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| Priscila, Borges e Gilmar na TV Colosso (divulgação) |
A transição da programação infantil da TV Globo no início de 1993 foi marcada por um dos maiores desafios estratégicos da história da emissora. Com a despedida do Xou da Xuxa, que durante anos dominou de forma absoluta as manhãs da TV aberta, o canal viu-se diante da necessidade urgente de preencher um vácuo gigantesco na grade matutina.
A resposta para essa incerteza não veio na forma de uma nova apresentadora mirim, mas sim através da ousadia de dar voz, vida e formato de meta-televisão a uma animada e debochada trupe canina. Nascia a TV Colosso!
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Mundo Cão
Os primeiros passos da atração começaram a ser desenhados ainda no final de 1992. Conforme revelado pelo repórter Murilo Gabrielli na Folha de S. Paulo (10/01/1993), a Globo convocou o grupo gaúcho Cem Modos, especializado em teatro de bonecos, para desenvolver um projeto de animação que recebeu o título provisório de Mundo Cão.
Luis Ferrer (Ferré), um dos fundadores da trupe, explicou na época que a escolha de cães como protagonistas se devia ao caráter "afetivo e engraçado" do animal, adiantando que a atração buscava inspiração no tom ácido e social de Os Simpsons, mirando em crianças acima de oito anos.
A parceria não nascia do zero. A aproximação foi conduzida pelo diretor José Bonifácio Brasil de Oliveira, o Boninho, que já havia trabalhado com o Cem Modos em produções anteriores como o programa Clip Clip (1983-1984) e o especial Plunct, Plact, Zuuum.
Paralelamente, em reportagem publicada por Marília Martins no jornal O Globo (10/01/1993), detalhava-se a criação da empresa Criadores e Criaturas, fusão do Cem Modos com o produtor José Amâncio, que apresentava a Boninho os protótipos de 23 personagens.
Enquanto os novos bonecos eram desenvolvidos e a programação de férias da Globo exibia reprises do Xou e episódios da série Mundo da Lua, a equipe corria contra o tempo. Em reportagem do Jornal do Brasil (06/02/1993), Boninho detalhou o enredo básico da atração: uma emissora de televisão espacial operada inteiramente por cães.
A matéria trazia ainda a informação de que a Globo negociava paralelamente a compra de bonecos mutantes produzidos pela renomada Jim Henson Creature Shop, criadora da Família Dinossauros, com a ideia de utilizá-los no mesmo horário, um projeto internacional que acabou sendo adiado pela emissora, e que acabou não saindo do papel.
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HQ na TV
No mês de março, o projeto tomou contornos definitivos e ganhou o seu nome oficial. Em matéria assinada por Sônia Apolinario no jornal O Globo (21/03/1993), revelou-se que a TV Colosso estrearia no dia 19 de abril, ocupando a faixa das 8h às 12h. O grande trunfo criativo do programa foi a escalação de um time de peso vindo dos quadrinhos para assinar os roteiros: liderados por Laerte, a redação contava com Angeli, Glauco, Fernando Gonzales, Luis Gê, Toninho Neto e Valério Campos.
"A linguagem dos quadrinhos é a que mais combina com os bonecos, que têm uma especificidade dramática própria, já que não são atores e nem é desenho animado", explicou o diretor de arte Luís Ferré ao Jornal do Brasil (01/04/1993).
A confecção dos 25 cães e três pulgas ficou a cargo da oficina de Beto Dornelles em Porto Alegre. Conforme detalhado por Andréia Curry no Jornal do Brasil (01/04/1993) e por Paulo Ricardo Moreira no jornal O Dia (25/04/1993), os bonecos dividiam-se em diferentes níveis de complexidade tecnológica.
Um dos tipos de bonecos era o Gigante, que eram oito fantasias de dois metros vestidas por atores/bailarinos, cuja identidade era mantida em segredo, com movimentos faciais e oculares acionados por controle remoto via rádio e computador, tecnologia “animatrônica” idêntica à de Família Dinossauros. É o caso da produtora Priscila, cuja cabeça pesava oito quilos, e do JF, o dono da TV Colosso. Haviam também os bonecos médios e pequenos, entre 1m a 70cm, que eram manipulados por até três pessoas ao mesmo tempo via varas, luvas e cabos.
Havia ainda uma equipe de dublagem comandada por Mário Jorge no estúdio Herbert Richards, composta por 10 dubladores incumbidos de dar personalidade vocal aos personagens, descartando o uso de atores famosos.
A identidade visual do programa ganhou uma camada artesanal e vibrante. A cenógrafa Lia Renha assinou os cenários, enquanto o artista plástico Flávio Papi construiu em seu ateliê em Santa Teresa uma impressionante maquete da "Cidade da TV Colosso". Como detalhou O Dia (25/04/1993), a miniatura com 11 prédios iluminados e um letreiro estilo Hollywood na colina foi feita utilizando latas de cerveja, tubos de PVC, plástico e madeira reciclada.
Já as vinhetas e a programação visual ficaram a cargo do artista gráfico Pojucan que, em entrevista à Adriana Ferreira no jornal O Globo (24/04/1993), explicou ter criado fundos coloridos inspirados em papéis de presente, barras de chocolate e no enquadramento a partir do ponto de vista (perspectiva) de um cachorro.
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Personagens
A grande sacada narrativa do programa esteve na construção de um microcosmo que simulava, em tom de paródia, a rotina real de uma emissora de televisão operada por e para cachorros. No centro dessa engrenagem estava a sheepdog Priscila, produtora executiva histérica, afetada e charmosa que se transformou no verdadeiro xodó do público e dos criadores.
A liderança burocrática da estação cabia a JF, um sabujo autoritário e ranzinza que exercia o cargo de diretor-geral, sempre escoltado por Capachão, um vira-lata que encarnava o clássico assistente "puxa-saco" e capacho do chefe.
A programação do canal fictício contava com tipos igualmente caricatos à frente e atrás das câmeras. O jornalismo era comandado por Walter Gate, um cão galã e solene que ancorava o Jornal Colossal, enquanto a cena musical ficava a cargo de Thunderdog, um VJ descolado idealizado como uma homenagem explícita ao apresentador Thunderbird, da MTV.
Na cabine técnica, a pressão do ao vivo recaía sobre Borges, um bulldog estressado que operava o corte de imagens e chamava os desenhos animados. A mitologia da emissora ainda contava com o trágico Antenor, técnico enviado ao espaço ao lado da cadela Laika para regular a antena da estação e que jamais retornou (“Tire-me daquiiiii!”, gritava ele a cada aparição), além do Mega-trio, três pulgas anárquicas que habitavam os circuitos eletrônicos, roíam a fiação e teciam comentários ácidos sobre a própria programação.
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Repercussão
Após as chamadas oficiais e matérias nos jornais da época, a TV Colosso estreou em 19 de abril de 1993. O público infantil foi brindado com quadros fixos como a novela mexicana Os Filhos da Cadela, a série Asfalto Quente, o Grande Teatro Colosso e o Jornal Colossal, com Walter Gate e a Cadelinha do Tempo Peggy Sunshine. Segundo Sônia Apolinario em O Globo (18/04/1993), a grade trouxe cinco desenhos inéditos no país: Spiff e Hercules, Onde está Wally?, Widget, Traz-Mania e Chuck Norris.
A reação da crítica especializada nos primeiros dias dividiu-se entre o entusiasmo com o salto de qualidade e reparos técnicos pontuais. Annette Schwartsman, em crítica publicada no jornal O Globo (25/04/1993) intitulada "TV Colosso salva baixinhos", celebrou o fim do reinado do Xou da Xuxa, cravando que o novo infantil "dava de dez a zero no antecessor" ao apresentar personagens humanizados, irônicos e um texto inteligente.
No Jornal do Brasil (20/04/1993), a crítica Marília Martins comemorou a saída de cena da substituição provisória de Sérgio Mallandro e elogiou a seleção de desenhos. Contudo, apontou "altos e baixos" na estreia: a dublagem de Mário Jorge escorregou e deixou a voz de algumas pulgas ininteligíveis; os cenários mudavam de escala rápido demais, tornando-se irreconhecíveis; e a direção de cena comandada por Boninho, Luiz Ferré e Mário Meirelles pesou a mão nas "piruetas de câmera", poluindo o ritmo dos quadros curtos entre os desenhos.
Apesar das arestas iniciais, naturais para uma produção daquela magnitude técnica, o potencial do programa era evidente. Conforme reportado por Lucia Faria no jornal Meio & Mensagem (19/04/1993), a produtora Criadores e Criaturas e a TV Globo já articulavam uma forte expansão de negócios antes mesmo do primeiro mês de exibição terminar.José Amâncio, produtor executivo, revelou que a empresa planejava exportar o formato dos bonecos para emissoras dos Estados Unidos e da América Latina, aproveitando o alto know-how técnico aliado a um custo de produção mais competitivo. O plano, entretanto, não chegou a vingar.
Na frente de negócios local, as marcas que antes financiavam a franquia Xuxa migraram rapidamente para a TV Colosso, dando início a uma das linhas de licenciamento de brinquedos, produtos escolares e alimentos mais bem-sucedidas da história da televisão brasileira nos anos 1990.Deste modo, o que nasceu da urgência de substituir uma superstar consagrada consolidou-se, assim, como um marco de inovação estética, inteligência de roteiro e apuro técnico na TV aberta brasileira.
E o resto é história: TV Colosso fez um enorme sucesso, virou quadrinhos, peça de teatro e filme para cinema e ficou um bom tempo no ar, animando as manhãs da Globo com uma turma boa pra cachorro. A atração ficou no ar até janeiro de 1997, quando foi substituído pelo Angel Mix, de Angélica.
André Santana
30/07/2026

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