time de homens contra o time de mulheres, com provas super divertidas, entretinha o meu domingo e o de minha família. Neste contexto, a lembrança que vem é de um domingo chocante: quando Gugu cobriu a morte do grupo Mamonas Assassinas, uma febre que vivi intensamente. Que domingo triste!

Quando o Domingo Legal foi se tornando um programa de variedades mais competitivo, eu fui perdendo o interesse. Via uma coisa ou outra, mas nunca mais fui espectador assíduo de Gugu. Por mais que aquela tenha sido sua melhor fase, quando ele batia o Domingão do Faustão todo domingo, o meu interesse já havia se dissipado. Ainda tinha um profundo respeito por Gugu, mas deixei de ser seu espectador.

Depois do apogeu, o Domingo Legal viveu sua queda. Após a falsa entrevista do PCC, Gugu foi perdendo o fôlego. A atração pareceu mais preguiçosa, com poucos quadros verdadeiramente atrativos. Voltei a vê-lo, mas não reconhecia mais aquela alegria, de grande animador de auditório que foi. Aí veio a mudança para a Record, a ótima estreia do Programa do Gugu e a recuperação do viço. Gugu parecia mais feliz, e isso era muito bom!

Nesta fase de altos e baixos, Gugu teve alguns méritos. O maior de todos foi ter feito uma grande apresentação do Power Couple Brasil, dando um ritmo e uma emoção que seu antecessor não tinha. No Canta Comigo, sua participação não era das maiores, mas sua estrela ajudava a fazer do talent show um programa grandioso. E ele parecia feliz ali. E é isso o que importava, afinal. E eu voltei a assistir ao Gugu.

Na última quarta-feira, 20, assisti ao Canta Comigo com prazer. Programa redondo, com grandes apresentações musicais e um apresentador acima da média. Gugu era maior que os formatos que vinha apresentando, é verdade, mas sua presença valorizava os seus dois programas. Não imaginei que, no dia seguinte, o noticiário seria tomado pela tragédia que o vitimou.

Vá em paz, Gugu! Obrigado por reunir minha família diante da TV e nos divertir nas noites de sábado e tardes de domingo. Obrigado por me fazer companhia nas noites de quarta-feira. Obrigado por ter colaborado por fazer da TV brasileira minha paixão, e a paixão de muitos brasileiros. Obrigado!

André Santana

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Mudança de horário do "Jornal da Record" mostra que novelas bíblicas perderam força

"Tirando a poeira do deserto
das novelas bíblicas..."
A partir do dia 2 de dezembro, a Record promove uma importante mudança em sua programação. O Jornal da Record, atualmente exibido por volta das 21h30, passará a ser exibido às 19h45, logo depois do Cidade Alerta. Deste modo, as novelas da emissora serão empurradas para mais tarde: Topíssima entrará às 20h30, e a reprise de O Rico e Lázaro começará às 21h30. A novidade reafirma o interesse da emissora em fortalecer seu jornalismo, deixando a dramaturgia em segundo plano.

Exibido na faixa das 21h30, o Jornal da Record enfrenta problemas. O noticioso entra no ar tarde demais, quando todas as informações já foram dadas. Além disso, bate de frente com a novela das nove da Globo, o que fatalmente afeta a audiência. Deste modo, o jornal de Celso Freitas e Adriana Araújo perde relevância e, consequentemente, público. Sendo assim, “colá-lo” ao Cidade Alerta é uma tentativa de reerguer o noticiário.

Num ano em que a Record priorizou o jornalismo, nada mais oportuno do que tratar melhor o seu principal noticiário. Em 2019, o canal reformulou seus jornais matinais, fez novas contratações no jornalismo e colocou em prática o seu principal projeto no segmento, o boletim JR 24h. Ou seja, todos os esforços foram feitos para fortalecer o jornalismo, que, neste momento, se colocou como o carro-chefe da programação da emissora. Atrações como Balanço Geral ou Cidade Alerta apresentam melhores resultados do que a linha de shows, programas de entretenimento ou… novelas.

No entanto, ao colocar o Jornal da Record num horário melhor, a emissora sacrificará o seu projeto de dramaturgia bíblica. A reprise de O Rico e Lázaro, que já apresenta um resultado mediano em seu atual horário, será prejudicada ao bater de frente com a novela das nove da Globo. Assim, a inédita Gênesis, que estreará no ano que vem, terá a dura missão de erguer uma faixa já combalida, e num horário de forte concorrência.

Enquanto isso, os últimos capítulos de Topíssima e os primeiros de Amor Sem Igual, nova novela “não-bíblica” da emissora, serão exibidos num horário mais nobre. Ou seja, pela primeira vez em anos, a Record reservará seu melhor horário de novelas para uma trama contemporânea. Sem dúvidas, trata-se de uma mudança de estratégia. Os resultados de Gênesis, neste contexto, indicarão o rumo da dramaturgia bíblica do canal.

Porém, fica claro que a atual menina dos olhos da direção da Record é o jornalismo. O desempenho do Jornal da Record no novo horário pode colocar em xeque todo o investimento da emissora no entretenimento, que não tem resultados tão expressivos. Resta saber, então, onde isso vai parar.

André Santana

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Record quer globais, diz colunista. Mas o que eles fariam lá?

"Será que tem vaga
no 'Hoje Em Dia'"?
Recentemente, o colunista Ricardo Feltrin, do UOL, noticiou que a direção da Record está de olho em alguns artistas que estariam insatisfeitos na Globo. Com a nova política do canal, que vem reduzindo salários e dispensando figuras pouco produtivas de seu elenco, seria um momento propício para a concorrência acenar com um polpudo contracheque. Porém, cabe a questão: o que estes artistas fariam na emissora de Edir Macedo, que mal dá conta de seus próprios contratados?

Segundo Fetrin, dois nomes que despertaram o interesse da Record são figuras do É de Casa: Patrícia Poeta e Zeca Camargo. E aos dois, o destino seria o mesmo, a apresentação do Domingo Espetacular. O dominical, que nasceu à imagem e semelhança do Fantástico, da Globo, repetiria então uma dupla que funcionou muito bem ali na sua "fonte de inspiração". O colunista apurou que a direção da Record chegou a sondar Poeta, mas desistiu quando descobriu que o contrato da apresentadora vai até 2021.

Mas o caso de Zeca Camargo ainda pode render desdobramentos. Seu contrato com a Globo vence no ano que vem, e rumores dão conta de que o apresentador não estaria satisfeito com a renegociação salarial, e nem com o espaço que ocupa atualmente na programação. Ou seja, não seria de todo impossível que Zeca partisse para novas experiências em 2020. 

Porém, o nome mais surpreendente (ou não) da lista enfileirada por Feltrin seria o de Angélica. O colunista afirmou que o atual acordo da loira com a Globo também deve vencer em 2020. E, com a indefinição de seu novo programa, a concorrência poderia aproveitar para tentar levá-la e oferecer um espaço almejado. Como se sabe, o piloto da nova atração da loira está estacionado, em razão da indefinição quanto ao futuro político de seu marido, Luciano Huck. Mas a própria Angélica já declarou que ela não se vê na TV caso a carreira política de Huck realmente emplaque. Ou seja, se mudasse de emissora, sua permanência no ar seria curta. 

É natural que emissoras fiquem de olho em valores sem espaço na concorrência. Mas a Record parece que não tem espaço nem mesmo para seus medalhões. Nomes como Gugu, Xuxa e Marcos Mion se tornaram mestres de cerimônias, dando as caras na programação por curtos períodos do ano. Até esses dias, Sabrina Sato também estava na geladeira, de onde só saiu porque abriu uma vaga aos domingos. Sendo assim, por que motivo a Record contrataria Angélica, por exemplo? Para lhe entregar mais um formato de gosto duvidoso? E, no caso de Zeca Camargo, valeria a pena se arriscar para assumir um genérico do Fantástico, sendo que ele já esteve à frente do original?

Sem dúvidas, a Globo tem mais artistas que espaço. E é evidente outras emissoras podem oferecer este espaço a eles. Mas é preciso planejamento. Se a Record tem interesse em novas contratações, é preciso, antes de mais nada, que haja um plano concreto para tal. Senão, não faz sentido. 

André Santana

sábado, 16 de novembro de 2019

RedeTV faz 20 anos com pouco a comemorar

"Garantindo minha fatia
do bolo publicitário"

Os últimos dias não foram tão bons na RedeTV. Na semana em que o canal de Amílcare Dallevo e Marcelo de Carvalho comemora 20 anos da estreia de sua grade de programação, o noticiário televisivo foi tomado por notícias dando conta das demissões e cortes na emissora. Talvez a mais simbólica das dispensas tenha sido a da jornalista Claudia Barthel, apresentadora que estava no ar ainda na extinta Manchete, esteve na fase de transição entre as emissoras e foi a comandante do RTV, segundo jornal da história da emissora, exibido na hora do almoço. Nestes 20 anos, Claudia passou por vários programas jornalísticos da RedeTV e era prata da casa.

Infelizmente, crises fazem parte da história da RedeTV. A emissora começou já enfrentando o fantasma das dívidas da Manchete, em um imbróglio que se arrastou por anos a fio. Ao mesmo tempo, a expectativa de contar com uma grade regular esbarrou na falta de recursos, obrigando a emissora a dispensar boa parte de sua programação a concessionários. Em seus primeiros anos, a RedeTV não tinha uma grade matinal, toda tomada por religiosos e televendas. Hoje, os espaços alugados estão em blocos distintos da programação, como o início da manhã, a faixa entre 13h e 15h, o espaço entre 17h e 18h, e até o horário nobre, das 20h30 às 21h30.

A emissora chegou a respirar e ensaiar uma recuperação, quando enxugou custos e alugou o horário nobre. Mas a crise atual, que afeta não apenas a RedeTV, mas todas as emissoras, obrigou o canal a tomar novas medidas. Além de dispensas, como a de Claudia Barthel, a RedeTV também cortou horas extras, o que vai afetar sua programação noturna. Programas como Superpop e Leitura Dinâmica deixam de ser ao vivo.

O mais curioso deste triste cenário é que a RedeTV parece uma emissora de contrastes. Ao mesmo tempo em que dispensa funcionários e enxuga custos, o canal ostenta um dos maiores e mais tecnológicos complexos de estúdios da TV brasileira. A emissora sempre se orgulhou estar na vanguarda da modernidade, tornando-se pioneira no Brasil na transmissão em alta definição e 3D. Tanta tecnologia nunca se justificou na prática, afinal, assistir programas estáticos, como A Tarde É Sua, Tricotando e TV Fama em 3D não parece lá muito atrativo.

Enquanto isso, Marcelo de Carvalho, vice-presidente e apresentador da RedeTV, tomou para si a missão de brigar para tentar reverter o que, segundo ele, é uma distorção. O empresário reclama, nas redes sociais e em entrevistas, que a distribuição de publicidade entre os canais abertos é injusta, já que “a Globo tem 30% de audiência e 80% do bolo publicitário”. Uma colocação que poderia até fazer sentido, se Marcelo também tivesse a boa vontade de fazer uma autoavaliação. Afinal, o que a emissora dele está fazendo para conquistar o respeito do mercado publicitário?

Não é preciso ser um especialista em mercado para entender que os anunciantes, de maneira geral, não gostam de vincular suas marcas a conteúdo de gosto duvidoso. E, infelizmente, a RedeTV ainda é especialista neste filão. Com uma programação tomada por segredos fakes, debates infundados e o chafurdamento da vida de celebridades e subcelebridades, a RedeTV confunde o popular com o popularesco. Ao mesmo tempo, as opiniões polêmicas do dono respingam em seu departamento de jornalismo, único segmento do canal que poderia agregar algum prestígio à emissora.

A RedeTV nasceu com o slogan “uma opção de qualidade na sua TV” e a bela intenção de ser um canal sofisticado, com uma grade variada e tomada por bons filmes, boas séries e programas de cunho informativo e cultural. Mas não conseguiu se fazer relevante com esta proposta, descambando para o popular poucas semanas depois de sua estreia. E tudo bem. A emissora não precisa ser uma nova BBC, mas também não precisava descer tão baixo. Afinal, programação popular não precisa ser, necessariamente, de mau gosto.

Ou seja, neste aniversário de 20 anos, a RedeTV precisa avaliar se vale a pena continuar gritando para ser vista, ou se a resposta junto ao mercado publicitário seja justamente a mudança de direção, no sentido de fazer um canal minimamente mais atrativo. Não vai acontecer, afinal, o canal tem 20 anos e, até hoje, não fez esta autocrítica. Mas é o único caminho possível. Gritar e espernear não vai adiantar.

André Santana

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

"As Aventuras de Poliana" perde fôlego, mas SBT insiste na trama

"Oi, eu sou a filha da Poliana!"

Não faz muito tempo que repercutimos por aqui a decisão do SBT de apostar numa “segunda temporada” de As Aventuras de Poliana. A novela de Iris Abravanel, baseada na obra de Eleanor H. Porter, inicialmente seria encerrada em meados de 2020, completando dois anos no ar. Mas a direção da emissora optou por prolongá-la, e a novela ganhará novos personagens e tramas para uma segunda temporada, na tentativa de levar a história até 2021. Estão previstas mudanças de rumo e de elenco para manter a novela de pé.

A decisão é essencialmente financeira: é mais barato para o canal manter uma novela no ar do que estrear uma nova produção. Porém, uma matéria do Notícias da TV, publicada esta semana, mostra que a emissora se arrisca ao apostar neste prolongamento desenfreado. O texto, publicado no dia 13 de novembro, mostra que As Aventuras de Poliana deixou de ser o programa mais visto do SBT.

Segundo a matéria, os programas Roda a Roda e Cúmplices de um Resgate estão se alternando na liderança do ranking de audiência dos programas do SBT. Enquanto isso, As Aventuras de Poliana, que chegou a ser um fenômeno na casa dos 17 pontos no Ibope, atualmente mal chega aos dois dígitos de audiência. É uma queda significativa, que mostra que a emissora assume um alto risco ao insistir na produção.

Infelizmente, o SBT parece incapaz de perceber sinais claros. Quando uma novela com a força de As Aventuras de Poliana perde espaço para um game show surrado e uma reprise de novela, é preciso fazer uma autoanálise. Está claro que a novela infantil, formato que foi a menina dos olhos da emissora nos últimos sete anos, precisa ser reavaliado.

A verdade é que uma novela longa pode ser boa economicamente falando, mas para o público a coisa não é bem assim. Ainda mais numa novela infantil, que atinge um público em crescimento. Se a trama for longa demais, a tendência é que o público cresça e, naturalmente, perca o interesse pela mesma. Assim, esta decisão do SBT pode pesar contra o próprio formato. E as consequências podem ser graves.

André Santana

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

"O Selvagem da Ópera" é mais uma supersérie da Globo que vira novela das seis

"Gente, não me deixam
fazer meu 'Selvagem' em paz!"

De acordo com os critérios adotados pela Direção de Teledramaturgia da Globo, há uma curta distância que separa as narrativas de uma novela das seis e uma supersérie (ou novela das onze, para os íntimos). Afinal, só isso explica a quantidade de tramas concebidas para um horário que acaba indo parar no outro, e vice-versa. O mais recente caso é O Selvagem da Ópera, de Maria Adelaide Amaral, que seria uma supersérie exibida em 2020, mas foi convertida numa novela das seis recentemente.

A notícia não é nova, mas não tive tempo para comentar aqui anteriormente. Mas é isso: a trama sobre a vida do compositor Carlos Gomes está sendo reestruturada para se tornar uma novela das seis. A troca se deveu a uma mudança de estratégia da Globo, que resolveu não mais apostar em “superséries”, e sim em novelas de curta duração para o GloboPlay. Verdades Secretas 2, de Walcyr Carrasco, é que abrirá o novo formato, com previsão de estreia no streaming da Globo no ano que vem.

Curiosamente, a história de Maria Adelaide Amaral não foi a primeira a passar por esta transformação. Anos atrás, quando a supersérie ainda se chamava novela das onze e era um espaço para remakes, a autora Lícia Manzo propôs a primeira história original para o horário. Tratava-se de Sete Vidas. Porém, logo após as primeiras notícias da nova produção, Sete Vidas acabou anunciada como novela das seis. Com isso, Verdades Secretas foi o primeiro texto original no horário.

Mais tarde, as autoras Alessandra Poggi e Ângela Chaves conceberam uma novela das seis que teria a Ditadura Militar como pano de fundo. Tratava-se de Os Dias Eram Assim. Mas a Direção de Teledramaturgia avaliou que a história poderia render uma novela das onze, e a produção mudou de horário. Deste modo, Os Dias Eram Assim se tornou a primeira novela das onze a ganhar a alcunha de “supersérie”.

Recentemente, outro caso semelhante aconteceu. Após o veto de O Homem Errado, que marcaria a estreia de Duca Rachid e Thelma Guedes no horário das nove, as novelistas passaram a se dedicar a uma nova novela das seis, que trataria do drama dos refugiados de guerra no Brasil. Com a sinopse em mãos, a direção achou que a história renderia uma supersérie. Então mudou de horário. Porém, com a entrega dos primeiros capítulos, a direção voltou atrás e achou que a nova história deveria ser mesmo uma novela das seis, como originalmente concebida. Nasceu assim Órfãos da Terra.

Houve também o caso de uma novela das onze que virou minissérie, e que acabou engavetada. Trata-se de Jogo da Memória, de Lícia Manzo. Uma trama que parecia ousada, já que trataria de incesto e seria passada em três épocas distintas ao mesmo tempo. A história nasceu para ser novela das onze, mas após a entrega dos primeiros capítulos, a Globo achou que a trama não renderia 88 capítulos, que era a previsão inicial. Assim, pediu para que a trama fosse convertida em uma minissérie de dez capítulos. Depois disso, a história sumiu da linha de produção sem deixar rastros. Segundo consta, Lícia concluiu a história e a entregou, mas ninguém sabe se será produzida algum dia. Enquanto isso, a novelista prepara sua primeira novela das nove, prevista para substituir Amor de Mãe. Quer dizer, isso se não resolverem transformar Em Seu Lugar (título provisório) em novela das seis, das onze, minissérie, série do Gloob...

André Santana

sábado, 9 de novembro de 2019

Clã Abravanel é esforçado, mas não está pronto para substituir Silvio Santos

"Chama o leiloeiro!"

Desde que a família Abravanel começou a se aventurar em frente às câmeras, seguindo os passos do apresentador Silvio Santos, o espectador foi levado a buscar, entre os herdeiros do “patrão”, qual deles seria o seu sucessor natural no vídeo. As filhas Patrícia Abravanel, Silvia Abravanel e Rebeca Abravanel, além do neto Tiago Abravanel, estão à frente de programas do SBT e dispostos a dar seguimento ao legado do pai (ou do avô). Enquanto isso, o próprio Silvio Santos insiste em fazer de suas filhas suas sucessoras, numa tentativa de fazer do SBT uma empresa familiar. Mas a coisa ainda parece longe de acontecer.

O maior exemplo da esperança depositada por Silvio Santos aos seus herdeiros é o final do Teleton. A campanha televisiva em prol da AACD sempre teve como principal atração o seu encerramento, quando o próprio Silvio dividia o palco com Hebe Camargo. O encontro dos dois veteranos era sempre regado a improviso, situações inusitadas, trocas de farpas e elogios mútuos, tentativas de “selinho”... enfim. Eram anos de experiência reunidos num único palco, para deleite dos espectadores aficionados pela TV. Era a história viva da TV fazendo mais história na TV.

Porém, desde a morte de Hebe Camargo, o Teleton passou a ser encerrado por Silvio Santos ao lado de sua família. Patrícia Abravanel, Rebeca Abravanel, Silvia Abravanel e Tiago Abravanel já dividiram o palco com o avô no desfecho em alguns momentos. Assim, o Teleton perdeu uma de suas graças. A família Abravanel no palco não rendia tão bons momentos como nos tempos de Hebe Camargo.

Há duas semanas, a coisa ficou pior. Silvio Santos, acometido por uma gripe, não pode comparecer ao encerramento do Teleton. Assim, as filhas Patrícia, Silvia e Rebeca tiveram que encerrar a campanha sozinhas. Aí, ficou bastante exposto que nenhuma delas ainda está pronta para serem consideradas sucessoras do pai. Completamente perdidas em cena, elas fizeram do encerramento do Teleton uma verdadeira bagunça. Tanto que Mauro Zukerman, leiloeiro que apresentou programas no SBT nos anos 1980 e 1990, surgiu em cena para tentar ajudá-las.

Nada contra nenhuma das filhas de Silvio Santos. À frente do Roda a Roda, Rebeca Abravanel mostra graça e espontaneidade. Já Patrícia, ainda lhe falta repertório, mas ela funciona bem como “mestre de cerimônias”. É correta. Quanto à Silvia, sua porção apresentadora vista no Bom Dia e Cia nunca foi lá muito adequada, mas não chega a ser uma atuação comprometedora. Porém, é isso. Claro que a experiência pode fazê-las evoluir, mas dificilmente uma delas vai repetir o magnetismo do pai.

Enquanto isso, Tiago Abravanel parece o mais preparado do clã. Os anos de teatro lhe deram desenvoltura e repertório, e ele caminha para se tornar um bom apresentador. Mas, até aqui, pouco foi visto dele como apresentador de fato. Seja como coadjuvante no PopStar, na Globo, ou seja agora à frente do Famílias Frente a Frente, no próprio SBT, seu espaço como comunicador ainda é limitado. É preciso esperar para vê-lo em voos mais ousados para uma conclusão mais efetiva. Mas ele é talentoso, isso é fato.

Mas todas estas experiências parecem deixar claro que Silvio Santos erra ao apostar suas fichas em seus parentes. No passado, ele via Gugu Liberato como seu sucessor nos domingos do SBT. Depois, Celso Portiolli foi apontado como sucessor. E a verdade é que o SBT possui em seu cast bons animadores. Além de Celso, a emissora tem em Ratinho e Eliana dois nomes que possuem uma desenvoltura acima da média como condutores de programas de auditório.

Em suma: sempre pareceu natural que o Teleton, na ausência de Hebe Camargo, deveria ser encerrado por Silvio ao lado de Celso e Eliana, seus companheiros nos domingos do SBT. Mais do que isso: o sucessor artístico de Silvio Santos não devia ser um parente seu, e sim algum artista que foi criado dentro dos domínios da Anhanguera. Claro, quando se fala em sucessor, não se fala em alguém que reúna as mesmas características, já que Silvio, neste contexto, não tem e nem terá sucessores. O que se fala é de algum artista que seja capaz de manter, com o mínimo de dignidade, a tradição dos auditórios dominicais do SBT, criada pelo próprio Silvio Santos.

Silvio é insubstituível. Porém, em sua ausência, o show não pode parar. E, como foi visto no Teleton, não serão as filhas dele que farão o show continuar.

André Santana

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

História da TV: Relembre a história do "Namoro na TV e Etc", programa que nasceu do improviso

"Você canta, dança ou etc?"
Tem coisas que são mesmo a cara do SBT. O nascimento, apogeu e queda do Namoro na TV e Etc, programa de nome infame comandado por Celso Portiolli, aconteceu de maneira tão improvisada (praticamente por acaso), que acabou por se tornar um momento curioso da história da TV. Entre o final de 2006 e início de 2007, o apresentador deixou de ser mero apresentador de intervalo na Sessão Premiada para comandar um programa que chegou de surpresa à grade do SBT.

Tudo começou quando, do nada, Silvio Santos decidiu dar férias à Adriane Galisteu, que, na época, comandava o Charme nas tardes do SBT. E optou por entregar o vespertino nas mãos de Celso Portiolli, até então ocupado apenas com a Sessão Premiada, exibida nas tardes de sábado e manhãs de domingo. Com a chegada de Celso, o programa mudou. Adriane comandava uma revista eletrônica, com entrevistas, debates e reportagens (um dos trocentos formatos que o Charme teve). Com Celso, o programa priorizou games e o “quadro do namoro”. Era um quadro sem nome, chamado simplesmente de “quadro do namoro”, no qual Portiolli recebia jovens para flertar. Na atração, uma pessoa ficava de um lado de um biombo, enquanto outras três do outro lado. Celso fazia perguntas e propunha jogos, até que o solitário escolhia com quem ficar, sem ver. Em suma, uma versão simplificada do Xaveco, programa que Celso apresentou no final da década de 1990 e que, hoje, é um quadro do Domingo Legal.

Não se falou muito sobre isso na época, mas a impressão que passou foi que o SBT tentava ir no rastro da Record que, na mesma época, apostava no Jogo do Namoro, quadro do Programa da Tarde que era apresentado por Maria Cândida e tinha formato semelhante. Os dois programas eram exibidos mais ou menos no mesmo horário.

Pois muito que bem. Nos primeiros meses de 2007, Adriane Galisteu voltou das férias. Mas não retomou seu espaço nas tardes do SBT. Em vez disso, a apresentadora retomou seu Charme numa versão semanal, exibido nas noites de segunda-feira. Enquanto isso, Celso Portiolli seguiu nas tardes de segunda a sexta, e o Charme vespertino mudou de nome. Num dia, era Namoro na TV. No outro, era Namoro e Etc. Por fim, o programa chegou ao nome definitivo, Namoro na TV e Etc. Isso porque o quadro do namoro seguia como o carro-chefe da atração, mas o programa tinha outros quadros (por isso o “Etc”… coisas de Silvio Santos).

O mais louco disso tudo é que o Charme nas noites de segunda e o Namoro na TV e Etc nas tardes compartilhavam do mesmíssimo cenário. Só mudava o conteúdo. Charme era essencialmente um programa com musicais e entrevistas, enquanto o Namoro na TV e Etc apostava em games. Porém, essa situação ridícula durou pouco tempo. Logo o SBT optou por reformular o Charme, que, com novo cenário e formato, passou a ser um talk show diário nas madrugadas (foi sua melhor fase, diga-se, mas poucos se lembram disso).

Enquanto isso, Namoro na TV e Etc ficou mais um tempinho na grade diária. Foi uma fase em que Celso trabalhou muito, já que ele apresentava o Namoro de segunda a sexta, ao vivo, e a Sessão Premiada aos sábados e domingos, também ao vivo. Com isso, o apresentador era visto todos os dias da semana, sempre ao vivo, na tela do SBT. Situação um tanto louca para quem tinha acabado de enfrentar uma fria geladeira na emissora.

Essa situação ficou assim até o SBT apostar no pacote de novidades que ficou conhecido como “arrancada da vitória”, entre março e abril de 2007. Uma das novidades era uma linha de shows na faixa das 20 horas, e um dos programas recrutados para a empreitada era uma nova versão do Curtindo Uma Viagem. Rebatizado como Curtindo com Reais, o game passou a ser exibido nas noites de sexta. Assim, Namoro na TV e Etc deixou a grade diária e se tornou semanal, ocupando toda a tarde de sábado. Nesta fase, o programa mesclava vários quadros diferentes de namoro com games variados. Um deles era o Jogo das Três Pistas, atualmente apresentado por Silvio Santos em seu dominical. Uma personalidade que sempre era convidada para o jogo era nada menos que Dani Calabresa, que na época assinava Daniela Giusti. A comediante integrava o elenco do humorístico Sem Controle, onde interpretava a enfermeira Penicinilda. E ela costumava bater ponto no Namoro na TV interpretando a personagem. Pérolas da TV…

Alguns meses depois, Namoro na TV e Etc chegou ao fim e foi substituído pelo Curtindo com Crianças, uma espécie de Gente Inocente onde Celso Portiolli promovia jogos singelos com pequenos. A atração ficou no ar até o fim de 2007, chegando ao fim quando Silvio Santos resolveu exibir as lutas coreografadas do WWE – Luta Livre na TV nas tardes de sábado. Loucura, loucura, loucura…

Relembre vinheta e um trechinho do Namoro na TV e Etc:



André Santana

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Celso Zucatelli retorna ao jornalismo da Record

"E vou trazer o Paçoca e a Tapioca!"
A Record anunciou a contratação de Celso Zucatelli. O jornalista, que foi repórter do canal nos anos 1990, e passou pelo jornalismo e entretenimento da emissora nos anos 2000, retorna à rede depois de quatro anos afastado, e tendo passado pela RedeTV e Gazeta. Caberá a ele o comando do Balanço Geral Manhã, versão matinal (dããã) do jornal popular, que é exibido das 5h às 7h30. Atualmente, Bruno Peruka acumula o BG e o SP no Ar, desde a saída de André Azeredo. Quando Celso assumir, Peruka ficará apenas com o SP no Ar.

A chegada de Celso Zucatelli vem como mais uma tentativa da Record de ajustar os seus jornais matinais. Num passado não muito remoto, a emissora nadava de braçadas no horário. Porém, desde o avanço do Hora 1, na Globo, e do Primeiro Impacto, no SBT, a emissora começou a perder fôlego nesta faixa. Começou, então, um troca-troca de apresentadores, no intuito de elevar os índices. Bruno Peruka, repórter de destaque do Cidade Alerta, foi a primeira tentativa, mas não decolou. Depois veio André Azeredo, direto do Bom Dia SP da Globo, mas também não foi bem-sucedido. Celso, então, chega para tentar reverter a situação.

Celso Zucatelli é excelente profissional. Como jornalista, teve passagens importantes também pela Band e pela Cultura, onde atuou como repórter e apresentador. Antes de apresentar o Hoje Em Dia na Record, o jornalista foi repórter e correspondente internacional. Ou seja, tem estrada e repertório. Além disso, os anos no entretenimento fizeram com que Celso transitasse bem entre os dois segmentos, algo útil para o Balanço Geral Manhã. Afinal, é um jornal popular e longo, e este traquejo faz diferença.

Pesa contra Celso o ritmo acelerado que ele adotou nos últimos anos. À frente do Hoje Em Dia e do Melhor pra Você, na RedeTV, o apresentador foi aumentando a afobação em cena. O auge foi no lançamento de seu programa próprio, o Fala Zuca, que tinha apenas meia hora e muito merchandising. Para tentar fazer alguma coisa em tão pouco tempo, Zucatelli encarnou o Enéas e abusou da velocidade. Obviamente, não funcionou. Porém, ele tem um estilo interessante e pode acrescentar ao jornal matinal da Record. A conferir.

Falando nisso, esse troca-troca de apresentadores mostra que a Record não preparou bons âncoras para seus inúmeros jornais de pegada popular. É Balanço Geral Manhã e Local, é Praça no Ar, é Cidade Alerta… todos produtos enormes e muito dependentes de seus âncoras. E a falta de um profissional capaz de segurar tantas horas sem perder fôlego se faz presente. Basta ver o efeito dominó causado pela saída de Reinaldo Gottino, que obrigou a emissora a tirar Geraldo Luís das tardes de domingo. Agora, a emissora resgata Celso Zucatelli. Ou seja, há jornal demais e apresentador de menos.

André Santana

sábado, 2 de novembro de 2019

Mais maduro, "PopStar" é um bom divertimento para as tardes de domingo

"Levo vida de empreguete"

O desacreditado PopStar, da Globo, chegou à terceira temporada. A atração, que nasceu depois do parco desempenho de seu antecessor, Superstar, leva o selo “Formato Original Globo”, assim como o finado Tomara que Caia e o atual Mestre do Sabor. Ou seja, um programa criado pela própria emissora. Três anos e duas apresentadoras depois, o show de talentos com famosos conseguiu arredondar sua fórmula e, hoje, é um produto vitorioso. É o melhor dos formatos “criados” pela emissora.

PopStar chega fortalecido ao seu terceiro ano porque amadureceu com a experiência. A chegada de Taís Araújo, somada ao azeitamento da fórmula, fez o programa se firmar como um entretenimento familiar de qualidade, ideal para as tardes de domingo. Neste contexto, Taís se tornou peça fundamental, já que conseguiu fugir do roteiro e imprimir descontração à apresentação. Coisa que a primeira apresentadora, Fernanda Lima, não conseguia. Fernanda é ótima, sem dúvidas, mas não se enquadrou no formato.

Já Taís Araújo só melhorou com o tempo. Depois da estreia verde, a atriz resolveu brincar com os erros, seus e do programa (que foram muitos na temporada anterior). E o resultado disso foi fazer do PopStar um programa mais “relaxado”, que combina bem com a proposta. Afinal, trata-se de uma competição de talento entre famosos. Ou seja, no fundo, é uma grande brincadeira. Entendido isso, PopStar deslanchou.

A terceira temporada do PopStar conta com as participações de Babi Xavier, Claudia Ohana, Danilo Vieira, Eriberto Leão, Helga Nemetik, George Sauma, Jakson Follmann, Leticia Sabatella, Marcelo Serrado, Nany People, Robson Nunes, Totia Meireles e Yara Charry. Ou seja, assim como nos anos anteriores, a produção mescla artistas com alguma experiência na música (como Babi, Ohana e Leão) com algumas surpresas, como Follmann.

Outra novidade da temporada 2019 é a presença de João Côrtes, que substitui Tiago Abravanel nos bastidores. O jovem, que se destacou como participante no ano passado, não decepciona. E as performances da estreia do último domingo, 27, mostram que a competição será acirrada. Começou bem.

André Santana