Com o naufrágio da nova programação dominical, somada à paralisação das produções de TV em razão da pandemia de coronavírus, a Record se viu em maus lençóis. Entre as últimas providências, a emissora moveu o The Four de volta para as quartas-feiras, enquanto transformou o Made in Japão. O misto de reality e game show comandado por Sabrina Sato, que deveria ser o carro-chefe do agora extinto Domingo Show, se tornará uma atração solo, exibida nas noites de sábado a partir de maio.

A transformação não deve acarretar grandes mudanças. Afinal, o quadro já era um “programa dentro do programa”. Com cenários, dinâmica e ritmos próprios, Made in Japão sempre teve todas as condições de segurar um horário sozinho. A atração reúne “famosos” numa casa cheia de referências ao Japão. Além de conviverem por ali, eles ainda precisam passar por provas um tanto malucas e non sense, games típicos da TV japonesa. Para quem gosta de um game show com tombos e meleca, é um prato cheio.

E, curiosamente, Sabrina Sato combina bastante com a apresentação do game. Não apenas por ser oriental, claro, mas também porque é tudo tão absurdo, no melhor sentido da palavra, que Sabrina se diverte em cena. E Sabrina, como sabemos, é uma figura muito marcada pelo humor. Ela não tem filtros, cai na risada e tira sarro dos participantes o tempo todo.

Tempos atrás, quando a Record anunciou a extinção do Programa da Sabrina, chegamos a questionar se Sabrina conseguiria se enquadrar naquela estratégia da emissora de transformar apresentadores em mestres de cerimônias de formatos. Naquela época, a Record já tinha feito isso com Xuxa Meneghel, o saudoso Gugu Liberato e Marcos Mion. Sabrina seria a próxima, mas gerava desconfiança, tendo em vista que um formato poderia minar sua conhecida espontaneidade. Eis que, com o Made in Japão, a Record parece ter conseguido um formato adequado para sua estrela. Funcionou.

No entanto, por mais que Made in Japão combine com o jeitão de Sabrina, ainda não sabemos se a atração vai funcionar nas noites de sábado. Nas tardes de domingo, como se viu, não deu certo. Será que, num novo horário, o formato conseguirá atrair um público maior? De repente, com a parca produção inédita que a TV aberta exibe atualmente, por conta da pandemia, Made in Japão pode ter uma vantagem. Além disso, Legendários, que a Record vai reprisar a partir de hoje, 11, fez sucesso no horário com games non sense. Pode ser que Sabrina reencontre este público. Vamos ver.

Mas, independentemente dos resultados que o Made in Japão venha a alcançar, é fato que a Record devia rever esta política de formatos importados. Porque, vamos combinar, a maioria deles não emplacou. Dancing Brasil, Top Chef, Canta Comigo e The Four têm desempenhos de mediano a fraco. Recentemente, a emissora exibiu Hair, reality sobre cabelos, dentro do Hoje Em Dia, e também nas noites de sábado. Passou em brancas nuvens. Power Couple, apesar de não ser um fracasso, também não chega a virar mania. Apenas A Fazenda e Troca de Esposas parecem alcançar resultados mais expressivos.

Recentemente, em sua coluna no UOL, Flavio Ricco chegou a fazer uma provocação, de que a Record devia criar mais e apostar menos em formatos. E o colunista tem toda razão. Diz-se muito que apostar em formatos é mais seguro, já que se trata de uma produção fechada, praticamente pronta. Ou seja, quase a prova de erros. Mas, se considerarmos os resultados práticos desta aposta, desde que a emissora trocou programas de variedades por formatos importados, que há mais erros que acertos.

Neste contexto, os resultados de Made in Japão como programa-solo podem ser determinantes no sentido de fazer a emissora repensar esta estratégia. Afinal, quanto tempo mais a direção da Record vai investir fortunas em produções suntuosas como estas, mas incapazes de despertar o interesse do próprio público do canal? As saídas são duas: ou melhoram a “curadoria” quando forem escolher os formatos a comprar; ou comecem a ter ideias eles mesmos. Continuar do jeito que está é dar murro em ponta de faca.

André Santana