As inúmeras definições de Simples Assim, novo programa de Angélica na Globo, eram de nos deixar desconfiado. Um programa que se propunha a falar sobre felicidade parecia ser algo piegas demais, ou que apelasse demais à emoção barata. Felizmente, a estreia apagou esta impressão ruim. Simples Assim é um programa simpático e muito bem-feito.

Angélica volta ao ar como se não tivesse ficado dois anos sem programa próprio. A apresentadora, que cresceu diante das câmeras, tem uma intimidade única com a lente e parece à vontade falando com o espectador. Em Simples Assim, ela deixou claro porque é, sim, um dos grandes nomes da televisão brasileira, mesmo tendo passado anos numa zona de conforto. Voltou tinindo.

E o programa surpreendeu positivamente por levar sua mensagem por meio de várias linguagens e abordagens. O roteiro, redondo e cheio de informações interessantes, foi desdobrado por meio de bate-papos com anônimos, esquetes de humor e ilustrações de extremo bom gosto. A cenografia é linda, a produção é competente e tudo funciona direitinho.

Muitos criticaram o programa por ser escapista demais. Realmente, os “problemas” apontados ali parecem pequenos diante de situações muito mais periclitantes por que passa boa parte da população brasileira. Mas não acho que isso desmereça o Simples Assim. O programa vem para reafirmar sentimentos positivos, e isso não me parece ruim. 

Mas concordo que é uma mensagem que parece segmentada. Simples Assim, apesar de apostar na emoção, um ingrediente básico da TV aberta, o faz com uma linguagem que parece não alcançar o amplo e variado público da tarde de sábado da Globo. A emissora sempre exibiu entretenimento puro ali, como Música Boa, Só Toca Top ou Tá Brincando, além do próprio Estrelas, programa anterior de Angélica. Há uma mudança radical de proposta. É uma proposta mais cabeça e reflexiva.

Ou seja, o TELE-VISÂO vai, novamente, repetir: a proposta de Angélica parece muito mais adequada para a TV paga do que para a TV aberta. Simples Assim tem o DNA do GNT. Ao tentar emplacar um programa nestes moldes num horário de público tão heterogêneo, a Globo se arrisca. É interessante ver Angélica num programa completamente diferente do que ela já vez em seus tantos anos de TV, mas sua nova proposta, apesar de ser repleta de boas intenções, parece estar no lugar errado.

André Santana