sábado, 10 de novembro de 2018

"Segundo Sol" foi uma boa ideia desperdiçada

"Vote em mim!"

Segundo Sol terminou ontem, 09, com o rótulo de pior novela assinada por João Emanuel Carneiro. Talvez em busca de uma novela de mais fácil digestão, depois da complexa A Regra do Jogo, João acabou optando pelo caminho mais simples na condução de uma história que teve um ponto de partida muito simpático, mas desenvolvimento sofrido. Isso porque o autor tinha em mãos um personagem muito interessante, o cantor Beto Falcão (Emílio Dantas), mas preferiu dar o protagonismo a Luzia (Giovanna Antonelli), uma das piores mocinhas que já criou. Deu no que deu.

Da maneira como Segundo Sol foi conduzida, seu primeiro capítulo se revelou inútil. Afinal, o fato de Beto Falcão ser um cantor famoso, mas esquecido, que volta à fama após ser dado como morto pouco influiu no desenvolvimento da história. Beto poderia ser qualquer coisa. Até porque, depois de decidir viver dos lucros de sua falsa morte, o personagem simplesmente perdeu importância. Mesmo fingindo sua morte, ele circulava livremente por aí, ao mesmo tempo em que enganava até o próprio filho, fingindo ser seu padrasto. Surreal. Além disso, com o pouco espaço de Beto, Segundo Sol explorou pouco um dos seus trunfos iniciais: a trilha sonora recheada de clássicos do axé. Isso deu uma identidade interessante à novela, que se perdeu logo no início.

Segundo Sol teria sido bem mais interessante se o autor tivesse levado Beto Falcão a sério. A história deveria ter focado, inicialmente, em seu conflito entre seguir mantendo a farsa e se entregar de vez. Afinal, Beto era um bom homem, mas se viu tendo que enganar todo mundo. Ao mesmo tempo, deveria haver um esforço real em se esconder. Situações de quase descoberta poderiam ter sido exploradas. Mais adiante, Segundo Sol poderia focar na descoberta da farsa e suas consequências. E, por fim, seria concluída com a redenção, a retomada e a reinvenção de Beto Falcão como artista, voltando a fazer sucesso.

Mas Beto foi coadjuvante na história do dramalhão familiar de Luzia, que viu sua família ser destruída pelas vilãs Karola (Deborah Secco) e Laureta (Adriana Esteves). Uma história poderosa, sim, mas desenvolvida pessimamente. Luzia, além de escolher os piores jeitos de se reaproximar dos filhos, ainda caía em todas as armadilhas das vilãs. De uma ingenuidade exagerada, a mocinha acabou irritando o público, em vez de conquistar torcida. Além disso, sua história andava em círculos. Luzia passou a novela toda fugindo da polícia.

Além disso, personagens promissores perderam a mão. Rosa (Letícia Colin) começou dona da novela, graças a sua personalidade marcante e sua dubiedade bem construída. Mas, ao optar por ceder às investidas de Laureta, a personagem perdeu força. Passou boa parte da história pelos cantos, sem o viço inicial. Cresceu novamente apenas quando começou seu processo de redenção. Mas seu quase “sumiço” ao longo da trama foi outro desperdício.

Roberval (Fabrício Boliveira) foi outro personagem que começou bem, mas se perdeu. O clã Athayde era o núcleo que mais tinha do DNA de João Emanuel Carneiro: uma família disfuncional, com diversas personalidades dúbias, e que vivem quase como num universo paralelo. Neste contexto, o drama de Roberval era poderoso: filho do chefe do clã com a empregada, ele viu sendo renegado pela família por ser negro, enquanto o irmão branco foi tratado como legítimo. A rivalidade entre Roberval e Edgar (Caco Ciocler) era interessante, e a sede de vingança de Roberval prometia. No entanto, em algum momento, a dubiedade do personagem foi se tornando frágil. Por fim, a resolução dos conflitos da família foi forçada e preguiçosa, com personalidades mudando ao sabor do vento.

Além disso, situações forçadas da reta final ficaram com cara de resoluções de última hora pouco pensadas. A falsa morte de Remy (Vladimir Brichta) evidenciou furos. A origem de Laureta e sua então vingança contra a família de Beto pareceu inconsistente. Bem como a origem de Karola, que se revelou filha de Laureta com Severo Athayde (Odilon Wagner). Laureta e Karola sempre foram parceiras, mas o “amor maternal” de Laureta no desfecho ficou forçado. Que amor é esse que fez a própria mãe prostituir a filha, ao mesmo tempo em que a incentivava a viver um romance com o próprio tio? Entrecho estranho, que parece ter sido inventado de última hora.

Mas nem tudo foi ruim. Segundo Sol, apesar dos entrechos preguiçosos, tinha diálogos inspirados e ótimas atuações. Se Letícia Colin foi a dona do começo da novela, Deborah Secco, Adriana Esteves e Vladimir Brichta a pegaram para si na fase final. Todos saem maiores da novela. Além disso, a trama revelou ótimos nomes, como Kelzy Ecard (Nice) e Claudia di Moura (Zefa). E teve um último capítulo que, apesar dos exageros e clichês, divertiu. Laureta, mais uma boa vilã para a galeria de João Emanuel Carneiro, provocou o atual contexto nacional, ao sair da cadeia direto para a política. Adriana Esteves construiu mais um tipo excelente.

No saldo final, Segundo Sol se mostrou como uma novela frágil, de construção equivocada. Teve bons momentos, mas finaliza como um passo em falso de João Emanuel Carneiro. Não foi um dramalhão familiar eficiente como Da Cor do Pecado, nem crítica como Cobras & Lagartos, e nem inventiva e provocativa, como A Favorita e A Regra do Jogo. E, claro, não foi a novela que “uniu o Brasil” como Avenida Brasil. Apenas passou.

André Santana

3 comentários:

  1. Olá, tudo bem? Farei hoje minha análise completa da novela Segundo Sol com o balanço dos pontos positivos e negativos. O último capítulo foi beeeeem fraquinho...Abs, Fabio www.blogfabiotv.blogspot.com.br

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  2. Novela fraca e merecida a crítica negativa em cima. Uma novela que se repetiu o tempo inteiro, recheada de clichês e lugar comum. Uma pena porque o autor sempre foi considerado uma novidade em meio a tantos autores fracos que temos visto ultimamente na faixa das nove. Tomara que o JEC se reinvente e volte a ser um autor relevante

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  3. Excelente crítica. Sempre espero muito do João Emanuel. Realmente essa decepcionou. Havia boas histórias, mas todas foram morrendo aos poucos. Muito desperdício de atores, como no núcleo da família de Beto (Arlete Sales e Francisco Cuoco mereciam mais!), muitos personagens que não saíram do lugar, como Selma e Acácio e muita trama que podia ter rendido bem mais, como a turma do bordel da Laureta ou do casarão. Concordo também que a história mais interessante seria a de Beto, que podia ter dado outra cara à novela. Mas parece que não foi pensado para ser isso desde o início, vide a inexistência de personagens e núcleos que poderiam ter correspondido a uma história como a dele. No mais faltou "baianidade" com todos os seus clichês que amamos e que estamos acostumados. O axé music adaptado para os dias de hoje foi trágico (para meu gosto pessoal), exceto por Alcione cantando "o mais belo dos belos", que arrepia desde a primeira nota. Essa história poderia muito bem ter se passado em Cuiabá, Vitória ou Manaus. Salvador não fez diferença alguma no final. A única novidade que o João trouxe para suas obras foi a mistura de núcleos, pois pela primeira vez ele não apresentou um núcleo isolado que não conversava com os demais, como em suas outras novelas.

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