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| Gerluce (Sophie Charlotte) e Arminda (Grazi Massafera) em Três Graças (Estevam Avellar/Globo) |
Fazia tempo que a Globo não oferecia em seu horário nobre uma trama bem construída. Mania de Você (2024), por exemplo, pecou pelo enredo rocambolesco, no pior sentido da palavra. Enquanto isso, Vale Tudo (2025) mostrou-se incapaz de se aprofundar em diversos temas e o que se viu foi uma série de situações episódicas apressadas, muitas sem qualquer sentido.
Três Graças, atual cartaz da faixa das nove da Globo, deixou tudo isso para trás. Prestes a chegar ao capítulo 100, o folhetim assinado por Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva se mostra uma história que preza pela construção bem feita dos personagens e da trama que os envolve. Há uma amarração muito consistente e uma linha dorsal muito bem definida na saga de Gerluce (Sophie Charlotte), sua mãe Lígia (Dira Paes) e sua filha Joélly (Alana Cabral).
As últimas semanas foram eletrizantes e não economizaram viradas. Logo no início de 2026, a volta de Rogério (Eduardo Moscovis) serviu para mudar o jogo e reafirmar as vilanias de Ferette (Murilo Benício) e Arminda (Grazi Massafera). Nos mais recentes capítulos, os conflitos familiares envolvendo o vilão e seus filhos Lorena (Alanis Guillen) e Leonardo (Pedro Novaes) se intensificaram. Por fim, a própria Arminda colocou a mão na massa e se tornou uma assassina, matando Célio (Otávio Muller) empurrando o vizinho escada abaixo.
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Sem pressa
Esses momentos de catarse só foram possíveis porque os autores de Três Graças souberam conduzir a história sem pressa, um defeito de boa parte das produções audiovisuais atuais. Os novelistas seguiram a cartilha do velho folhetim, optando por desenrolar a história principal aos poucos, fazendo o público se envolver com os personagens e entender as motivações de cada um.
Afinal, não seria fácil compreender a mocinha Gerluce liderando um assalto se a audiência não entendesse de onde ela veio e como ela chegou a essa situação-limite. Também é bem mais interessante odiar Ferette agora, quando as camadas de vilania do malvado se intensificaram. Afinal, ele não é apenas um bandido, capaz de trocar remédios por farinha para enriquecer, mas também um controlador homofóbico e transfóbico, batendo de frente com os filhos e a esposa Zenilda (Andrea Horta).
Arminda também vive um ponto de virada interessante. No início de Três Graças, muita gente reclamou que a megera não era uma vilã tão cruel, já que aparecia apenas em casa maltratando os empregados e a mãe. Entretanto, a novela optou por desenvolver a maldade da vilã a conta-gotas, o que se revelou uma decisão acertada. Afinal, se Arminda já fosse uma vilãzona desde o início da história, neste momento da trama ela já estaria over.
Importante perceber que essa construção foi bem pensada. Basta lembrar que, no grande flashback que revelou a falsa morte de Rogério, Arminda surgiu com tintas bem menos carregadas. Ou seja, a história da novela deixa claro que a vilã vai ganhando força e se tornando mais cruel no decorrer dos acontecimentos. Isso deixa a personagem muito interessante.
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Boa novela
As últimas produções da Globo no horário nobre tropeçaram tanto na construção de seus enredos que, comparadas a elas, Três Graças se mostra infinitamente superior. Isso faz com que a trama até pareça bem melhor do que realmente é. Três Graças, de fato, é uma boa novela, sem dúvidas, mas ela tem seus problemas.
Porém, eles ficam pequenos diante da qualidade da história que a Globo apresenta em seu horário nobre. A experiência de Aguinaldo Silva fazia falta, e a injeção de sangue novo advinda de Virgilio Silva e Zé Dassilva faz com que a trama apresente algum arrojo, mas sem perder o folhetim de vista.
Aliás, embora seja um entretenimento descompromissado, Três Graças traz críticas sociais importantes, algo que a antecessora Vale Tudo ficou devendo. Tudo isso faz com que a atual produção das nove seja uma das mais interessantes dos últimos tempos.
André Santana
31/01/2026

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