Na última quarta-feira, 29, a Record exibiu o último episódio da segunda temporada de The Four Brasil. Para driblar as dificuldades impostas pela pandemia de coronavírus, a emissora optou por exibir a semifinal, gravada com plateia reduzida num momento em que o isolamento social ainda estava mais frouxo, seguida de uma final improvisada ao vivo, com Xuxa, jurados e finalistas interagindo por uma videochamada. O resultado foi uma final chocha, inclusive na audiência: com baixíssimos índices, o segundo The Four foi um fiasco.

A queda do The Four tem a ver com uma série de erros, que foram agravados pela pandemia. Erros estes já apontados aqui em outras oportunidades. O principal deles: a infeliz ideia de se exibir o talent show no início das noites de domingo. The Four inaugurava um novo planejamento da emissora, que pretendia exibir todos os seus talent shows aos domingos, depois de Hora do Faro. Era uma das medidas para tentar reerguer o domingo da emissora, que vinha penando há meses, quando se tornou freguês do SBT, que ganhou fôlego com Domingo Legal e Eliana.

Está aí o erro. Se a ideia era fortalecer o domingo, não fazia muito sentido apostar numa linha de talent shows que nunca apresentou resultados satisfatórios nem mesmo nas noites de quarta-feira. Como se sabe, quarta-feira é um dia mais “fácil” de se emplacar entretenimento, já que a linha de shows dos demais canais concorre com o futebol da Globo. As demais emissoras sabem que “sobra” um público formado por mulheres e jovens, que buscam alternativas.

Foi justamente por isso que a Record exibia estes programas às quartas. The Four estreou no ano passado, mas desde 2018 a emissora já vinha apostando em Dancing Brasil, Canta Comigo, Batalha dos Confeiteiros e outros títulos nesta faixa, promovendo um revezamento de formatos que atravessava o ano. Uns eram mais bem-sucedidos que outros, naturalmente, mas nenhum deles explodiu. Estas atrações sempre apresentaram dificuldades ao concorrer com o Programa do Ratinho, do SBT.

Com este histórico morno, beirou a ingenuidade acreditar que qualquer um destes formatos poderia fortalecer o domingo. Se na quarta, com uma concorrência mais “tranquila”, eles não aconteceram, o que dirá o domingo, quando só estão em cena pesos-pesados? Na faixa das 18 horas, a Record encontrou uma Eliana cheia de fôlego e um Domingão do Faustão recebendo em alta do futebol. Ou seja, foi uma manobra que tinha tudo para dar errado.

E arrisco dizer que o fiasco nem foi tão grande quanto se supunha. Quando estreou aos domingos, The Four ficou bem longe do SBT, é verdade, mas ainda mostrou resultados semelhantes aos da primeira temporada. Ou seja, não serviu para elevar os índices de audiência, o que era esperado, mas mostrou que tinha, ao menos, um público cativo. Mas, claro, a direção da emissora se mostrou insatisfeita com os resultados (estavam esperando um milagre) e voltou com o The Four para quarta. Neste momento, as atenções do público já estavam voltadas às notícias sobre o novo coronavírus, e a mudança afundou o programa de vez.

Ou seja, The Four enfrentou mudanças intempestivas, impaciência da direção da Record e até o novo coronavírus. Soma-se a isso o fato de o formato ser até divertido, mas com pouco apelo, e o resultado foi um fiasco um tanto barulhento. E isso só prova o que já batemos na tecla aqui várias vezes: a Record tem trocentos formatos, todos muito parecidos uns com os outros, e nenhum capaz de se tornar um grande sucesso. É um mistério os motivos de a emissora continuar insistindo neles.

Com a pandemia, os demais formatos estão cancelados este ano. A emissora poderia aproveitar este hiato para repensá-los. Não faz muito sentido insistir em programas que, claramente, o público da emissora não se interessa. É hora de renovar a linha de shows.

André Santana