sábado, 27 de outubro de 2018

"Vídeo Show com Zeca Camargo": uma defesa

"Tá com saudades, né?"

Chegou o dia que ninguém esperava: o dia em que começamos a sentir saudades do Vídeo Show com Zeca Camargo. A frustrada tentativa de transformar o vespertino da Globo num talk show, num novo formato idealizado por Ricardo Waddington, deixou a pior das impressões. Mas, venhamos e convenhamos, era um Vídeo Show muito melhor do que o que se tem visto hoje. Ver o tradicional vespertino minguar diante de nossos olhos nos faz sentir muita falta do Zeca Camargo afobado promovendo brincadeiras sem graça com seus convidados.

Para quem não se lembra, o Vídeo Show com Zeca Camargo estreou no final de 2013. O novo formato surgiu quando Ricardo Waddington assumiu a direção de núcleo do vespertino e ganhou carta branca da Globo para fazer uma reformulação total. Na época, o programa já não rendia resultados muito satisfatórios, fazendo a emissora almejar uma grande mudança. A ideia era fazer um Vídeo Show completamente renovado.

Para isso, Zeca Camargo foi afastado do Fantástico para se tornar o novo âncora do Vídeo Show. Zeca surgiu num programa totalmente novo, diante de uma plateia e recebendo um convidado por dia. Assim, cada programa era moldado para o convidado do dia, que era entrevistado e relembrava sua própria história, além de participar de brincadeiras no palco. As matérias de bastidores permaneceram, surgindo entre uma brincadeira no palco e outra. O programa tinha um DJ em cena e uma plateia ruidosa. Sem dúvidas, era uma renovação e tanto.

Mas o novo formato não emplacou. Dizia-se, na época, que o público não aceitou um Vídeo Show que não era o Vídeo Show. Diagnóstico que nunca me pareceu correto. O grande problema do novo Vídeo Show era de ordem estrutural. O novo formato e o novo apresentador eram muito bons! Entretanto, a execução foi falha, por alguns motivos.

Zeca Camargo é um jornalista com grandes e bons serviços prestados. Tem um currículo que fala por si. Tem repertório e conteúdo. Ou seja, um profissional mais do que indicado para apresentar um talk show. Mas ele foi incrivelmente mal dirigido. Zeca surgia extremamente afobado em cena, falando rápido e gesticulando de maneira inexplicável. Faltou um diretor ali para conter todo este entusiasmo. Além disso, a promessa de um talk show se diluiu diante de um roteiro fraco. A entrevista do convidado era, quase sempre, frustrante, já que era interrompida a todo o momento para a entrada de brincadeiras sem graça. Parecia O Formigueiro, talk show de Marco Luque na Band. Para piorar, não havia diálogo entre o que acontecia no palco e as matérias apresentadas. Elas apareciam de supetão, fazendo do Vídeo Show um híbrido estranho.

Uma pena, já que a ideia sempre pareceu ousada e certeira. Era evidente, desde aquela época, que o Vídeo Show carecia de uma injeção de ânimo. Ele precisava, na verdade, se tornar um outro programa. E foi isso que a equipe de Waddington fez. Foi uma mudança ousada e necessária. Mas que, infelizmente, não deu certo, por problemas já apontados aqui. O ideal, então, era que a direção analisasse os erros e buscasse aparar as arestas do novo formato. Mas não foi isso que fizeram. Ao contrário. Simplesmente abandonaram o novo formato, sem qualquer tentativa de corrigir os equívocos. Por isso, o programa nunca mais foi encorajado a tentar uma nova transformação radical.

E é justamente isso que o Vídeo Show precisa. Uma reforma radical. Não que precise ser um resgate do formato com Zeca Camargo, mas uma reforma de maneira tão ousada quanto. Porque, do jeito que está, claramente não dá mais para ficar. A coisa está tão feia que o Vídeo Show tem amargado a terceira colocação no Ibope, atrás de A Hora da Venenosa, da Record, e Chaves e Fofocalizando, do SBT. Ou seja, a concorrência não exibe nenhum achado, pelo contrário. O público não fugiu porque encontrou algo melhor, mas sim porque simplesmente se cansou do Vídeo Show. As mudanças na apresentação não refrescaram a situação. Aliás, o que já era esperado, né? Só Boninho mesmo para acreditar que trocar apresentador e repórter fosse resolver alguma coisa.

Sugiro uma transformação radical. Um formato realmente novo, com um apresentador que tenha história e estofo e um roteiro que não caia no lugar comum de sempre. Mas nem isso seria uma garantia de melhora. Isso porque o Vídeo Show já teve tantas promessas de mudanças nos últimos anos que, agora, sua imagem está arranhada. Resta saber se este arranhão tem cura. Ou melhor seria pensar num novo programa para substituí-lo. Mas é evidente que alguma coisa precisa ser feita. E com urgência.

André Santana

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Fernanda Gentil vai para o entretenimento, enquanto Xuxa ganha novo formato. Mas e Angélica?

Gentileza gera gentileza
Novas movimentações na televisão brasileira. Segundo Flavio Ricco, colunista do UOL, a apresentadora Fernanda Gentil está prestes a deixar o comando do Esporte Espetacular na Globo. Fernanda deve ser a próxima a deixar o jornalismo televisivo e se aventurar no entretenimento da emissora, tal qual Fátima Bernardes, Patrícia Poeta e Tiago Leifert. Em seu lugar no dominical, entra Bárbara Coelho, que já costuma cobrir suas folgas.

Segundo fontes diversas, a Globo começou a prestar mais atenção em Fernanda Gentil após seu bom desempenho no programa Papo de Almoço, na rádio Globo. Além disso, sua performance sempre descontraída e seu traquejo no ao vivo também a credenciaram para a transição. No entanto, ainda não se sabe exatamente o que Fernanda Gentil fará depois que deixar de vez o Esporte Espetacular. Especula-se um game show ou um outro formato aos domingos. É esperar para ver.

O que chama a atenção neste caso é que a Globo segue mantendo Angélica na geladeira, enquanto abre espaço para novos nomes. Evidentemente, renovar seu quadro de apresentadores é algo positivo. E dar o devido espaço a quem vem galgando novas oportunidades na telinha de maneira profissional também é bastante importante. Mas parece meio estranho o canal seguir mantendo uma veterana com excelentes serviços prestados fora do ar, ao mesmo tempo em que abre espaço para outros nomes. Lázaro Ramos, Taís Araújo, Fernanda Souza, Luan Santana e Otaviano Costa estão no ar ou tocando novos projetos. Mas, para Angélica, tudo é silêncio.

Oficialmente, Angélica segue se reunindo regularmente com uma equipe para a formatação de uma nova atração, a ser lançada em 2019. Mas pouco se fala a respeito do que se trata, qual a periodicidade e qual a previsão de estreia. Recentemente, o jornalista Fernando Oliveira, o Fefito, deu nota afirmando que Angélica deve assumir um programa noturno semanal. Mas qual seria o dia, sabendo que a linha de shows da Globo tem trocentos projetos enfileirados? A impressão é a de que Angélica está sendo cozinhada em banho-maria. 

Falando em loiras, Xuxa Meneghel já tem projetos para a TV em 2019. Recentemente, o TELE-VISÃO comentou que a Record precisava, urgente, encontrar um novo formato para revezar com o Dancing Brasil, no intuito de poupar o formato de dança e aproveitar Xuxa em novos postos. Pois é isso que vai acontecer no ano que vem. Xuxa deve comandar a versão nacional de The Four, uma competição musical que já teve a cantora Fergie como apresentadora nos EUA. A Record sonha com Anitta como uma das juradas. Uma boa perspectiva para a loira, embora o fato de que mais uma competição musical na emissora que já exibe o Canta Comigo possa soar como mais do mesmo. Estreia em 6 de fevereiro, informou Patrícia Kogut.

André Santana

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

TELE-VISÃO 13 anos: quando o "Sítio do Picapau Amarelo" virou novela

"Segura Berenice,
que essa foto já tem 13 anos!"
No dia 22 de outubro de 2005, nascia o blog TELE-VISÃO. São 13 anos acompanhando e registrando a movimentação da televisão brasileira, sobretudo nos canais abertos, comentando e repercutindo fatos importantes da nossa telinha. Mas você se lembra o que estava sendo exibido na TV na época em que o blog nasceu? Bom, a Globo exibia as novelas Alma Gêmea, Bang Bang e América; a Record surfava no sucesso de Prova de Amor; e o SBT exibia Os Ricos Também Choram, mas sua novela de sucesso era a reprise de Xica da Silva, da extinta Manchete.

No mesmo dia em que o TELE-VISÃO nascia, a Folha de S. Paulo publicava uma matéria trazendo opiniões de especialistas em Monteiro Lobato criticando a temporada do Sítio do Picapau Amarelo que estava em exibição naquele momento nas manhãs da Globo. Naquele ano, a emissora fazia a primeira grande mudança no infantil, que deixou de apresentar histórias com poucos capítulos para se aventurar numa trama de 180 episódios, com jeitão de novela. Com o novo formato, Sítio do Picapau Amarelo ganhou a alcunha de “Malhação infantil”.

Na nova temporada, assinada pelos autores Duca Rachid, Alessandro Marson e Julio Fischer, e dirigida por Cininha de Paula, o Sítio do Picapau Amarelo ganhava uma cidade cenográfica maior, ampliando a gama de personagens ao explorar a vida e o cotidiano da pequena Arraial dos Tucanos. Assim, Dona Benta (que ganhava nova intérprete, Suely Franco, que sucedeu Nicette Bruno), Tia Nastácia (Duh Moraes) e a boneca Emília (Isabelle Drummond) dividiam espaço com personagens como Saraiva (Chico Anysio), Antonica (Yachmin Gazall), Tambelina (Carol Roehrig) e a boneca “moderna” Patty Pop (Thávine Ferrari). E a trama trazia os clássicos personagens como coadjuvantes numa história de amor juvenil, protagonizada por Cléo (Karen Marinho) e João da Luz (Henrique Ramiro).

Cléo é uma jovem da cidade que troca cartas com Narizinho (Caroline Molinari). Quando ela passa a ser ameaçada por sua madrasta, a malvada Marcela (Lu Grimaldi), decide fugir para o Arraial dos Tucanos. Ali, ela se torna locutora de rádio e se apaixona por João da Luz, um amigo de Pedrinho (João Vitor Silva). Ele mora em uma casa na árvore por conta de um feitiço que a malvada Cuca lançou contra ele: em todas as noites de lua cheia, João da Lua se transforma em lobisomem.

“A Globo faz o que quer, pinta e borda. Faz tudo, menos Monteiro Lobato. A adaptação do Sítio do Picapau Amarelo é muito ruim”, disse à Folha Tatiana Belinky, amiga do autor e responsável pela adaptação do Sítio para a TV Tupi, nas décadas de 1950 e 1960, e Bandeirantes, de 1967 a 1969. A matéria foi publicada na semana em que a garota Tetéia, uma das novas personagens da produção, sofria um acidente e se desesperava ao saber que ficaria paralítica. Ela se recusava a usar cadeira de rodas e não queria que os amigos a vissem “assim”, além de se considerar castigada por ter agido mal. Ou seja, um dramalhão e tanto, com uma mensagem um tanto duvidosa, em meio à fantasia proposta por Lobato. “Não se moderniza um clássico, tem de respeitá-lo. O que é isso? Deixem o estilo do autor em paz”, reclamou Belinky.

Também participa da matéria a professora de literatura infantil da USP e PUC Maria dos Prazeres Mendes. “A ideia de atualizar tem a ver com o que o público desejaria assistir. E aí corre-se um risco porque entramos nos chavões, na coisa padronizada, estereotipada. Lobato abre a imaginação, e, na adaptação, ela é fechada, a criança não vê novidade”, analisou. Vladimir Sacchetta, biógrafo do escritor, também reclamou. “Houve uma tentativa de modernizar o Sítio, de trazê-lo para mais perto do telespectador de hoje. Mas Lobato é moderno desde a década de 1920 e 1930. A modernização que a Globo tentou fazer não foi feliz. Por que deu certo nos anos 1970 e 1980, quando era mais fiel ao espírito de Lobato?”, questiona Sacchetta.

A Globo se defendeu das críticas afirmando que as novas histórias do Sítio eram criadas por roteiristas especializados em Lobato, e com a aprovação de seus herdeiros. A emissora também negou que o tratamento dado em episódios desta semana à garota que se desespera ao ficar paraplégica seria inadequado a crianças. “Até porque a continuação da história vai mostrar como a menina vai conseguir superar a dificuldade”, disse o canal, em nota.

Contexto

A versão anos 2000 do Sítio do Picapau Amarelo estreou em outubro de 2001. Inicialmente, foram ao ar versões dos livros assinados por Monteiro Lobato. As histórias clássicas rechearam as temporadas exibidas entre 2001 e 2002 e foram um estrondoso sucesso nas manhãs da Globo. Em 2003, porém, a direção da emissora decidiu dar continuidade à série com roteiros originais. Walcyr Carrasco foi recrutado para criar novos enredos. Depois, passou o bastão para Mario Teixeira. As histórias novas mantiveram um espírito semelhante às clássicas, e as tramas duravam entre um e dois meses. O formato era de seriado diário, e não de novela.

No entanto, tentando reverter um natural desgaste, a emissora tentou dar fôlego ao Sítio do Picapau Amarelo, adotando um formato semelhante à de novela, com uma única história que ficava no ar entre abril e dezembro. Mas a temporada 2005 pesou a mão nos temas “modernos”, afastando-se muito do universo proposto por Lobato. No ano seguinte, o formato meio novelístico se manteve, mas foi injetada uma dose maior de fantasia. O visual dos personagens ficou mais lúdico e o romance principal (porque novela tem que ter romance principal, mesmo sendo infantil) era entre um príncipe e uma princesa de reinos rivais.

Já em 2007, houve uma reformulação total, com todo o elenco renovado. Bete Mendes foi Dona Benta e Rosa Maria Colyn viveu tia Nastácia. Os bonecos que davam vida a personagens como Cuca e Rabicó foram substituídos por atores fantasiados (Solange Couto era a Cuca), enquanto Emília voltou a ser vivida por uma atriz adulta, como nas primeiras adaptações. Tatiane Goulart deu vida a esta última versão de carne e osso da boneca. Mas, com a audiência em queda, Sítio do Picapau Amarelo não foi renovado para a temporada 2008, saindo do ar naquele ano.


Obrigado a todos que fizeram e fazem parte destes 13 anos de TELE-VISÃO! É de uma satisfação inexplicável poder compartilhar e conversar sobre TV com vocês. Obrigado mesmo!


André Santana

sábado, 20 de outubro de 2018

"Assédio": com pouco espaço na TV aberta, Globo experimenta no streaming


Como dito por aqui na semana passada, a linha de shows da Globo nunca esteve tão variada. Antes quase toda tomada por teledramaturgia, a faixa agora exibe, também, programas de auditório. A prática, no entanto, teve um problema colateral: o canal, agora, tem menos espaço em sua grade tradicional para fazer suas experiências. Assim, a emissora tem usado seu serviço de streaming, o GloboPlay, como um espaço para novas séries e experimentações em teledramaturgia. Assédio, primeira série exclusiva do serviço, deixou isso bem claro.

A minissérie teve seu primeiro episódio exibido pela TV Globo na noite da última segunda-feira, 15, em caráter especial. A produção, desenvolvida exclusivamente para o serviço de streaming, mostra que o GloboPlay é o novo espaço para experiências da emissora. Não que o canal aberto do Grupo Globo não tenha exibido minisséries semelhantes. Mas é evidente que a emissora busca ampliar seu alcance. A ideia é conquistar um público que não acompanha sua programação tradicional.

E Assédio tem esse apelo. Inspirada no livro A Clínica – A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih, a série escrita por Maria Camargo e dirigida por Amora Mautner, é um esmero em todos os sentidos. A produção conta a história de Roger Sadala (Antonio Calloni), um famoso e respeitado especialista em reprodução humana que abusa sexualmente de várias de suas pacientes. Assédio faz um painel da jornada deste personagem, do apogeu à queda. Paralelamente, mostra o trabalho da jornalista investigativa Mira (Elisa Volpato). Ela contata um grupo de mulheres abusadas pelo médico e passa a investigar os casos.

Sendo assim, a temática de Assédio é bastante oportuna em tempos em que a discussão sobre a cultura do estupro está na ordem do dia. E a minissérie acerta ao trazer o ponto de vista feminino. Ela mostra, com muita competência, as devastadoras consequências de um abuso sexual na vida de uma mulher. A abordagem ganha credibilidade, tendo em vista que é inspirada num caso real. Além disso, esclarece e faz refletir, sem ser nem um pouco didática. Ao contrário. O texto é perturbador e envolvente.

Fugindo de qualquer vício de novela, Assédio tem uma narrativa não-linear que traz muito pouco de uma atração televisiva tradicional. Ou seja, não é simplesmente uma produção da Globo exibida pela internet. Na verdade, é um produto pensado para a plataforma ao qual é exibida.

Por isso mesmo, os primeiros episódios fogem da obrigação de oferecer ganchos poderosos. Ao contrário. Assédio começa quase como uma colcha de retalhos, com situações quase isoladas, dentro de um vai-e-vem temporal. Apenas entre o terceiro e quarto episódio as histórias começam a se unir e ganhar ritmo. Ou seja, a trama foi pensada para um público acostumado a assistir séries numa tacada só. “Maratonar” Assédio amplifica a experiência de assisti-la.

Ao exibir o primeiro episódio de Assédio na TV aberta, a Globo mostra que não medirá esforços para emplacar sua plataforma de streaming. A experiência se junta à exibição de The Good Doctor na Tela Quente e à criação do Cine GloboPlay, com a exibição de filmes disponíveis no serviço. Tais fatos são, na verdade, grandes propagandas do GloboPlay. Ao mostrar, na TV, o primeiro episódio de Assédio, a Globo quer instigar seu público a acompanhar a série, tentando angariar novos assinantes. É uma experiência válida.

E esta nova janela para a exibição de séries chega num momento bem interessante da produção global. Isso porque a teledramaturgia da Globo vive uma fase de contrastes. As tradicionais novelas optam por narrativas cada vez mais simples (algumas até simplórias). Assim, as novas narrativas ficam relegadas ao pouco espaço reservado às séries na linha de shows. Daí a importância do investimento no GloboPlay. Além de turbinar seu serviço de streaming, a Globo ainda investe em produtos de grife, com muito apelo comercial fora do país. Ou seja, o canal tem uma visão global e multimídia acerca de suas produções. Sem dúvidas, um acerto.

André Santana

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

História da TV: o apogeu e a queda da CNT, uma emissora "esquecida"

"Não tem chororô,
seu tempo acabou!"

A Central Nacional de Televisão, ou CNT, está jogada às traças. Atualmente, a emissora conta com uma programação sucateada, praticamente toda locada para a exibição de programas religiosos. Quem a vê assim nem deve se lembrar que o canal teve bastante importância na história da televisão brasileira, tendo revelado nomes como Luciano Huck e Ratinho. Além disso, grandes nomes passaram pela emissora, que também teve sua relevância com a exibição de conteúdos diferenciados.

A CNT com este nome foi inaugurada em 1993, sucedendo a Rede OM, criada nos anos 1980 pelo empresário e político José Carlos Martinez no estado do Paraná. A mudança de nome se deu em razão dos planos de transformar a emissora paranaense numa rede nacional. Para tanto, a emissora tratou de trazer afiliadas em todo o Brasil, além de se associar à TV Gazeta na Grande São Paulo, trazendo sua programação ao principal mercado do país, e levando programas da Gazeta para o Brasil. Nesta época, a CNT já contava com nomes como Galvão Bueno em seu cast, e tratou de fazer outras contratações, como Clodovil Hernandez. O programa Clodovil em Noite de Gala, transmitido da Ópera de Arame, em Curitiba, inaugurou a nova fase.

Durante a década de 1990, a emissora passou a oferecer uma programação variada, além de transmitir vários dos programas da Gazeta em rede nacional, como o já consagrado Mulheres, apresentado por Claudete Troiano e Ione Borges. A CNT também lançou o Programa João Kleber nas madrugadas, além de apostar em programação esportiva, jornalismo, filmes, séries e desenhos animados. Em 1994, o infantil Tudo por Brinquedo, apresentado por Mariane, leva desenhos ao horário nobre.

Em 1995, Marília Gabriela chega à CNT para comandar o Marília Gabi Gabriela, e Luciano Huck faz sua estreia na TV com o Circulando, uma espécie de Programa Amaury Jr “jovem”. Enquanto isso, Sula Miranda chega com o Sula Show. Adriane Galisteu também estreia como apresentadora na emissora, no comando do Ponto G, atração de vida curta. Outra novidade da época foi o infantil Hugo, protagonizado por um gnomo que era personagem de um game, no qual o espectador jogava apertando teclas do telefone. Foi um sucesso! O canal também exibia bons filmes, em sessões como Tela Mágica, Tensão Total e Cine Comédia.

Em 1996, a CNT investe em dramaturgia, exibindo o seriado Pista Dupla, as minisséries Irmã Catarina, Ele Vive e a novela Antônio dos Milagres. Também é o ano em que Ratinho desponta, no comando do jornal policial 190 Urgente. Já em 1997, uma parceria com a Televisa faz com que uma sacolada de programas mexicanos invada a grade, como Cristina Show e Lente Loco, programas de auditório dublados. O canal também abre várias faixas de novelas, com os folhetins mexicanos Coração Selvagem, Prisioneira do Amor, Império de Cristal, Alcançar Uma Estrela e Simplesmente Maria. Mas o filé da nova grade era o humorístico Chespirito, com esquetes inéditos no Brasil do criador de Chaves e Chapolin.

No final da década, chegam à CNT nomes como Ronnie Von, que lança o feminino Mãe de Gravata, e Sérgio Mallandro, com o “antológico” Festa do Mallandro. Porém, com o rompimento da parceria com a Gazeta, em meados de 2000, a CNT se viu obrigada a tapar buracos na grade. Mãe de Gravata passa a ser exibido no horário anteriormente dedicado ao Mulheres, enquanto estreia a Sessão Super-Heróis, com a exibição de séries japonesas. Nesta fase, o canal é exibido num precário canal em UHF em São Paulo, o que o faz perder visibilidade. Clodovil retorna à emissora para apresentar o talk show Clodovil Frente e Verso, enquanto a socialite emergente Vera Loyola tenta ser a nova Hebe no tosquíssimo Programa Vera Loyola (relembre esta pérola clicando AQUI). Começa, então, um período de altos e baixos na emissora. Horários passam a ser vendidos e a produção própria cai vertiginosamente.

Neste período, houve tentativas de retomar as produções. Uma delas em 2007, quando a CNT arrenda seu horário nobre para o Grupo Jornal do Brasil, lançando a TV JB. A “nova” emissora tinha bons nomes no cast, como Boris Casoy e Ney Gonçalves Dias, mas dura apenas alguns meses. Em 2009, programas como o vespertino Notícias & Mais inauguram um novo estúdio da emissora em São Paulo. A emissora também volta a exibir novelas mexicanas, como Marimar, Amanhã É Para Sempre e A Outra. Mas a coisa não decola, e a CNT volta a recorrer à venda de horários. Atualmente, sua grade própria está concentrada nas faixas entre 22h e meia-noite, com a exibição do CNT Jornal e poucos programas de variedades, como o bom talk show Conexão com Zé Américo. Bem pouco para uma emissora que já teve tantos bons momentos.

André Santana

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

"Belíssima" repete fraco desempenho de "Celebridade", mas é poupada de cortes

"E os biscoitinhos?"

Não é novidade para ninguém que eu gosto muito de Belíssima. No entanto, nunca acreditei que a trama de Silvio de Abreu fosse um bom cartaz para o Vale a Pena Ver de Novo. Como comentei aqui na época em que seu retorno foi anunciado, a novela parece pesada para o público da tarde. Além disso, é um thriller policial, muito calcado em seus inúmeros mistérios. Mistérios estes que não são mais segredo pra ninguém, afinal, trata-se de uma reprise.

E os números da tarde mostram que a escolha realmente não agradou os espectadores da faixa de reprises da Globo. Belíssima vem girando em torno dos 12 pontos no Ibope, algo próximo (ou ligeiramente abaixo) do desempenho de Celebridade, trama que a antecedeu. O que não é nenhuma surpresa: se Celebridade, considerada um clássico recente, não emplacou, o que dizer de sua contemporânea Belíssima, que fez sucesso, mas não chegou a se tornar cult?

Entretanto, ao contrário de Celebridade, Belíssima vem sendo poupada de cortes drásticos até aqui. A trama de Gilberto Braga, por não atingir as expectativas do horário, foi retalhada sem dó nem piedade, ao ponto de tramas paralelas inteiras terem sido jogadas para escanteio. Já a história sobre as maldades de Bia Falcão (Fernanda Montenegro) vem sendo exibida praticamente na íntegra, apenas com os cortes necessários para readequá-la ao horário.

Obviamente, esta diferença de tratamento entre as tramas tem pegado mal. Afinal, Belíssima é assinada por Silvio de Abreu, que hoje responde pela teledramaturgia diária da emissora. Estaria, então, o autor poupando seu próprio trabalho? Particularmente, acho pouco provável. A Globo não manteria um produto que não atende suas expectativas no ar apenas para massagear o ego de um de seus diretores, por mais importante que ele seja. Silvio de Abreu é o mandachuva da dramaturgia, mas ele tem um chefe também. Sendo assim, provavelmente, Belíssima vem sendo poupada por outras questões, como a época do ano ou a indefinição sobre sua substituta.

Aliás, ainda não se tem uma confirmação sobre a próxima novela do Vale a Pena Ver de Novo. Recentemente, a atriz Regiane Alves publicou uma mensagem dando a entender que Beleza Pura poderia retornar. Mas a própria atriz, que foi a mocinha Joana na trama de 2008, negou que tinha alguma informação a respeito. Ela disse que apenas torcia pelo retorno.

Beleza Pura foi a única novela assinada pela saudosa Andrea Maltarolli. Não foi um sucesso, mas caiu nas graças da crítica por ser uma história leve e com boas sacadas. Hoje, ela é lembrada pela personagem Rakelli, que consagrou Isis Valverde, e também pelo grito “eu sou rica!”, disparado por Norma, a vilã de Carolina Ferraz. A trama também revelou Rafael Cardoso, hoje um dos principais galãs da Globo, em cartaz na novela Espelho da Vida. Sem dúvidas, seria bem adequada para a faixa, embora tenha tido desempenho apenas mediano no Ibope. Vamos ver o que acontece.

André Santana

sábado, 13 de outubro de 2018

Com nova linha de shows, Globo amplia espaço para auditório

"E não é que eu sou
um bom animador?"

Nos anos 1990 e 2000, o SBT era referência em programas de auditório. Havia atrações para todos os gostos, comandados pelos principais animadores do país. Isso porque o SBT foi criado a imagem e semelhança de seu dono, Silvio Santos, uma referência em programas de auditório. Os auditórios ocupavam as tardes, a linha de shows e os domingos, sempre com uma plateia animada e participativa. Lembra que, em 1997, só haviam auditórios na linha de shows do canal? Hebe às segundas, Márcia às terças, Alô Christina às quartas, e Concurso de Paródias às quintas-feiras. Bons tempos...

Paralelamente, a Globo não era referência no segmento. O canal sempre exibiu auditórios, sobretudo aos finais de semana, mas, durante anos, eles não apareciam na linha de shows, normalmente dedicada à dramaturgia, humor, esporte e jornalismo. Mas, hoje, isso mudou. Os auditórios do SBT, com exceção de Ratinho, Raul Gil e Silvio Santos, perderam força; enquanto isso, a Globo abriu espaço para eles na linha de shows. Amor & Sexo, que estreou em 2009, foi o primeiro programa de auditório da linha de shows da Globo em anos, e a atração de Fernanda Lima abriu o caminho para que o The Voice Brasil também se estabelecesse.

Aí chegamos ao ano de 2018, quando a linha de shows da Globo nunca esteve tão variada. Normalmente, a emissora vinha exibindo dobradinhas de séries às terças e quintas, promovendo um excesso de dramaturgia. Agora, com o fim do The Voice, as séries ficaram restritas ao primeiro horário após a novela destes dias. No segundo horário, os cartazes são programas de auditório. Amor & Sexo retornou para a mais politizada de suas temporadas, enquanto Lázaro Ramos debuta como animador às quintas, no comando do divertido Os Melhores Anos de Nossas Vidas.

No primeiro episódio desta temporada, Amor & Sexo falou sobre um pouco de tudo. Houve espaço para discutir diversidade sexual, liberdade de ideias, homossexualidade, objetificação do corpo, machismo, racismo, feminismo, assédio, entre tantos outros temas importantes. E, num momento político em que muitos destes temas estão em discussão, Amor & Sexo surpreendeu ao assumir um lado. Os discursos de Fernanda Lima e seus convidados deixam claro que a atração se coloca como um instrumento a favor da liberdade e contra a censura e a hipocrisia. Uma missão louvável, pois leva para a conservadora plateia da TV aberta um debate corajoso sobre assuntos que incomodam muita gente. E o desafio, neste caso, é se fazer entender.

Por conta disso, Amor & Sexo acaba soando didático ao extremo para alguns. E é verdade. Mas isso é importante. Afinal, o programa trata de assuntos espinhosos e pouco discutidos para uma plateia muito heterogênea. O didatismo, portanto, é uma maneira de se alcançar o maior número possível de pessoas. Além disso, o programa alivia o debate sério com comentários espirituosos e brincadeiras no palco que sempre divertem. Ao final do episódio, sempre fica a sensação de que, além de divertir, o programa provocou alguma reflexão. E provocar, nestes tempos em que o retrocesso bate à porta, é uma missão um tanto quanto nobre.

Os Melhores Anos de Nossas Vidas é pura diversão. É um programa de auditório “raiz”, cujas atrações atingem direto a memória afetiva do público. No programa de estreia, Ingrid Guimarães e Lúcio Mauro Filho lideravam os anos 1990 e 1980, buscando mostrar qual das épocas foi a melhor. Assim, o que se viu em cena foram momentos icônicos destes momentos, na música, na TV, no cinema e no jornalismo. O regate dos elementos característicos destas épocas atingiu direto quem viveu estes tempos, daí a boa resposta da plateia e do público de casa.

O único problema foi o excesso de roteiro em algumas situações. Ingrid Guimarães divertiu ao “levar a sério” a competição, disparando tiradas e alfinetadas contra os anos 1980 o tempo todo. No entanto, muito do que foi visto no embate entre Lúcio Mauro Filho e a atriz era claramente roteirizado. Faltou um pouco mais de improviso em cena, para que a batalha entre as décadas passe verdade ao público. Mas nada que tenha prejudicado a atração, que fluiu muito bem.

Outro ponto negativo é o horário tardio da atração. O programa é uma diversão familiar, que combina bem mais com as tardes de sábado ou domingo. Exibido na madrugada de quinta para sexta-feira, Os Melhores Anos de Nossas Vidas alcança uma plateia mais restrita e adulta. Plateia esta que está dividida entre A Praça É Nossa, do SBT, e A Fazenda, da Record. Não é uma batalha fácil. Por mais que nostalgia seja algo mais “adulto”, Os Melhores Anos de Nossas Vidas tem um apelo que poderia agradar as pessoas de menos idade também. Sendo assim, poderia perfeitamente estar no rodízio de formatos que a Globo tem promovido nas tardes dos finais de semana.

Mas, independentemente disso tudo, o interessante é notar o quanto canais como Record e SBT se “esqueceram” de como fazer um programa de auditório legítimo. Enquanto isso, a Globo começa a “pegar o jeito”, apostando inclusive em formatos que são a cara do SBT. Basta lembrar de Quem Quer Ser um Milionário e Show dos Famosos, que já tiveram versões no canal de Silvio Santos. E alguém aí percebeu que Os Melhores Anos de Nossas Vidas parece um programa que o dono do Baú comandaria?

André Santana

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Rosana Jatobá fez bem em fugir do "Tricotando"

"Eu só sei fazer crochê"
Finalmente entrou no ar o tal novo programa de fofocas da RedeTV. O Tricotando é a mais nova tentativa da emissora de buscar uma atração capaz de elevar a audiência em baixa herdada do horário da igreja e servir de alavanca ao RedeTV News, o principal jornal do canal. Como se sabe, o noticioso registra baixos índices de audiência desde que passou a ir ao ar às 19h30, invertendo de posição com o TV Fama.

No Tricotando, os apresentadores Lígia Mendes e Franklin David passam pouco mais de uma hora comentando fatos sobre a vida alheia. Como na "roda da fofoca" de Sonia Abrão, eles conversam sobre os principais assuntos dos sites de notícias, além de perder vários minutos esmiuçando as redes sociais de celebridades. Em suma, mais do mesmo, ainda mais em se tratando de RedeTV, que tem outros tantos programas na mesma linha.

Estranho, se levar em consideração que a direção da RedeTV havia escalado Rosana Jatobá para ser a apresentadora e ter prometido a ela que o programa não teria somente fofoca. A jornalista declarou ao site Notícias da TV que a atração teria especialistas nas mais diversas áreas e seria variado. Mas, pouco tempo antes da estreia, com Lígia e Franklin também já escalados para a apresentação, Rosana Jatobá pulou fora. Provavelmente, percebeu que a emissora não cumpriria o que prometeu, e que Tricotando seria um programa de fofocas, sim.

Muito estranho ludibriarem Rosana Jatobá para que ela assumisse a função. O canal devia estar mesmo desesperado, pois havia convidado vários outros nomes, mas não conseguia uma apresentadora para o programa. Olga Bongiovanni, Regina Volpato, Mara Maravilha e Leo Dias foram sondados, mas todos recusaram. Aí apelaram para uma solução caseira e escalaram Rosana, que já faz parte do cast da RedeTV. Mas prometeram a ela que Tricotando não teria apenas fofoca. E é isso mesmo que a atração é: um programa de fofocas. 

Sendo assim, fez ela muito bem em deixar o projeto. Rosana Jatobá seguirá no jornalismo da emissora, participando das escalas de apresentação do RedeTV News e aguardando um projeto para chamar de seu. Melhor assim. A emissora precisa de mais um telejornal, e Rosana Jatobá é o nome para isso. E quanto ao Tricotando, Lígia Mendes e Franklin David se mostraram as escolhas mais adequadas. Só falta melhorar a pauta, já que o programa desdobra praticamente os mesmos assuntos mostrados também no A Tarde É Sua e no TV Fama. Esquisito.

André Santana

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Com "Choque de Cultura", Globo reforça seu alcance na web

"Sou culto"
Na semana passada, a Globo surpreendeu ao estrear o humorístico Choque de Cultura, um programete exibido após a Temperatura Máxima. A surpresa se deu em razão da quase falta de divulgação: apenas chamadas enigmáticas espalhadas na grade davam a entender que haveria uma novidade antes do futebol. Além disso, também surpreendeu a liberdade editorial da atração. Nos dois primeiros episódios, ficou claro que o programa está livre para fazer graça do que bem entende.

O Choque de Cultura já tem uma presença marcante na web. O canal despontou ao trazer os motoristas Renan, Rogerinho do Ingá, Julinho da Van e Maurílio fazendo comentários sobre cinema. Os personagens de Daniel Furlan, Caito Mainier, Leandro Ramos e Raul Chequer são figuras reconhecíveis. Eles satirizam os comentários confusos e cheios de lugares-comuns que dominam as redes sociais. O sucesso chamou a atenção da Globo, que já vinha trazendo o elenco do Choque para participações especiais. Mas este interesse levantou também o temor de que a emissora poderia contratá-los e, depois, tolher a liberdade dos humoristas numa possível versão televisiva.

Felizmente, não foi isso que aconteceu. Choque de Cultura estreou na Globo com a mesma graça da versão para a web. Isso porque o canal foi bastante feliz ao não cair na tentação de fazer uma versão televisiva da atração. Ao manter o formato sem maiores alterações, a emissora garantiu que a fórmula não desandasse. Além disso, o roteiro também parece bastante livre. Tanto que, no episódio de ontem, Renan chegou a citar Rodrigo Faro e as histórias chorosas que o animador apresenta na Record no mesmíssimo horário. Foi divertido.

Choque de Cultura é mais um passo da Globo na busca de ampliar seu alcance junto à web. Aproveitar talentos vindos da internet em sua programação é uma tentativa de atrair um público que já não assiste TV. Por outro lado, investir em conteúdo como o do Choque, que cabe em qualquer tela, também é um investimento nos seus canais da web. Um investimento, diga-se, praticamente garantido, já que a emissora traz um conteúdo já consagrado para seus canais e, assim, atrai novos internautas para eles. Não deixa de ser uma estratégia interessante. 

PS: desculpem o sumiço dos últimos dias. Demanda elevada de trabalho. Ainda bem, os "boletos" agradecem! rs

André Santana

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

SBT manda mal ao ampliar o "Primeiro Impacto"

"Separa que é briga!"

Nesta semana, o matinal Primeiro Impacto, do SBT, ganhou mais uma hora de duração. Agora, a atração comandada por Dudu Camargo e Marcão do Povo tem nada menos que quatro horas, cobrindo parte da faixa horária anteriormente dedicada ao público infantil. Trata-se de uma manobra equivocada da emissora (a ideia é do próprio Silvio Santos, dizem), já que Primeiro Impacto, claramente, não tem estrutura para ficar tanto tempo no ar.

O jornal já penava para preencher suas duas horas e meia, quando era exibido entre 6h e 8h30. Dudu Camargo e Marcão do Povo costumavam passar um bom tempo numa conversa fiada com o público, enquanto eram exibidas matérias requentadas do SBT Brasil e do SBT Notícias. O diferencial eram as entradas ao vivo, que davam alguma temperatura e agilidade ao noticioso. Mas ficava claro que o Primeiro Impacto operava precariamente, por mais esforçada que fosse sua equipe (e é preciso reconhecer isso: a equipe sempre se mostrou comprometida, procurando fazer um jornal longo sem recursos, mas com criatividade).

No entanto, com o fim do Mundo Disney, o Primeiro Impacto ganhou mais meia hora e nenhum investimento. O que já seria algo temeroso. Agora, ganhou mais uma hora. E segue com a mesmíssima estrutura. Assim, o que se vê no ar é uma espécie de reedição do SBT Notícias, que ocupa a madrugada toda. Neste jornal, as notícias vão sendo reexibidas e atualizadas de tempos em tempos. Agora, o Primeiro Impacto segue a mesma cartilha. Com isso, o SBT soma mais de oito horas de jornalismo ao vivo, ininterruptamente, sem ter estrutura para tal.

Além de não ter estrutura para comportar quatro horas de duração, o Primeiro Impacto ainda provoca a redução do espaço da programação infantil. O Bom Dia & Cia, único infantil diário da emissora, agora entra no ar às 10 horas da manhã. Assim, a emissora quebra uma tradição que mantinha desde que entrou no ar, nos anos 1980: dedicar toda a sua manhã aos infantis.

Não deu outra: com a ampliação, o Primeiro Impacto viu sua média de audiência cair. O jornal, que era vice-líder de audiência, passou a ficar atrás da Record. Trata-se de uma consequência esperada, já que a emissora nunca foi referência em jornalismo, e sim em infantis. Mudar um hábito como esse não é tão fácil assim.

Mas, pelo jeito, “enfiar” o Primeiro Impacto goela abaixo de seu público é uma missão de vida de Silvio Santos. O dono do SBT já tentou emplacar o jornal na hora do almoço, numa mudança estapafúrdia que durou menos de uma semana. Agora, tenta novamente, desta vez manhã adentro. Mas sem um investimento real, não há muito o que fazer para tornar o programa mais atrativo.

André Santana

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Fim do "Programa do Porchat" deixará a Record mais "pobre"

"Fui!"

A notícia de que Fábio Porchat solicitou a rescisão de contrato com a Record pegou todo mundo de surpresa. O apresentador do Programa do Porchat fez valer uma cláusula na qual é possível rescindir o acordo no final de cada temporada. Porchat declarou que ainda não sabe seu destino para o ano que vem. Mas o site Notícias da TV informou que o apresentador pode renegociar seu contrato e reivindicar modificações na linha editorial de sua atração.

Por isso, a princípio, o Programa do Porchat vai ao ar até o final do ano. O que será uma perda enorme para a Record. A atração nunca foi campeã de audiência, mas conseguiu ampliar a plateia da emissora na faixa horária, anteriormente dedicada a séries enlatadas. No entanto, mais do que audiência, o Programa do Porchat agregava prestígio e variedade à grade da programação da emissora.

Isso porque a programação da Record nunca esteve tão fraca. Com uma dramaturgia cambaleante, excesso de reprises e linha de shows tomada por formatos importados à beira do desgaste, a emissora ostenta uma grade pouco atrativa. Além disso, o jornalismo popular que abusa da violência e auditórios que exploram o assistencialismo fazem da programação da emissora algo um tanto quanto triste. Neste contexto, o Programa do Porchat era um ponto fora da curva.

Sendo assim, em meio a tanto chororô, o Programa do Porchat é um óasis de alegria na grade da Record. Com muito bom humor, Fábio Porchat recebe seus convidados para bate-papos interessantes. Além disso, propõe brincadeiras com eles, além de apostar em quadros de humor diversos. A atração conta ainda com participações inspiradas de Paulo Vieira, além de Fabiano Cambota e a divertida banda Pedra Letícia.

Nestes pouco mais de dois anos no ar, o Programa do Porchat conseguiu se diferenciar de seus concorrentes, adotando a personalidade do âncora. Fábio tem um perfil dos mais interessantes, já que consegue unir inteligência, humor e ironia sem descambar para a ofensa. Assim, é um dos poucos comediantes da atualidade que consegue ser engraçado e manter certa postura de bom moço, mas sem ser chato. Além disso, ele amadureceu em cena, conquistando o domínio de sua atração. Com isso, conquistou respeito e credibilidade junto ao público, à crítica e ao mercado publicitário.

Por isso, sua saída da Record representará uma perda e tanto para a emissora. O canal verá sair de cena um dos melhores e mais respeitados profissionais de seu cast. Fábio Porchat não deve ter dificuldades em se recolocar no mercado (ele já bate ponto no Papo de Segunda, do GNT, vale lembrar). Mas a Record terá sérias dificuldades em substituí-lo.

André Santana