Na década de 1990, o programa Mulheres, da Gazeta, e o Note e Anote, da Record, fizeram proliferar um formato que virou história na TV brasileira: os programas femininos baseados em merchandising e culinária. Ana Maria Braga se tornou o expoente máximo do formato, quando chegou a ocupar cerca de seis horas da grade diária da Record ensinando a espectadora a cozinhar e realizar peças de artesanato. Entre uma dica e outra, vendia de tudo: de cartilagem de tubarão a iorgurteira.

No entanto, este formato foi se modificando ao longo das décadas de 2000 e de 2010. Entre 2000 e 2020, ascenderam os programas de fofoca e as revistas eletrônicas, que tomaram todo o espaço do antigo “feminino tradicional”. Ana Maria Braga, que nesta época já havia emplacado o seu Mais Você na Globo, sobreviveu ao apostar em entrevistas, jornalismo e reality shows, aperfeiçoando a fórmula. Os antigos programas ditos “femininos” não chegaram a morrer de vez, mas ficaram relegados aos canais menores.

Neste novo contexto, outro expoente dos programas femininos se reinventou para permanecer no ar: Claudete Troiano. A veterana, que cresceu no Mulheres e apresentou femininos também na Manchete, Record, Band e SBT, acabou encontrando na TV Aparecida um espaço para um formato que parecia próximo da extinção. Ali, ela voltou a emplacar o formato que a consagrou no Santa Receita, vespertino no qual comandava pautas de saúde, prestação de serviço e culinária. E, claro, vendia muito. Tornou-se um dos grandes sucessos do pequeno canal, que começava a se destacar no ranking da audiência.

Mas a pandemia e mudanças de rumo da TV Aparecida fizeram Claudete se afastar do programa que criou. Porém, a apresentadora ficou pouco tempo afastada do vídeo, já que um patrocinador bancou sua contratação pela RedeTV. O que se revelou um negócio interessante para o canal, que havia acabado de perder Edu Guedes, um de seus grandes “vendedores” matinais. A força comercial de Claudete Troiano fez com que ela se tornasse a substituta ideal do chef, que agora bate ponto nas manhãs da Band.

Foi assim que nasceu o Vou te Contar, no ar há duas semanas. O novo matinal é um “compacto” de tudo o que Claudete Troiano já fez e refez na TV brasileira: pautas de saúde, prestação de serviço e culinária, tudo costurado por inúmeras ações de merchandising. E é esse o problema: Claudete volta a fazer o que sempre fez, mas num contexto em que este tipo de formato já parece completamente ultrapassado. No ar, a sensação de “mais do mesmo” explodiu, como se tudo fosse feito no mais batido piloto automático. Aliás, até mesmo o cenário da atração já é uma reciclagem das atrações matinais anteriores da emissora: Edu Guedes e Você, Olga e Melhor pra Você. A sensação de produção envelhecida incomoda.

Além disso, a RedeTV repete com Claudete Troiano o mesmo erro que cometeu quando promoveu a volta de Olga Bongiovanni: pouco tempo para muito merchan. O programa Olga também não fugia da mesma fórmula, só que sem culinária. Porém, tinha apenas uma hora de duração e muita propaganda, o que atravancava a atração. Vou te Contar tem 15 minutos a mais, mas ainda assim não consegue fazer uma pauta fluir, já que são inúmeras as interrupções para vender.

Ou seja, além de já nascer com cara de velho, Vou te Contar ainda enfrenta um grave problema de ritmo. Assim, não há programa que resista. Prova disso é a péssima audiência destas duas primeiras semanas do programa, que tem dificuldades em sair do traço absoluto. Quanto tempo o patrocínio de Sidney Oliveira resistirá a esta falta de público?

É uma pena que a RedeTV esteja refém de sua grade matinal completamente equivocada. A emissora insiste em João Kleber e seu Você na TV, que também não é nenhum estouro de audiência. Já que o canal tem em mãos uma apresentadora experiente como Claudete, que ainda trouxe um bom patrocinador, poderia entregar a ela sua manhã toda, e com um programa mais moderno e menos “cansado” que o Vou te Contar. Algo nos moldes do extinto Melhor pra Você, que, em seus primeiros momentos, tinha um conteúdo variado e interessante. 

Mas isso é esperar muito da RedeTV, uma emissora que alardeia tecnologia, mas é incapaz de criar um conteúdo minimamente criativo. Uma das mais jovens emissoras brasileiras, o canal insiste em colocar no ar uma programação que parece empoeirada de tão antiquada. É uma pena.

André Santana