sábado, 12 de janeiro de 2019

Fim do "Vídeo Show" não fez jus à sua história e importância

"Um beijo muito carinhoso,
fique com Deus... e adeus!"

Na tarde de ontem, 11, a Globo exibiu o último Vídeo Show de sua história. O clássico programa que mostrava os bastidores e as novidades da emissora se despediu sem grandes celebrações. Foi ao ar uma edição “normal”, que deixou bem claro os motivos que levaram o Vídeo Show ao fim. Pautas fracas e desinteressantes já envolviam o programa há tempos, e foram vistas também na edição derradeira. Uma despedida frustrante para um programa que deixou seu nome cravado na história da TV.

Afinal, o Vídeo Show cambaleou mais nos últimos cinco anos. Assim, teve outros 30 anos de sucesso absoluto. Trata-se de uma trajetória vitoriosa, que sempre mereceu todas as celebrações, apesar do pesares. Ainda mais se levarmos em consideração que o Vídeo Show estreou despretensioso, como um apanhado de vídeos diversos da Globo exibidos em uma hora das tardes de domingo. Quando aquele novo programa comandado por Tássia Camargo estreou, a ideia era que tivesse vida curta. Ninguém apostaria que a atração ganharia substância e atravessaria décadas.

Alternando entre o sábado e o domingo, e ganhando outros apresentadores, o Vídeo Show foi ampliando sua pauta, ganhando conteúdo exclusivo e saindo da simples fórmula de requentar vídeos antigos. Quando Miguel Falabella assumiu a atração, no fim da década de 1980, e o Vídeo Show era uma das atrações dos sábados da Globo, o programa chegou à uma fórmula original e irresistível, que celebrava o ontem, o hoje e o amanhã da programação da emissora. E a direção da Globo foi esperta ao notar que havia ali um material e tanto para a grade diária. E o Vídeo Show se tornou sinônimo de programa da hora do almoço nos anos 1990.

Com excelente audiência e repercussão, Vídeo Show atravessou a década de 1990 e 2000 com muito sucesso nas tardes da Globo. Após a saída de Falabella, a atração seguiu em alta com a dobradinha André Marques e Angélica. No final da década de 2000, ganhou mais musculatura com exibições ao vivo e outros quatro (!) apresentadores. Mais adiante, André e Ana Furtado assumiram, numa fase marcada pelo início da crise de identidade da atração. Que ficou ainda pior na fase Zeca Camargo, e que ensaiou uma retomada com Otaviano Costa e Monica Iozzi. Mas que não resistiu à saída desta, sucumbindo de vez. A fase pouco criativa do Vídeo Show deu espaço ao avanço do Balanço Geral, da Record, e até do Chaves e do Fofocalizando, do SBT.

Com isso, o Vídeo Show sofreu inúmeras modificações ao longo do tempo, mas nenhuma capaz de recuperar a liderança absoluta na audiência. E já falamos aqui os motivos: Vídeo Show trocou apresentadores, repórteres e cenários, mas não renovou o seu conteúdo. Em tempos de internet e redes sociais, os bastidores e a história da TV já não eram pautas tão interessantes assim junto ao público. Nos tempos em que o Vídeo Show era líder absoluto, a atração era o único canal onde o espectador podia rever cenas antigas e entender como a cena tal da novela tal foi gravada. Hoje, há Google, há YouTube, e os próprios artistas desvendam seus segredos nos histories da vida.

Ou seja, o Vídeo Show envelheceu mal. O programa não conseguiu se adaptar aos novos tempos, ficando com cara de prato requentado. Além disso, as parcas tentativas de modernização foram feitas porcamente, com a falsa ideia de que digital influencers e fofocas “chapa branca” fariam alguma diferença no programa. Não fizeram. Ao apostar em redes sociais na tela e apresentadores que acumulam seguidores nas redes sociais, o Vídeo Show afastou seu público tradicional e não se tornou atrativo o suficiente para que os tais “seguidores” olhassem para a tela da TV.

Por conta disso, o fim do Vídeo Show se tornou inevitável. As últimas mudanças desgastaram ainda mais a imagem da atração. Assim, qualquer tentativa de nova mudança seria vista com desconfiança pelo público, e eram grandes as chances de novamente não funcionar. A solução mais óbvia, portanto, seria sua extinção e substituição por um novo programa, mais elaborado, condizente com os dias de hoje, e que fosse capaz de atrair a atenção da audiência.

Justamente por isso, o fim do Vídeo Show como foi feito foi uma bola fora da emissora. A direção da Globo anunciou a descontinuação da atração faltando apenas três dias para o seu fim. E num momento em que nada foi planejado para substituí-lo. O canal apelou para uma grade “tampão”: na primeira semana, as novelas Belíssima e Cordel Encantado serão exibidas num duplo Vale a Pena Ver de Novo; depois, A Grande Família ganha um repeteco. Ou seja, foi um cancelamento mal planejado, para não dizer improvisado.

Se não havia o que por no lugar, por que a Globo não deixou o Vídeo Show no ar mais algum tempo, para uma despedida à altura de sua importância? Há um BBB chegando, e o vespertino poderia ter uma sobrevida repercutindo os acontecimentos da casa. Além disso, teria tempo para uma grande retrospectiva, celebrando a vitoriosa trajetória da atração. Vídeo Show merecia uma despedida tão ou mais elaborada que a despedida do Programa do Jô, por exemplo, que passou um ano inteiro anunciando seu fim e realizando entrevistas especiais.

Claramente, a decisão sobre o fim do Vídeo Show foi tomada no “susto”, sem dar tempo à equipe de produzir uma despedida decente. Assim, um dos mais importantes programas da história da televisão brasileira saiu de cena com um dos piores episódios de sua extensa ficha. Não merecia. Não merecia mesmo. O programa que mais valorizou a memória da televisão brasileira terminou sem respeitar sua própria memória.

Aliás, é uma pena que a Globo tenha resolvido se livrar do Vídeo Show sem nem ao menos testar uma volta à grade semanal. O programa não tinha mais fôlego para a grade diária, é fato, mas ainda poderia render muito no ar uma vez por semana. Ao invés disso, a promessa é que Vídeo Show se torne uma marca, exibida em programas como Mais Você e Encontro sempre que houver uma matéria de bastidores e TV. Que morte horrível!

André Santana

13 comentários:

  1. Bom retorno André! Primeiro que a gente tem sempre de lembrar que parte da queda do Vídeo Show foi por causa da audiência de um programa que estimula o pior do jornalismo sensacionalista e que resolveu virar, em parte, um programa de fofocas que vive muito de falar (mal) dos artistas...da Globo! Ou seja, também é um programa de fofoca "chapa-branca" por assim dizer. Não dá para comemorar nada em termos de qualidade.

    Além disso temos de dizer que o formato do VS se tornou um pouco obsoleto com o tempo; claro que tem de falar dos programas da casa, mas a Globo poderia fazer um programa muito mais abrangente em termos de cultura; até a RedeTV! faz isso com o Leitura Dinâmica! Pode ser que não estourasse em audiência, mas se o programa caminhasse para isso com o passar dos anos, poderia se firmar de outra forma.

    Sobre o que você disse, concordo totalmente. Não dá para eximir a Globo de culpa no processo; As mudanças foram deixando o VS cada vez pior, mas mesmo assim, caberia ainda uma edição semanal aos sábados, um dia em que a concorrência é fraca, a pressão por audiência seria um pouco menor e poderia se fazer algo mais elaborado. O jeito com que o programa foi retirado do ar foi tosco realmente, colando o selo de fracasso na testa da atração e jogando muita pressão para o que vai ser exibido depois.

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    1. Falou e disse, Alexandre! O novo programa já vai estrear sob muitas pressões e cobranças. Sobre o que você disse no começo, eu costumo minimizar a influência do Balanço Geral porque, acredito eu, não foi o BG que derrubou o Vídeo Show: foi o Vídeo Show que derrubou a si mesmo, levando o público a mudar de canal e encontrar o BG. A Globo ainda concorre com ela mesma, infelizmente.

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  2. Olá, tudo bem? Vídeo Show valorizava a memória da TV Globo e não da TV brasileira...Bom, o programa poderia ainda ocupar aquela faixa das 14 horas aos sábados. Eu tiraria aquela reprise do Sai de Baixo. Antigamente, como você comentou, a atração era exibida somente aos sábados...Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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    1. E parece que deve ter sido decisão do novo ditetor que afinal chegando agora não tem vínculo afetivo com a atração decidiu por fim e xonecar algo novo....tomara que o novo programa seja estilo estúdio i da Globo News que mescla bem informação e entretenimento

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    2. Oi Fabio! Quando eu disse que o Vídeo Show valorizava a história da TV brasileira, foi justamente por considerar que a história da Globo é parte importante da história da TV brasileira. E o programa era o único com esta proposta de memória, não existem mais similares em emissora nenhuma. Mas concordo contigo, também acho que o Vídeo Show teria fôlego semanalmente, aos sábados. Abraço!
      Miguel, eu também gosto muito do formato do Estúdio I. Mas não acredito que a Globo vai fazer algo semelhante. Vamos ver.

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  3. Com toda crise existente, a extinção do programa foi uma bola fora. O programa poderia se tornar semanal (aos sábados na minha opinião); inclusive trazendo a querida dupla André Marques e Angélica de volta. Mais uma vez a Globo rifa um de seus medalhões. A emissora prova mais uma vez que precisa de um gerenciador de crises pra ontem.

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    1. Pois é, uma volta às origens nas tardes de sábado fariam muito bem ao Vídeo Show. Pena que a emissora decidiu por este fim abrupto.

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  4. Concordo com o Fábio TV, o horário das reprises do Sai de Baixo seria o ideal para uma edição semanal do Vídeo Show. O Falha Nossa vai ser o único quadro que sentirei falta, afinal, não dava mais pra ver o programa no formato que estava, muito chato. Creio que o destino dos erros de gravação seja o GShow.

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    1. Pelo jeito, todos concordamos que um Vídeo Show semanal seria uma boa! Quem sabe a emissora não percebe isso e lança um programa nos mesmos moldes nas tardes de sábado? Pode até ser com outro nome, pra não assinar atestado de que voltou atrás... rsrs! Até porque as tardes de sábado carecem de novidade. As reprises do Sai de Baixo já cansaram.

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  5. A verdade é que nem a Globo nem os telespectadores aguentaram tanta agonia de continuar assistindo a um programa moribundo, que naquela ânsia de terminar logo com essa agonia, foram lá e desligaram os aparelhos de uma vez, mas se esqueceram do funeral digno. Analogia sádica à parte, quando a emissora e os sites especializados em televisão noticiaram o término definitivo do VS, minha reação foi de alívio e decepção ao mesmo tempo, mas sobretudo alívio, porque continuar do jeito que estava nos últimos anos seria um tormento para a audiência vespertina e eu sou testemunha de tamanho tédio, como por exemplo quando entravam aqueles quadros em que entrevistavam os artistas da casa, eram de dar sono! Sem contar a falta de carisma do Joaquim Lopes e da Sophia Abrão no comando das pautas. Entretanto, o período negro do VS começou mesmo em 2013, quando tiveram a ideia infeliz de introduzir o formato com auditório - aliás, já experimentado pelo próprio VS entre 1999 e 2000, só que aos sábados e com excelentes pautas sob a batuta do mestre Falabella - e fazer do então sisudo Zeca Camargo uma versão simplória do Fausto Silva à frente da consagrada atração, o que afugentou de vez o público habituado com o formato tradicional, ainda que apresentado pelo não menos simplório André Marques, mas que ainda assim tinha uma boa audiência. Quando abandonaram o formato, já era tarde, e nem a troca sucessiva de apresentadores ajudou a devolver a credibilidade e a identidade que compunham o viés do programa. Acrescente-se a isso também o advento das mídias digitais como o Youtube como causa do declínio do VS, uma vez que a antes função de revisitar os anais da televisão brasileira desempenhada pelo programa - daí a audiência cativa que angariou em sua fase de ouro - passou para os usuários que podem fazê-la a qualquer momento, fazendo com que a atração caísse no ostracismo e passasse a adotar a linha de TV Fama light, à base de pautas sem nenhum atrativo. Em 2015, numa tentativa de salvar a aura do VS e na ocasião dos 50 anos da emissora, até trouxeram de volta o Falabella para que pudesse pelo menos entrar nos encerramentos e atenuar a crise, mas não teve jeito, pois o VS a essa altura do campeonato já tinha perdido sua identidade completamente e se distanciado totalmente do velho VS que fez parte da minha infância, quando eu me plugava nas tardes para viajar no "Túnel do Tempo" da televisão e acompanhar os segredinhos dos bastidores dos programas e novelas, tudo feito com o maior capricho. Mesmo estando aliviado com o término de uma atração que fez história na tela da Vênus platinada mas já dava seus últimos suspiros, não nego que o VS vai deixar saudades pois, como já dito, ele foi o responsável por formar meu caráter saudosista em matéria de memória da TV, assim como os também saudosos Vitrine da TV Cultura e o Intervalo da TVE Brasil, outras referências no gênero. E o resgate da memória da TV continua... na web :-)

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    1. João Paulo, acho que todos nós que amamos televisão fomos "formados" pelo Vídeo Show e, portanto, nutrimos uma afeição pela atração. Embora ele agonizasse há tempos, a confirmação de sua extinção foi, sim, uma tristeza para todos nós. Sobre sua análise, concordo com ela, mas vou além: o Vídeo Show começou a declinar ainda na fase anterior a de Zeca Camargo, nos tempos de André Marques e Ana Furtado na bancada. Ali, as pautas preguiçosas já davam as caras e o programa perdeu fôlego. Tanto que a fase do Zeca Camargo foi uma tentativa de reverter a queda, o que não deu certo e acabou afundando o programa ainda mais.

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  6. O Vídeo Show acabou tendo uma morte horrorosa e saiu sem deixar saudades, uma pena para um programa que foi inovador, mas que nos últimos anos foi perdendo relevância por conta da internet e deu no que deu. Hoje em dia a memória da TV está viva mesmo no You Tube e por isso não soube se reinventar.

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    1. Exatamente, Kleber! O Vídeo Show, em tempos de Youtube e redes sociais, perdeu seu propósito.

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