Já faz alguns anos que a Globo adotou a postura de não segurar mais artistas que estejam produzindo pouco. Assim que sua direção avalia que alguns medalhões não rendiam mais tanto quanto antes, ela trata de liberá-lo para o mercado. Claro, isso se intensificou mais nos últimos anos, com o tal projeto Uma Só Globo. Mas, anos atrás, quando nomes como Xuxa e Jô Soares se despediram, já havia um indício de uma nova direção.

Com a intensa movimentação do mercado e as novas estratégias de investimento, a coisa foi ficando cada vez mais evidente. Até chegar aos dias de hoje, quando vemos nomes como Miguel Falabella, Vera Fischer e, mais recentemente, Renato Aragão, deixando a casa. Percebemos que se trata de um caminho sem volta. Mas isso não significa que a Globo não quer mais estes artistas. A emissora ainda os deseja, mas só pagará por eles quando eles estiverem produzindo.

Isso ficou ainda mais claro com o anúncio da renovação de contrato de Thiago Fragoso. Ou seja, contratos longos ainda existem na emissora. E Thiago é um exemplo claro do critério adotado. Trata-se de um ator talentoso, muito bem aceito pelos espectadores e um profissional com o qual se pode contar. Ele não recusa papéis, e circula bem por todos os horários de dramaturgia da emissora. Aceita ser o mocinho, o coadjuvante e vilão de Malhação. Ou seja, é um bom negócio para a emissora mantê-lo, já que ele é um curinga. O canal sabe que pode sempre contar com ele.

Quanto aos que não tiveram o contrato renovado, a emissora faz questão de ressaltar de manter as portas abertas. Talvez o caso mais emblemático seja de Otaviano Costa, que deixou a emissora, mas foi convidado pelo GNT e acertou sua participação na Escolinha do Professor Raimundo. Outro caso que é pouco dito, mas que reflete bem este momento, é o de Angélica, contratada apenas para desenvolver seu novo projeto, Simples Assim. Em suma, atores e apresentadores que atuam por temporadas serão contratados por temporadas. Neste meio-tempo, eles ficam soltos no mercado, e podem voltar. Ou não. Não há mais uma rigidez, com contratos bem amarrados para se manter a exclusividade. Isso passou.

Sendo assim, este estranhamento todo percebido a cada anúncio de fim de contrato parece meio descabido. Não é de hoje que a emissora tem agido assim. Tudo bem que é esquisito ver a Globo abrindo mão da exclusividade de nomes que fizeram a sua história. Mas entende-se que se trata de uma movimentação natural do mercado. E que faz todo o sentido nos dias de hoje.

E pode ser ruim para o artista acostumado à segurança de um contrato. Mas, por outro lado, esta nova etapa resulta numa movimentação muito interessante. Renato Aragão, por exemplo, se mostrou animado com a possibilidade de explorar outros mercados. Miguel Falabella também acenou com o ânimo de poder mostrar seus projetos a outros canais ou plataformas, e não apenas à Globo. Num momento em que o streaming parece ganhar força, ter talentos deste tamanho disponíveis para novos projetos parece bom para o futuro do audiovisual brasileiro.

André Santana