Pega Pega estreou na última terça-feira, 06, na faixa das 19h da Globo, com um primeiro capítulo bastante irregular. Enquanto demonstrava fôlego e ritmo na trama envolvendo o Hotel Carioca Palace, caía num emaranhado de clichês mal ajambrados quando se aventurava a mostrar os personagens que estavam fora do cenário principal. Entretanto, a trama da estreante Claudia Souto retoma a comédia romântica açucarada e quase infantil que fez o sucesso das últimas tramas das sete, como Totalmente Demais e Haja Coração (Rock Story foi por um outro caminho).

Pega Pega acerta na trama central ao fazer comédia inspirada nos antigos filmes de investigação e perseguição. Um roubo num grande hotel é um ponto de partida excelente, pois tem um cenário recheado de possibilidades. Além disso, consegue tirar graça dos “ladrões”, todos amadores, que mais pensam que são mais espertos do que realmente são. Entre eles, Júlio (Thiago Martins), um dos mocinhos da trama.

Júlio foi apresentado como um rapaz batalhador, que trabalha no Carioca Palace e cuida de duas tias idosas, as divertidas e simpáticas Elza (Nicette Bruno) e Prazeres (Cristina Pereira). Quando ele descobre que o hotel está sendo vendido, o que ameaça o seu emprego, e, de quebra, recebe uma ameaça de despejo, ficará mexido com a oferta de Malagueta (Marcelo Serrado), o idealizador do plano de roubar o hotel. Ou seja, é um herói balançado diante da possibilidade de participar de um crime, sob a justificativa de salvar sua família. No primeiro capítulo, teve um encontro rápido e simpático com Antônia (Vanessa Giácomo), uma investigadora, e viu-se ali uma faísca. Um casal improvável e interessante há de surgir.

Os demais envolvidos no roubo do hotel são o já citado Malagueta, que já mostrou ser o mais mau-caráter dentre os integrantes da quadrilha; e o casal Agnaldo (João Baldasserini) e Sandra Helena (Nanda Costa), dupla de alta voltagem sexual que também sofre com a possibilidade de perderem seus empregos. O encontro dos quatro e toda a execução do roubo do dinheiro, pago por Eric (Matheus Solano) ao falido ex-dono do lugar, Pedrinho Guimarães (Marcos Caruso, excelente no papel), foi todo muito bem cadenciado, dando a Pega Pega um ritmo intenso e envolvente.

Além de Júlio e Antônia, Pega Pega tem um outro casal central: Eric e Luíza (Camila Queiroz). Quando a novela começa, os dois se encontram em Foz do Iguaçu e se apaixonam à primeira vista, num primeiro encontro improvável e bem fraquinho. Ele compra o Carioca Palace, mas Luíza, que é neta de Pedrinho, não concorda com a venda do hotel, o que gera um forte conflito entre os pombinhos. Eric e Luíza, ao contrário de Júlio e Antônia e Agnaldo e Sandra Helena, não empolgaram nestes primeiros capítulos. Eric é um sujeito sério, sem muito carisma, e tem uma maneira esquisita de se mostrar preocupado com uma filha problemática. E Luíza traz Camila Queiroz vivendo sua primeira personagem não-interiorana. A atriz pena para encontrar alguma naturalidade em cena. Não chega a comprometer, mas ainda não chegou lá. O melhor desta história é o terceiro vértice de uma espécie de triângulo amoroso, Maria Pia (Mariana Santos). A comediante está ótima como uma mulher apagada, que nutre uma paixão platônica pelo amigo Eric.

Ligada a este início está a história de Bebeth (Valentina Herszage), filha de Eric, que foge do pai e se perde numa mata fechada em Foz. Quem a salva é Márcio (Jaffar Bambirra), herdeiro de uma família que forma uma companhia de teatro de bonecos. Os dois formam o casal jovem e fofo do enredo, mas ainda não disseram a que vieram. O fato de Bebeth conversar com um canguru de pelúcia pareceu bastante estranho.

O texto de Pega Pega é bem mais infanto-juvenil que o de Rock Story, mesclando comédia romântica com piadinhas batidas e sem muita força. Bem diferente da antecessora, que tinha contornos mais dramáticos e um enredo mais adulto. Fica clara a intenção de, com Pega Pega, retomar o público conquistado por Totalmente Demais e Haja Coração. E, ao que tudo indica, a missão será bem-sucedida, já que a trama foi muito bem de audiência em sua primeira semana. Pega Pega deve “pegar”.

O grande mérito da história de Claudia Souto é mesmo sua trama central, muito bem arquitetada e divertida. As tramas paralelas ainda não empolgam, mas podem render quando se integrarem mais ao eixo central. No geral, a autora tem nas mãos uma trama com grande potencial. Aparando as arestas, tem todas as condições de manter a boa fase da faixa das sete da Globo.

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André Santana