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A saga de Cazé Peçanha na Globo: a "revolução" que não deu certo

Cazé Peçanha à frente do Sociedade Anônima
Cazé Peçanha à frente do Sociedade Anônima (divulgação)

A transição de talentos da MTV para as grandes redes de televisão aberta sempre foi um processo cercado de expectativa e riscos na televisão brasileira. Entre o final de 1999 e o decorrer de 2001, o apresentador Carlos José de Araujo Pecini, o Cazé Peçanha, protagonizou uma das trajetórias mais emblemáticas desse movimento ao trocar o canal jovem pelo horário nobre da Rede Globo.

Com uma bagagem marcada pelo improviso e por uma carreira fora dos padrões tradicionais, que incluiu desde aulas de inglês para executivos até o trabalho como camelô de bijuterias na Ásia, Cazé desembarcou na emissora carioca sob o status de aposta inovadora. Contudo, entre o anúncio da contratação e a saída da emissora, o ex-VJ enfrentou um longo período de espera, desafios de adaptação ao "padrão Globo", cancelamentos precoces e o posterior rompimento de contrato.

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Da MTV ao convite do Casseta & Planeta

O interesse da Globo por Cazé amadureceu no segundo semestre de 1999, impulsionado pela trupe do Casseta & Planeta. Entusiastas da performance do VJ à frente do Teleguiado e do VJ por um Dia, os humoristas vislumbraram no apresentador o perfil ideal para comandar um programa de auditório moderno na emissora.

Conforme reportado por Erika Sallum na Folha de S. Paulo em 2 de janeiro de 2000, o projeto recebeu o aval da alta cúpula da emissora, representada por Daniel Filho (diretor de criação) e Marluce Dias da Silva (diretora-geral). À época, o humorista Marcelo Madureira exaltou a escolha:

"Cazé é um dos maiores talentos da TV atualmente, um apresentador fantástico. A gente nem conhecia pessoalmente o cara quando o chamamos para conversar e descobrimos que, além dessas qualidades, ele é muito bacana."

Em entrevista ao Jornal do Brasil (07/01/2000), o próprio apresentador comentou o desejo de utilizar a infraestrutura da nova casa para ampliar o alcance de seu trabalho:

"A ideia é que o programa aproveite as facilidades que a Globo oferece. Vou estar em São Paulo, mas poderei conversar com pessoas em Minas, por exemplo."

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O "QG do Itaim" e os sucessivos adiamentos

Apesar do entusiasmo inicial, a concepção da atração revelou-se complexa. Em abril de 2000, a Folha de S. Paulo registrou que uma equipe de criação formada por ex-profissionais da MTV se reuniu em um apartamento no bairro do Itaim, em São Paulo, para formatar o esqueleto do programa. A proposta era criar algo "diferente, inteligente e interativo", mantendo a essência do improviso que consagrou o apresentador.

Contudo, o projeto, inicialmente chamado de Ilustre Desconhecido e depois batizado de Sociedade Anônima, começou a acumular adiamentos. A previsão de estreia, contada para o segundo semestre de 2000, foi empurrada para janeiro de 2001 e posteriormente suspensa sem data definida.

Em reportagem assinada por Bruno Garcez e Cristian Klein na Folha de S. Paulo (14/01/2001), a direção da emissora e a equipe justificaram a cautela pelo grau de inovação tecnológica do formato, que buscava integrar a transmissão televisiva com o portal Globo.com através de webcams e votação de internautas em tempo real. Na mesma matéria, Cazé reconheceu o choque de escala entre as duas estruturas:

"Saí de um estúdio da MTV de 30 m² para um de 1.000 m² na Globo. Preciso ainda me adaptar a tudo isso. A MTV é uma TV segmentada, tem muito menos compromisso que a Globo. Aqui, você não pode perder de vista que está falando com um número muito maior de pessoas."

Às vésperas da confirmação da estreia, o apresentador declarou à jornalista Laura Mattos (Folha de S. Paulo, 25/03/2001) que considerava correta a decisão de reter o produto até que estivesse maduro:

"Quando eu estava de fora da Globo, tinha essa impressão de geladeira. A vivência que eu tenho lá dentro é diferente. É óbvio que eu gostaria de estar no ar há mais tempo. Mas acho que foi uma decisão acertada da Globo."

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Estreia, críticas e o fim do Sociedade Anônima

O Sociedade Anônima estreou finalmente no dia 1º de abril de 2001, exibido aos domingos no final da noite, após o humorístico Sai de Baixo. Com quadros focados em valorizar cidadãos comuns — como um show de calouros para profissões televisivas e a participação de um "auditório virtual" de internautas —, a atração buscava "celebrizar o anônimo".

A recepção da crítica, no entanto, apontou problemas na execução. Em análise publicada na revista Isto É - Gente (05/04/2001), a jornalista Silvia Ruiz criticou a edição acelerada e o engessamento do formato:

"O programa é uma cópia mal feita do VJ por um Dia [...]. A diferença é que o público do auditório da Globo tem cara de figurante. Limpinho e bem comportado. [...] A Globo vai ter de abusar de seu padrão de qualidade se quiser levar ao público um Sociedade Anônima que não tenha cara de programa-piloto."

Apesar de ter estreado com 15 pontos no Ibope, a atração sofreu queda de audiência nas semanas seguintes, registrando médias em torno de 10 pontos contra a concorrência do Topa Tudo por Dinheiro (SBT), comandado por Silvio Santos.

Apenas nove semanas após a estreia, em 24 de maio de 2001, a Globo comunicou oficialmente o cancelamento do programa. Em declarações ao Jornal do Brasil e à Folha de S. Paulo publicadas na mesma data, Cazé manifestou seu abatimento com o fim precoce do projeto:

"Estou chateado e frustrado porque me identificava muito com o programa. Mas a emissora achou o horário inadequado. É difícil competir com alguém que faz televisão há 30 anos. Silvio Santos é o mestre dos masters."

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Parceria com Guel Arraes e o Fantástico

Após o encerramento do Sociedade Anônima, a Globo optou por reformular a presença de Cazé na programação. Em julho de 2001, o jornal O Estado de S. Paulo, em matéria de Sônia Apolinário, informou que o apresentador se desligou amigavelmente da supervisão do grupo Casseta & Planeta para iniciar uma parceria com o diretor de núcleo Guel Arraes.

Em setembro de 2001, Cazé estreou o quadro TV Megafone no Fantástico. Trazendo sua emblemática buzina e um megafone, a atração realizava intervenções performáticas em locais públicos a partir de fatos reais. Na estreia, o ex-VJ gravou na porta da CBF tentando desafiar os times do presídio do Carandiru para um jogo contra a seleção brasileira. Em entrevista a Elizabete Antunes (O Globo, 09/09/2001), Cazé celebrou o novo espaço:

"Estarei no horário nobre, que é um horário melhor do aquele em que eu estava [...]. O Fantástico é um transatlântico da Rede Globo. E, quem sabe, vou até ser eventualmente apresentado pelo Cid Moreira. É para pôr no currículo."

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Desgaste, fim de contrato e negociações de retorno à MTV

Apesar das boas marcas de audiência registradas pelo quadro no Fantástico, que chegaram a alcançar 33 pontos no Ibope, a permanência do TV Megafone durou pouco e acabou retirada da grade. O desgaste acumulado pelo material gravado que não ia ao ar e pelas sucessivas mudanças levaram Cazé a decidir não renovar seu contrato, que se encerraria em 31 de dezembro de 2001.

Em entrevista a Elena Corrêa (O Globo, 04/11/2001), Cazé fez uma avaliação crítica sobre a condução de sua trajetória na emissora:

"Acho que foi feita uma avaliação equivocada e que o trabalho de popularização da minha imagem foi o inverso do previsto: eu deveria começar com quadros para depois ter um programa [...]. Com o TV Megafone' do Fantástico chegamos a dar 33 pontos de audiência. Isso quebra a teoria de que é culpa do ibope."

À mesma época, Cláudia Croitor informou na Folha de S. Paulo (04/11/2001) que o apresentador se recusou a gravar novas matérias até o fim do contrato: "Estou cansado de gravar um monte de reportagens e quase nada ir ao ar. Quero aparecer." Na mesma reportagem, o também ex-VJ Thunderbird analisou as dificuldades da transição entre os dois canais:

"A Globo perdeu pela segunda vez a chance de ter um novo Chacrinha, a primeira foi comigo. Eu e o Cazé fizemos sucesso na MTV. Por que não na Globo? Acho que o problema não está em nós."

Conforme noticiado por Keila Jimenez no O Estado de S. Paulo (23/11/2001), o término do vínculo com a emissora carioca abriu espaço para o retorno de Cazé Peçanha à MTV em 2002. Ele voltou à antiga emissora à frente do game show Neurônio MTV e voltou a fazer sucesso no canal musical, permanecendo ali por vários anos.

André Santana

07/08/2026

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1 Comentários

  1. Olá, tudo bem? Lembro desse fracasso. Rsrs...Abs, Fabio blogfabiotv.blogspot.com.br

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