sábado, 18 de maio de 2019

Insossa e mal estruturada, “O Sétimo Guardião” decepcionou

"Luz, a novela desandou depois
que eu virei o Du Moscovis"

A novela das nove da Globo, de uma maneira geral, vem numa crescente fase baixo astral. E não apenas por tramas de pouco sucesso, mas também pela temática cada vez mais dura destas produções. O que não faltam são histórias pesadas, com os pés bem fincados na realidade, com muita violência e mau-caratismo, que deixam em segundo (ou terceiro) plano o romance e a fantasia. Claro, isso não quer dizer que uma novela de tom realista não possa ser boa. A Força do Querer, última unanimidade do horário, está aí para provar que é possível. Mesmo assim, faltava um alívio no horário. Faltava uma novela capaz de fazer o público simplesmente desligar da realidade e relaxar.

Por isso mesmo, a estreia de O Sétimo Guardião foi muito festejada, inclusive por este blog. A alardeada volta de Aguinaldo Silva ao realismo fantástico prometia trazer de volta ao horário nobre da Globo um tom mais alegre e colorido, nos moldes das deliciosas Tieta, Pedra Sobre Pedra, Fera Ferida e A Indomada. Inclusive, na época da estreia, A Indomada estava no ar no Viva, relembrando a audiência que a novela das nove da Globo já comportou comédias da melhor qualidade. Tudo conspirava a favor da nova produção, que enfrentou uma série de dificuldades em seus bastidores para sair do papel (e mais outras tantas com a produção já no ar, mas nem vamos nos ater a estes detalhes por aqui).

A estreia deixou a melhor das impressões. Tudo bem que o tom alegre das novelas anteriores não apareceu, dando espaço ao suspense. Mas estava ali a cidadezinha onde tudo podia acontecer, e que desta vez se chamava Serro Azul (a “cidade vizinha” de todas as outras novelas de Aguinaldo), composta por tipos variados que tinham tudo para acontecer. Havia também uma trama mágica, com uma fonte de águas milagrosas que devia ser protegida por sete “guardiães” que compunham uma irmandade secreta. E, de quebra, um gato misterioso, León, que circulava pelos cenários levando mensagens misteriosas.

Porém, não demorou para que O Sétimo Guardião se revelasse um equívoco. Apesar do bom mote, a história em si foi extremamente mal desenvolvida. A começar pelos sete guardiães, que deveriam liderar a novela. Feliciano (Leopoldo Pacheco), Aranha (Paulo Rocha), Ondina (Ana Beatriz Nogueira), Milu (Zezé Polessa), Eurico (Dan Stulbach), Machado (Milhem Cortaz) e Gabriel (Bruno Gagliasso) se revelaram personagens de pouco apelo. Alguns tinham tudo para render, como Milu (que poderia ser um tipo cômico adorável, vide o talento de sua intérprete para isso), ou Ondina (as cafetinas de Aguinaldo Silva sempre protagonizam suas obras), mas não havia história para elas. Machado, com seu fetiche em usar calcinhas, teve este traço de sua personalidade muito mal desenvolvido. E o que dizer de Aranha, um tipo covarde e apagado? O melhor era o prefeito Eurico, uma sempre boa crítica política do autor. Mas até ele perdeu força, além de ser expulso da irmandade, sendo substituído pelo padre Ramiro (Ailton Graça).

Mas o pior de todos foi justamente o personagem-título. Gabriel, o “sétimo guardião”, era o líder da irmandade, mas o que fez foi destruir tudo. Prepotente, arrogante e sem nenhum tato para lidar com os demais guardiães, Gabriel arruinou a irmandade com sua incompetência. Além disso, estava sempre de mau humor. Nunca sorria. Como torcer para um mocinho tão equivocado? O personagem raso encontrou, ainda, um ator no piloto automático. Assim, sem carisma, Gabriel não justificou seu protagonismo.

Além disso, toda a magia que os envolvia nunca foi bem explorada na novela. Não ficou claro a origem da Irmandade, nem os propósitos de se proteger e manter a fonte em segredo. O público sabia que a água tinha poderes, como o rejuvenescimento ou a cura, mas nunca viu o precioso líquido sendo usado para algo verdadeiramente útil. Quem usou a água, como Marilda (Letícia Spiller), Eurico e Valentina (Lilia Cabral), a usou apenas para benefício próprio. Ora, se a fonte era um tesouro da humanidade, faltou o básico: mostrar, na prática, porque ela era importante. Fora que a fonte era uma excelente metáfora para se falar sobre o uso desenfreado dos recursos naturais pelo homem. Mas nem o mote ecológico, que seria extremamente oportuno neste momento, O Sétimo Guardião explorou.

Em suma, O Sétimo Guardião acabou sendo uma história sobre sete guardiães sem carisma que protegia uma fonte sem grandes motivos para isso. Este erro grave na concepção da trama principal encontrou ecos na reta final, quando os guardiães começaram a ser assassinados misteriosamente. Como nenhum dos guardiães conseguiu cativar a audiência, a morte deles tampouco causou comoção. Foi como se o assassino misterioso (ou, no caso, a assassina, Judith, da sempre excepcional Isabela Garcia) fizesse um favor ao público, eliminando personagens sobre os quais ninguém se importava.

Soma-se a isso uma dupla de vilões que nunca se justificou. Valentina tinha tudo para acontecer, mas se mostrou uma vilã incompetente, que passou por um processo de regeneração sem sentido. Olavo (Tony Ramos) foi feito de capacho por ela a novela toda, apenas reclamando nos cantos, para agir apenas na reta final. Assim, o destaque nas vilanias ficou com Mirtes (Elizabeth Savalla), mais uma beata poderosa da galeria de Aguinaldo Silva, mas que foi destruída na reta final, com outra regeneração sem sentido. E, ainda, uma galeria de personagens que sumiam e apareciam ao sabor dos ventos, com grandes atores inexplicavelmente mal utilizados. Ou seja, faltou humor, faltou magia, faltaram bons personagens. O Sétimo Guardião foi um ponto fora da curva na galeria de histórias fantásticas de Aguinaldo Silva. Uma pena.

André Santana

13 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Neste sábado, publicarei o meu tradicional balanço com os pontos positivos e negativos de O Sétimo Guardião. Não sobrará pedra sobre pedra.... Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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  2. Perfeito comentário! Foi uma novela totalmente desafinada. Autor, diretor e elenco nao estavam sintonizados. Texto fraco, direção errada e muitos atores preguiçosos. A historia era boa, interessante e podia ter rendido muito mais. Minha expectativa e decepção foram exatamente traduzidas no seu texto. Acrescentaria que alem da falta de magia e do tao propagado realismo fantástico, dos guardiães sem historia e sem apelo, rolaram histórias totalmente desinteressantes e que nada tinha a ver com o resto da novela, como todo o núcleo da Afrodite e da chata da Lourdes Maria ou que nao renderam nada e super dispensáveis como a turma do restaurante, da mulher do delegado e coitada da Raimunda, que nem teve história e ainda a totalmente sem sentido e função, da Viviane Araújo, que inexplicavelmente nem mãe da Luz conseguiu ser. Estela era alcoólatra e teve uma ou duas cenas que a mostraram assim. O romance da ex prostituta também se resolveu cedo demais. Uma pena, deu tudo errado nessa história.

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    1. Rodrigo, eu não incluí mais equívocos de O Sétimo Guardião porque, senão, o texto ficaria longo demais. Mas você completou muito bem o que eu falei, e concordo com tudo: Afrodite foi uma história frouxa, e personagens como Neide, Raimunda, Estela e Stefânia sobraram. Enfim, muitos erros numa novela só, rs! Obrigado pelo comentário!

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  3. Na minha humilde opinião existe uma razão clara para a trama não dar certo. Ele tinha a sinopse mas não tinha todo resto. Pelo desenvolvimento mirabolante e desastrado está mais que provada que era essa novela não era do Aguinaldo. Castigo!

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  4. A novela feita por tanta gente foi mal pensada ....Cadê a genialidade dos anos 90 de Aguinaldo de suas cidadezinhas ?cade o sotaque humor tipos esquisitos tipo da indomada?

    Enfim a Globo ta com uma crise nas novelas das ...e uma novela boa pra várias ruins a cada ano ...seia melhor a das seus as nove

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    1. Me parece que a crise maior é no horário das nove! Desde Avenida Brasil, apenas A Força do Querer foi um novelão que "uniu o Brasil", kkkk! As demais, a maioria foi ruim de trama e de ibope, e mesmo as boas de ibope tiveram seus problemas com a história. Complicado!

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  5. Eae André. As únicas coisas marcantes foram a trilha incidental que é uma marca na direção do Papinha e a Elizabeth Savala que é uma atriz irretocável. De resto, os sussurros do capanga Sampaio, o sotaque da primeira dama e as danças das "mulheres da vida" foram qualquer nota, rs.
    Ah, sem contar os sumiços dos personagens, a morte desenfreada dos guardiões, ideia da matança foi de Silvio de Abreu,pelo que li... Bom, ele deveria voltar ao horário nobre como escritor, acredito que a condução dele na dramaturgia da emissora é equivocada.
    Abraço!

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    1. Verdade ..mas as últimas bovrkas dele não foram sucesso a absolutos não
      .porém são bem escritas pelo menos

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    2. A trilha incidental foi o melhor de sétimo guardião. daca todo um ar de mistério a trama

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    3. Marcelo, o Silvio é um baita autor de suspense e policial, e deve ter pensado que isso chacoalharia a história. E poderia até ter dado certo, se os guardiães fossem personagens que o público se importasse, rs! E concordo com você e com o Miguel, a trilha incidental foi um acerto! Talvez o único acerto, kkk!

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